Adriana Falcão, autora do livro que deu origem ao espetáculo “A Gaiola” (Reprodução: Ana Branco / Agência O Globo)

Novamente em cartaz, o musical infantil “A Gaiola” já recebeu sete prêmios CBTIJ (incluindo melhor espetáculo) e cinco prêmios Botequim Cultural (incluindo melhor espetáculo infantojuvenil). Adaptação do livro homônimo da escritora e roteirista Adriana Falcão, o espetáculo conta a história de amor e separação entre uma menina e um passarinho, em busca de liberdade. Sensível, a peça comoveu plateias e a crítica especializada. De volta aos palcos cariocas, comemorando um ano em cartaz, agora no Teatro Ipanema, sábados e domingos às 16h, “A Gaiola” recebeu mais dez indicações a prêmios para seu currículo – desta vez ao Zilka Sallaberry, o mais antigo em atividade para o teatro infantil. A equipe está toda em festa.

– Eu gosto desse livro. Tem alguns livros meus que eu detesto e morro de vergonha de ter escrito. Desse, eu gosto. – Adriana Falcão confessa, em entrevista ao Teatro em Cena – Acho que esse livro questiona com muito cuidado os sentimentos de perda que a gente tem ao longo da vida. Que a gente tem o tempo todo! Separação é muito triste e você fica se perguntando se tem um jeito de dar certo, da gente nunca perder. Acho que “A Gaiola” é um pouco isso: aquela menina e o passarinho pensando num jeito de continuarem juntos sem precisar de uma gaiola. Acho a montagem uma joia. A direção da Duda [Maia], a atuação da Carol [Futuro] e do Pablo [Áscoli], as músicas do Ricco [Viana], acho tudo de um extremo bom gosto. Acho um dos espetáculos infantis mais lindos que eu já vi na minha vida, modéstia a parte. Não é nem modéstia a parte, porque o espetáculo quem fez foram eles, eu só fiz o livro.

Carol Futuro e Pablo Áscoli em cena de “A Gaiola” (Foto: Divulgação)

Na verdade, ela cuidou da adaptação com o ator Eduardo Rios (um dos membros da Barca dos Corações Partidos), que ela conhece desde que era menino. Da mesma maneira que Adriana tem longo histórico com o público infantil – na literatura, com vários livros publicados – ele já fez muitas peças para crianças e, inclusive, integrou o grupo Doutores da Alegria. Comunicar-se com os pequenos é algo que ambos gostam. Para transformar a peça em musical, também contaram com o olhar da diretora Duda Maia (de “Auê”), que identificou as partes da história que poderiam ser contadas com música. Pelos prêmios, pode-se dizer que o trabalho deu certo. A produção e a equipe criativa só se ressentem da pouca abertura da mídia como um todo para “A Gaiola”. “Existe um preconceito com o teatro infantil, algo que eu sinto desde que trabalhava lá em Recife”, diz Eduardo, “é tratado como algo menor, o que não faz sentido”. Adriana concorda:

– Acho que tem uma banalização mesmo. Até porque tem algumas produções que são muito comerciais e vão atrás do óbvio. Nem do óbvio. O óbvio é que as crianças têm que ser instigadas. Hoje em dia, vejo tanta coisa legal! Mas eu lembro de uma época, quando minhas meninas eram pequenas, e você ia ao shopping com a menina vestida de Branca de Neve dando panfleto junto com os sete anões. A criança vai porque o bonequinho entregou o panfleto e o pai vai meio que pra se livrar da criança, para ela ficar quieta, sabe? Eu vejo teatro infantil, assim como qualquer outro, assim como o livro, porque “A Gaiola” era um livro, como um meio de dizer coisas bacanas, fazer pensar. Se a gente tem a oportunidade de fazer a criança pensar, por que a gente não vai aproveitar? É uma coisa que eu faço aqui na Globo também. Estou aqui agora. Escrevo “Mister Brau” e, quando as pessoas falam “ah, Globo, ah, não sei o quê”, eu respondo que é uma porta pra dentro da casa das pessoas. O que eu tento aqui na Globo é fazer com que as pessoas pensem nos produtos que eu escrevo. Nem sempre eu consigo, óbvio. No caso do teatro infantil, é bem isso também. Na verdade, o livro, né? Eu não me considero uma pessoa muito de teatro, apesar de ter convivido muito com o teatro por ter sido casada muitos anos com o João Falcão. Mas a minha onda é mais literatura e, como meio de vida, televisão e cinema, porque de literatura você morre de fome (risos).

