Gabriel Borges cativa crianças como fada da “Cinderela”

(Foto: Magno Scramignon)

Quem vai ao Teatro Fashion Mall, em São Conrado, para assistir ao infantil “Cinderela” acaba se surpreendendo – por mais que a história seja velha conhecida de todos. Quem faz a fada madrinha é um ator. Na verdade, a fada da montagem, dirigida por Luisa Thiré e em cartaz até domingo (14/5), é uma drag queen! A personagem é vivida por Gabriel Borges (de “Íntimo”), e as crianças adoram. “O público sempre aceitou muito bem. Nunca ouvi nenhum comentário negativo a esse respeito”, a diretora diz ao Teatro em Cena, “a fada recebe aplausos em todas as apresentações. A drag-fada é a personagem mais unânime da peça, sem dúvida”.

A ideia de ter uma drag queen como fada madrinha de “Cinderela” surgiu no início da produção do espetáculo. Gabriel é produtor da peça, e Luísa Thiré pensava em qual papel ele poderia desempenhar na história, até que se lembrou que ele já se apresentava como drag, com o nome de Gabriela Pimentel. Ela achou que tinha tudo a ver. “Fada é fada, é igual anjo, duende. Fada não é homem, não é mulher. Acho que não precisa ser. Por que não ser uma drag? É divertido, engraçado, poderoso”, defende a escalação. Além disso, Gabriel também aponta que o próprio texto, assinado por José Wilker (1944-2014), trata a fada como uma entidade fantástica – que, portanto, pode ser tudo. “Ela está muito acima de qualquer preconceito, qualquer estereótipo”, pontua, “a gente vive em um mundo extremamente preconceituoso, então, para mim, é uma ação poder estar de drag queen no palco, em um espetáculo infantil, atingindo indivíduos em formação. É extremamente importante”. O espetáculo existe desde 2015 e eles garantem que nunca ouviram nenhuma crítica com relação à fada ser interpretada por um homem. Pelo contrário.

(Foto: Rafael Magalhães)

As crianças menores compram a personagem de cara. As maiorzinhas até entendem que é um ator, mas embarcam na fantasia. Gabriel confessa que, antes da estreia, estava receoso, porque não sabia como a fada-drag seria recebida. Ficou surpreso com tamanha aceitação. “Fui me apaixonando cada vez mais pela personagem a medida que percebia essa comunhão com o público infantil. As crianças ficam encantadas e a entendem mesmo como um ser mágico. Ficam olhando fascinadas para as cores, o brilho, a maquiagem, a roupa, o tamanho da peruca… Quando acaba a peça, mantenho a voz, a densidade, e recebo o público. Os adultos também encaram como uma coisa lúdica”, conta o ator.

Situações engraçadas, claro, também acontecem – naturais quando trabalho é voltado para as crianças. Certa vez, no fim de uma apresentação, duas meninas falaram para a fada que ela tinha “alguma coisa estranha, porque parecia tudo misturado”. Outra vez, Gabriel panfletava no shopping, caracterizado, quando um menino se pendurou em suas asas e gritou para todos ouvirem: “ela é homem, ela é homem!”. Ele respondeu “no teatro, a gente se transforma em tudo” e saiu cantando shopping afora com sua varinha. Mas são casos pontuais. “As crianças torcem pela fada, falam tudo para a fada, amam a fada. Não sei se são todas que percebem que é uma drag queen, mas isso não faz diferença”, conclui a diretora, “a fada é uma força, que pode ser essa poderosa e luminosa. O Gab, com essa drag queen, trouxe isso para o espetáculo”.

(Foto: Victor Macedo)
(Foto: Victor Macedo)

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SERVIÇO: sáb e dom, 17h30. R$ 60. 70 min. Classificação: livre. Até 14 de maio. Teatro Fashion Mall – Shopping Fashion Mall – Estrada da Gávea, 899 – São Conrado. Tel: 2422-9800.