Representatividade. Liberdade de expressão. Transfake. Censura. Essas são palavras que têm esquentado o debate em torno do espetáculo “Gisberta”, monólogo de Luis Lobianco (de “Portátil”). O ator cisgênero (nomenclatura usada para se referir à pessoa que se identifica com o “gênero de nascença”) é criticado por apresentar no teatro a história de uma transexual brutalmente assassinada. Quem critica acredita que ele se apropria de um universo ao mesmo tempo que exclui os verdadeiros trans (não há nenhum na produção, nem mesmo fora de cena). Como resposta, a atriz Sophi Saphirah (de “Bacantes”, do Teatro Oficina) promete fazer uma homenagem à Gisberta no teatro em maio. O anúncio foi feito por ela nesta semana via Facebook: “eu sou Gisberta, eu sou trans e sou atriz”. E, no post dela, não faltam alfinetadas em Lobianco. “Gisberta, também atriz, morreu no ano em que nasci, vítima de transfobia. Nós trans carregamos as histórias de todas as pessoas trans junto com a gente, de tanta gente invisibilizada… Hoje, em 2018, tem homem cis apagando, silenciando pessoas trans e suas histórias, sem o mínimo de preocupação com nossas lutas. Tem ator cisgênero fazendo transfake, ganhando dinheiro a partir da história de gente muito fod* que morreu por transfobia, estereotipando tais pessoas, e além disso tenta nos reduzir em ataques transfóbicos pessoais e pior, mantendo uma posição que contribui pra essa grande transfobia estrutural, sem dar ouvidos pras travestis, e além disso ainda movimentando seus fãs com discursos de ódio”, escreveu.

(Foto: Reprodução / Facebook)

Sophi Saphirah, inclusive, divulgou um pôster no qual copia a arte do espetáculo “Gisberta”, como uma provocação. Ela promete fazer a personagem dentro do espetáculo “Eu Sou Eu Porque Meu Cachorro Me Conhece”, que está com temporada marcada para maio na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca. Segundo a atriz, ela pretende afirmar, dentro da peça, que “essas histórias são nossas” e que “a ‘liberdade do ator’ ainda não existe”. A notícia foi bem recebida por pessoas trans no perfil pessoal dela no Facebook, mas gerou controvérsia com cisgêneros. Em resposta a um opositor, Sophi disse: “fazer arte vai muito além de ‘fingir ser outra pessoa’, é sobre estar presente, entender o mundo, se relacionar com as pessoas, com a sociedade que a gente faz parte. Se você se diz aliado, deveria nos escutar e refletir, mesmo que você não tenha a capacidade de entender agora. Você não é livre pra fazer o que quiser e se pudermos censurar transfobia, machismo, racismo, homofobia vamos sim! Isso nos mata, através também de atores CIS como você que pensam que podem fazer tudo. Não, você NÃO PODE fazer uma mulher, NÃO PODE blackface e NÃO PODE transfake”.

Na última semana, Luis Lobianco relatou – também no Facebook – que sua apresentação no Teatro Rival, local famoso por acolher travestis e drag queens no Centro, sofreu um duro protesto. Irritado com a situação e apoiado pelos amigos atores, ele cobrou que o ativismo trans busque levantar seus próprios projetos ao invés de criticar o trabalho dele. “Ofender o público do Rival, que tiro no pé! Tantos anos de luta para avançar na conscientização sobre LGBTs e, num dia de inconsequência e incoerência total, tudo ali em risco. Afastamento e antipatia. Me recuso ao debate de Facebook”, chegou a dizer, “escreve um projeto, coloca a energia da inveja produzindo algo! Sou da ação e você é militante de teclado. Eu e o público somos REAIS!”.

(Foto: Divulgação)

ATUALIZAÇÃO 15:00
Após a publicação da notícia, a atriz Sophi Saphirah e sua diretora Martha De Mello Ribeiro procuraram o site para esclarecer que não estão copiando a peça de Luis Lobianco. Ela disse que também não contará a história da Gisberta em “Eu Sou Eu Porque Meu Cachorro Me Conhece” e sim fará uma homenagem. “Estarei em outra peça, com outra linguagem e narrativa, que discute sobre identidades, onde há uma fala em questão em homenagem à Gisberta, Dandara dos Santos, Xica Manicongo e Thelma Lipp. A imagem é uma resposta à peça do Lobianco, mas não tem a ver com o espetáculo. É muito importante deixar isso claro pois não estamos plagiando nenhum espetáculo nem ninguém”, diz a artista..