Adriana com os atores e a neta Isadora, a quem a história é dedicada (Foto: Reprodução / Facebook)

Qual o feedback que você teve das crianças?
Muito legal! Inclusive, crianças muito pequenas. Fui com um menino de seis anos, filho da minha amiga, e falei: “é um espetáculo que tem muita palavra, muito pensamento, muitos questionamentos”. Não é aquele espetáculo infantil muito colorido, que pula pra lá, dança pra cá. Não é bem isso. Aqueles dois ficam quase parados. São movimento mínimos. E o menino ficou maluco com o espetáculo! Depois a mãe dele me disse que mudou a vida dele: “ele agora só quer saber de ir ao teatro”. Que legal! Agora, realmente, eu acho que a crítica e a classe artística receberam muito bem, mas o público e a mídia ficaram desproporcionais. Não consigo muito bem entender o porquê. Acho que foi um espetáculo bem divulgado. Realmente, não sei dizer porque aconteceu isso. Mas quem sabe agora nessa nova temporada, sei lá. Tem essa crise mundial doida, né? Essa crise humana! É… Não sei. Eu me lembro que outro espetáculo infantil meu, há quatro ou cinco anos atrás, foi “Mania de Explicação”, outro livro adaptado. Era com a Luana Piovani, um musicalzão, Gabriel Villela, o contrário da “Gaiola”, um espetáculo grande, no teatro Tom Jobim lá no Jardim Botânico, e a Luana Piovani esperava outro resultado de público. A Luana posta qualquer foto dela com o marido ou com o filho e tem 80 mil curtidas. Mas ela fez essa peça e o teatro estava sempre meia casa. Não sei. Acho que tem uma desvalorização do espetáculo infantil, sim.

“A Gaiola” foi adaptada paraco teatro depois de “Mania de Explicação”. Que cuidados implicam essa mudança de linguagem?
No caso de “Mania de Explicação”, era bem mais complicado e acho que a adaptação não foi tão eficiente. Foi minha com um colega, Luiz Estelitta Lins. O “Mania de Explicação” não tem história, né? São frases, pensamentos. Uma coisa de filosofia, poesia, enfim. Faltava uma história ali para ser contada e acho que a gente não foi tão feliz na adaptação quanto fui na adaptação de “A Gaiola”. Acho que fui mais feliz nessa de “A Gaiola”, porque não me preocupei muito em ser uma história com viradas, suspense, e não sei o quê. Não. Fui muito fiel ao livro, e o livro é muito delicado. Veio a Duda e fez um trabalho tão delicado em cima, que acho que tudo combina mais. Acho até que “Mania de Explicação” possivelmente tenha tido mais público e talvez mais mídia. Eu adorava também, achava lindo, por causa da direção do Gabriel! Aquele elenco maravilhoso! A atuação da Luana! Tudo impecável. Mas estou falando do meu trabalho. Acho que fiz melhor na “Gaiola”. Eu me sinto mais orgulhosa, no bom sentido, de ter feito esse trabalho. Eu vou ver “A Gaiola” e fico “uau!”. Eu ia ver “Mania de Explicação” e ficava vendo defeitos na adaptação: era um espetáculo todo lindo, que eu não via defeito em nada, a não ser na adaptação.

(Foto: Guga Melgar)

Você disse em uma entrevista que a inspiração para “A Gaiola” foi sua separação com João Falcão. É isso mesmo?
Foi, foi sim. Foi inspirada em todas as separações, na verdade. (pensa) Foi, foi exatamente na do João. É engraçado que eu tive uma neta no dia 3 de novembro de 2009 e a gente se separou no dia 10 de dezembro de 2009. Um mês depois de eu ser avó. Essa coisa do infantil voltou na minha vida, com a minha neta, e é uma coisa que eu adoro. Eu convivia muito com ela naquele começo que você acha que vai morrer, que não vê solução para sua vida. Eu dediquei o livro para ela, e mandei a história para o João antes de publicar para ver se ele achava legal.

Mas quando bate o estalo de que uma história adulta, de casamento, de divórcio, pode ser contada de outra maneira para crianças?
Me bate porque eu fui uma criança… (pausa) Minha vida é meio doida, né? Meu pai se matou, minha mãe morreu de uma overdose. Eram pessoas inteligentíssimas, interessantíssimas, muito bacanas, muito legais, mas acho que desde criança eu tinha um certo medo de perder as pessoas. Acho que, naquele momento ali, eu pensei um pouco na Isadora e no quanto ela ia perder. Essa coisa mesmo que fica todo mundo falando: apego, desapego, não se apega, expectativa, não sei o quê. Tudo isso se passa na sua cabeça quando você está sofrendo. Você fica pensando nisso e eu ficava muito vendo minhas filhas, que já estavam adultas, e logo depois a Clarice se separou também. Eu me separei com 49, a Clarice se separou, sei lá, com 24, 23, mas é sempre meio parecido. Fica aquela sensação de que você não sabe viver. De que você precisa de um outro para viver. Tudo que o pessoal zen, da yoga, enfim, diz: você tem que encontrar em você mesmo. Isso é óbvio, claro. Mas é difícil, né? Achei que adaptando para a história da menina com o passarinho… Tem até uma música, que minha avó cantava para mim quando eu era criança: a menina que o passarinho fugiu, ela chorou, mas o passarinho ia ficar mais feliz, enfim. Eu acho que é uma metáfora onde cabe bem uma tentativa de ficarem juntos sem se sentirem presos. Acho que está na vida de todo mundo. A gente está sempre com essa questão.

