(Foto: Divulgação)

Eis a questão: na complexidade de ser ou não ser, eu me vi atordoado entre duas personalidades. Uma que traduz tudo o que por tempo eu não entendia e a outra que passa na carne todas as mazelas e prazeres mundanos. Por trás de uma máscara dramática representada por um olho roxo feito com um batom que custa menos de 20 reais, existe um ser humano em construção artística e social. Há um processo em amadurecimento. Um sujeito sem nome e sobrenome, de artigo indefinido. Alguns até chamam de William, outros simplesmente de Will e alguns mais, de certos adjetivos que desqualificam minha moral e ética e não vem ao caso. Mas o fato é, existe alguém por trás das diligências de Blackyva, alguém que vem das quebradas, de uma periferia que muitas vezes esteve em foco pela violência ou por um processo bruto de pacificação. Alguém que vem do alto do morro e se orgulha muito disso. Blackyva tomou uma proporção em minha vida que em certos momentos eu mesmo não faço ideia de quando sou eu e de quando é ela, pois foi tomando conta de mim fora dos palcos também. Não que Blackyva seja uma personagem. NÃO MESMO! Costumo dizer que Blackyva é a minha persona NEGRA E DIVA. Blackyva é o estágio de vivências e de um estado onde há a possibilidade de falar, porque terão pessoas escutando, debatendo e compartilhando das mesmas questões que eu.

As pessoas projetam ideias que as vezes nem é o que queremos ou acreditamos. Tentam nos encaixar em algum molde social para que possamos ser compreendidos por elas, já que desde pequenos aprendemos que ‘’menino veste azul e menina veste rosa’’, só que eu NUNCA GOSTEI NEM DE AZUL E MUITO MENOS DE ROSA. As pessoas distantes e próximas começaram a me cobrar uma resposta de algo que eu ainda estava entendendo. E nesse meio tempo, quando comecei a levantar meus próprios anseios, tive uma enxurrada de ‘’Desculpa, mas como eu te chamo agora?’’, ‘’Nossa! Você está quase uma mulher. Por que não opera logo?’’ e dentro de mim, apenas a vontade de continuar no tempo das minhas descobertas, navegar dentro de mim e não dar respostas prontas por uma cobrança que talvez mude daqui há 10 dias ou até mesmo 10 anos. Mas que parta de mim, que eu possa ser honesto comigo mesmo. Entendo que quando não se sabe o modo que quer ser tratado, as portas estão abertas pra te tratarem de qualquer jeito. Contudo, sinto que sou uma obra inacabada pela natureza e tão grandiosa quanto qualquer outra transformação que venha dela. Eu sou água da chuva que evapora e dá lugar as sete cores do arco íris. Eu sou a serpente que sobrevive ao mais intenso calor do deserto. Sou parte dessas inúmeras vozes que surgem gritando que não suportam mais o mundo que nossos pais nos deixaram. Vozes que emergem de um Brasil doente e esquecido. Blackyva é uma obra criada para que eu pudesse falar sobre minhas inquietudes e aprender. E estou tendo o prazer de viver coisas incríveis. Não quero que Blackyva esteja num lugar leviano, até porque, como já dito, estou aprendendo e me conhecendo. Eu não sou essa figura 24 horas por dia, e nem pretendo ser. Quero poder fraquejar, quero poder chutar o balde, quero as vezes não levantar bandeira nenhuma, não brigar, por simplesmente estar cansado. Quero poder apenas respirar. Ressaltar minhas qualidades e manter meus pés no chão.

Eu sou Blackyva. Mas Blackyva não sou EU.

Blackyva é atriz e funkeira.