Baseado em fatos reais: mãe do diretor Reiner Tenente inspira musical (Foto: Divulgação)
Chega ao palco, nesta semana, a história de uma cantora arrogante e muito talentosa, internada em uma clínica de reabilitação por uso abusivo de drogas. “Qual?”, você deve estar se perguntando. Opções, infelizmente, não faltam. Mas, calma: não é a biografia de nenhuma grande estrela da música nacional ou internacional. A protagonista é Norma, uma criação fictícia – bem, em termos. Ela é inspirada na mãe do diretor da peça, Reiner Tenente (de “Ordinary Days”). O público poderá conhecer essa trama, com um pouco de verdade e um pouco de invenção, quintas, sextas e sábados de maio, no Teatro Serrador, no Centro. É o musical “Só Por Hoje”, um espetáculo de Reiner Tenente e Tiago Rocha.

– É um trabalho muito especial para mim. – Reiner Tenente diz ao Teatro em Cena – Minha mãe é adicta: tem dependência ao álcool. A luta dela para se manter sóbria, buscar a dignidade de sua vida e se manter inteira, plena, foi algo que sempre me comoveu muito. É uma doença e a pessoa precisa fazer escolhas que são muito árduas para ela. Manter-se sóbrio é uma escolha muito dolorosa, e continuar usando a droga, o álcool, é outra escolha dolorosa. Eu a achava uma guerreira por isso, por optar estar sóbria. Foi essa questão que a gente levou para a protagonista. É tipo transformar veneno em remédio: pego uma coisa que foi muito ruim na minha vida e transformo isso em algo positivo para mim e para outras pessoas.

O musical é resultado de um processo de um ano e meio de pesquisa, e mais três meses de ensaio. Reiner e Tiago desenvolveram a peça com atores da Escola SESC em 2014, e o aprimoraram para a estreia neste ano, com alunos e ex-alunos do CEFTEM, escola de teatro musical administrada por Reiner: são mais de 30 atores, divididos em dois elencos que se alternarão. O projeto tem orientação artística de João Fonseca (de “Cássia Eller, o Musical”). As canções, integradas à dramaturgia, são todas originais, assinadas por Tiago Rocha e João Bittencourt. Uma delas foi apresentada em um seminário do CEFTEM em 2014, mas essa é a primeira vez que “Só Por Hoje” é montado de verdade.

Thainá Gallo é Norma (Foto: Bernardo Santos)

A escolhida para ser Norma no palco é a atriz Thainá Gallo (de “Cássia Eller – O Musical”), estreante como protagonista. O diretor destaca sua maturidade e dedicação quase religiosa ao ofício como motivos para sua seleção. E Thainá realmente se empenhou. Foram três meses de ensaios intensos e desgaste emocional, além de pesquisas de referências para a personagem, como Elis Regina, Amy Winehouse, Cássia Eller e Janis Joplin. Ela só soube que Norma é inspirada na mãe do diretor faltando duas semanas para a estreia, o que considera um alívio.

– Ele falou “Thainá, preciso te contar uma coisa: a Norma é minha mãe”. E eu disse “WHAT?” [O QUÊ?]”. Fiquei bege, mas falei “muito obrigada por ter me contado isso só agora”, porque não sei como teria sido se eu soubesse antes. Eu poderia ter travado. – ela dá uma pausa, pensando – Foi bom ele ter me contado isso depois da personagem já estar criada, com tudo amarrado. Claro que muita coisa da peça é ficção, não aconteceu de verdade, mas é uma responsa! Imagina: tu descobre que está interpretando a mãe do diretor. O negócio fica puxado…

Além de viciada, a personagem Norma é suicida e mantém uma relação difícil com a filha. “Ela é muito complexa”, atesta a atriz, “no início do processo, eu sonhava que estava grávida, que tentava me matar, essas coisas. Mas, agora no fim do processo, consigo me divertir muito fazendo”. Apesar da densidade da história, há uma chave de humor em personagens secundários, para tornar a experiência mais palatável para o público. Mesmo assim, não se trata de um musical de puro entretenimento. Longe disso, garante a atriz e o diretor.

– As pessoas vão assistir a um espetáculo em que vão até se divertir, porque as canções estão muito bonitas e há esse lugar estético, mas também levantamos questões. Não fica diversão pela diversão. Ela está ali inserida em um contexto pensado para contar essa história da melhor forma possível. A comédia não entra só para divertir as pessoas: tem um lugar de alívio cômico, que faz com que a plateia consiga ver contrastes com os momentos densos. As pessoas vão se divertir, mas também levantar questões. – adianta o diretor.

(Foto: Bernardo Santos)

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SERVIÇO: qui a sáb, 19h30. R$ 40. 140 min. Classificação: 14 anos. Até 27 de maio. Teatro Serrador – Rua Senador Dantas, 13 – Centro. Tel: 2220-5033.