Imagino que os pais também acabem gostando, né?
Eu imagino que sim. Imagino que sim, porque é uma reflexão que a gente faz o tempo todo, né? Eu fiz antes, no meu primeiro casamento, aí fiz depois, já vivi outra história, vivi essa reflexão mais uma vez… Como é que faz? Eu acho que, quanto mais cedo a gente falar e pensar nesse assunto com a criança, é melhor, né? Eu tenho um pouco isso com as minhas filhas. Desde elas muito pequenas, eu ia no ponto. Não poupava por serem crianças. Não. Acho que tem que falar de morte, de perda, de dor, de frustração, porque vai passar por isso.

Isadora, Adriana e a diretora Duda Maia (Foto: Reprodução/ Facebook)

E você gosta de escrever para criança, né? Tem vários livros infantis publicados!
Eu amo. Amo criança. Quando eu era criança, eu não gostava de brincar de boneca. Gostava de futebol. Quando fui mãe muito jovem, eu descobri com 17 anos, quando fiquei grávida, que nasci para ser mãe. Eu adoro criança. Adoro minha relação com Isadora, que é minha neta. Amanhã ela vai dormir lá em casa e já estou toda contente, pensando no que é que vou comprar, o que é que vou fazer. Eu gosto muito porque acho criança muito inteligente. A gente é tão cheio de preconceitos, de coisas pré-concebidas, de mundos que a gente se arma, e a criança vem com aquela ingenuidade genial. Acho que a gente tem muito para beber e aprender com elas.

E como é se colocar nesse lugar para se comunicar literariamente com o público infantil?
Para mim, não é muito difícil, não, porque acho que essa coisa da criança que vive dentro de você, comigo, ela é muito exposta e muito saliente, sabe? (risos) O meu humor, a maneira como escrevo para adulto, também tem esse olhar infantil, da ingenuidade, dessa coisa. Sempre busco esse olhar. Eu brinco muito. Sou muito de humor, de palhaçada, feito criança. Eu acho que é uma coisa muito minha mesmo, por isso que gosto tanto. Eu me identifico muito.

Na sua infância, você já tinha essa relação com livros e teatro?
Muito, muito, porque meus pais eram pessoas muito cultas e muito inteligente. Muito especiais e muito bacanas. Lá em casa, sempre teve o hábito da leitura. Minhas irmãs mais velhas liam pra caramba. Com 11 anos, eu me mudei para Recife, mas quando morava aqui no Rio, eu me lembro de uma época ir quase todo fim de semana ao Tablado. Meu pai e minha mãe me levavam para ver “Pluft, o Fantasminha”, “O Cavalinho Azul”… Eu tenho essa sorte de ter visto em cena, quando era criança, a história da Maria Clara Machado. Eu me lembro de ter visto “Sonho de uma Noite de Verão” para criança. Eu estava sempre no Tablado com meus pais. É engraçado que, depois, não fui pelo caminho do teatro, mas me reencontrei com ele quando comecei a namorar o João, que é uma pessoa que ama teatro. A partir daí, tive de novo uma relação muito próxima com teatro. Hoje em dia, tenho menos, mas fico muito feliz quando “A Gaiola” está em cartaz. É um espetáculo muito lindo e, de verdade, acho muito legal que as pessoas vejam. Não é só para passar hora de pai separado que não sabe o que fazer com os filhos. (risos) Graças a Deus, isso está mudando. Essa geração nova não tem mais esses padrões machistas que a minha tinha.

Outros projetos no teatro?
Tenho! Estou dizendo aqui que não sou ligada ao pessoal do teatro, mas escrevi, há algum tempo atrás, um texto com Luis Estelitta Lins, o cara com quem adaptei “Mania de Explicação”. Foi logo depois de “Mania de Explicação”. A gente escreveu um texto sobre Jesus. Um texto muito perigoso, eu diria, porque sou apaixonada por esse personagem, por essa pessoa, por Jesus. Mas é um assunto muito delicado, né: religião. Esse texto ficou escrito e, há seis meses atrás, a Cássia Villas Boas, que produziu “Mania de Explicação”, me ligou e disse que pegou o texto de Jesus, achou lindo e queria dirigir. Perguntou se eu cedia, e eu disse claro! O Luiz ficou todo feliz também. Aí fui em uma leitura na casa da Cássia e eles já vão estrear – a gente já vai estrear – agora no comecinho de agosto no Sesc Copacabana. O título é “Pai”. É muito bonito, tem tudo para ficar um espetáculo muito comovente.

(Foto: Divulgação)

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A GAIOLA: sáb e dom, 16h. R$ 40. 50 min. Classificação: livre. Até 30 de julho. Teatro Ipanema – Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema. Tel: 2267-3750.