Década de 1950. Mulher apaixonada é abandonada pelo noivo às vésperas do casamento. Sofre muito, claro. Sofre demais e, sua família sem saber como lidar com tanta dor, decide interná-la em uma clínica psiquiátrica. Ela permanece no sanatório por 15 anos, submetida aos piores tratamentos psiquiátricos da época. Excluída e debochada pela própria família. Morre virgem e infeliz. Não é ficção. Seu nome é Dulce. Essa história realmente aconteceu – e agora poderá ser vista no teatro, com o espetáculo “A Noiva de Cristal”, que estreia na sexta (23/3) no Teatro Glauce Rocha, no Centro.

(Foto: Divulgação)

– A Dulce é minha prima-avó. – conta o autor e diretor Márcio Azevedo (de “Corta!”) – Ela esteve internada algumas vezes. Fui criado com ela e as únicas pessoas que não tinham preconceito eram minha mãe e eu. Todo mundo tinha medo dela, porque ela “era louca”. Essa história mexe muito comigo. Somos uma família de italianos e todos meus tios ficavam mostrando o pênis pra ela, passavam a mão na bunda dela, e ela tinha crises, porque era virgem, intacta. Toda vez que o assunto era sexo, ela tinha uma crise, um surto.

A peça, escrita em um rompante em 48 horas, utiliza também fragmentos de textos de grandes autores para traçar essa narrativa. O texto busca questionar até que ponto alguém pode interferir na vida e no destino de um ser humano – sobretudo excluindo-o socialmente. Também pensa sobre o sistema manicomial, que recolhia todo tipo de pessoa “fora dos padrões” – fosse por características sexuais, religiosas ou comportamentais – como também mostrou outro recente espetáculo na cena carioca, “Colônia”, monólogo com o ator Renato Livera (de “Cachorro Quente”). Em “A Noiva de Cristal”, o elenco é formado por Ana Guasque (de “Sobre Ancas”), Joana Izabel (de “Sonho de uma Noite de Verão”), Thaís Petzhold (de “SeteOito – Impermanências”), Caroline Vetori (de “Mani Maioca”) e Fabrício Zavareze, que vem de uma temporada em Porto Alegre.

– A gente tem feito debates com psiquiatras e pessoas da área. Uma das coisas que a gente tem percebido é que parece que o sistema manicomial mudou, mas não mudou tanto. Ainda existem manicômios com choque elétrico, tortura. A gente percebe uma mudança, claro, mas não é tão assim. – diz Márcio Azevedo – “A Noiva de Cristal” deve ser vista por vários públicos. Todas as pessoas que têm alguma doença ligada à psiquê deveriam ver, porque o espetáculo aborda o preconceito, como as pessoas não tocam, tem medo e repudiam quem já passou por uma clínica.

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SERVIÇO: sáb e dom, 19h. R$ 40. 70 min. Classificação: 16 anos. Até 1º de abril. Teatro Glauce Rocha – Avenida Rio Branco, 179 – Centro. Tel: 2220-0259.