“Há uma defasagem entre a necessidade do teatro e a presença do teatro na sociedade”

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O diretor Aderbal Freire-Filho (de “Incêndios”) não está com nenhum projeto novo encaminhado – por vontade própria. Ele decidiu fechar-se para balanço nesse cenário de crise. “Estou num período de reflexão. Pensando muito, na verdade repensando, porque isso a gente está pensando a vida inteira: o sentido do teatro na sociedade de hoje. No mundo inteiro, o que é o teatro nessa sociedade tão globalizada, tão instantânea, tão dominada pela máquina? Isso faz pensar que o teatro é, então, tão necessário, mas ao mesmo tempo essa necessidade nunca é tão reconhecida. Há uma defasagem entre a necessidade do teatro e a inclusão e a presença do teatro na sociedade”, avalia o artista, quando perguntado sobre projetos pelo Teatro em Cena. Ele está, de fato, negando convites ultimamente. “Não estou querendo fazer qualquer coisa. Quer dizer, nunca quis, mas especialmente neste momento. Estou reconstruindo um pouco os meus pensamentos, estou escrevendo… não sei ainda aonde vou chegar”.

Suas obras, no entanto, seguem em circulação. “Os espetáculos estão aí. Eu que não estou ensaiando nem preparando nada”, diz. “Céus” vai fazer temporada em São Paulo. “Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum” continua em turnê. “A Paz Perpétua” tem apresentações marcadas no Festival Internacional de Teatro de Brasília. Até no Uruguai, tem trabalhado rolando: Aderbal dirigiu uma montagem de “Incêndios” que voltará em cartaz em breve, além de estudar convites para partcipar de festivais na Colômbia e na Costa Rica.

No Brasil, a reflexão de Aderbal também esbarra em uma insatisfação com o descaso do governo com a cultura. “O teatro parece tão desimportante… O Estado não percebe a necessidade de uma atenção para isso. Faz como se fosse uma coisa normal não pagar o fomento, por exemplo. Propõe e não cumpre”, diz, referindo-se ao calote da Prefeitura do Rio no Programa de Fomento às Artes 2016. R$ 25 milhões deixaram de ser pagos, não honrando o compromisso com 204 projetos contemplados. “Isso só existe porque o teatro parece não ter força, apesar de ser potencialmente muito forte, ele realmente não expressa essa força nesse momento”, lamenta Aderbal, “não é muito de se surpreender no estado de coisas que a gente vive: o país que vive um golpe, um estado de cinismo absoluto, um gangsterismo no poder, enfim, todas essas coisas”.