Não faz muito tempo, cerca de 20 anos, e o Brasil não tinha suficientes artistas com real preparo para teatro musical. Ou eram ótimos atores, mas nunca tinham feito uma aula de canto, ou eram excelentes cantores, mas canastrões. Na dança, enganava-se, quase sempre. O cenário mudou, felizmente, e hoje em dia as audições para esses espetáculos são concorridíssimas, porque a nova geração chegou muito preparada e focada. Atua, canta, dança e, se precisar, sapateia, toca instrumentos musicais e se arrisca na técnica circense. O mercado está tão aquecido que já exporta talentos para outros países. Atores como Tiago Barbosa (de “O Rei Leão”), da Baixada Fluminense, e Myrthes Monteiro (de “My Fair Lady”), de São Paulo, despontam na Europa. Já a montagem de “Les Misérables” no México tem quatro atores brasileiros no elenco – três deles em papéis principais. Foram chamados após seu desempenho na temporada no Teatro Renault, em São Paulo.

(Foto: Ocesa)

A maioria dos casos acontece assim. Os atores trabalham em franquias de musicais internacionais em São Paulo e chamam a atenção dos diretores gringos. Na reta final da temporada de “Les Misérables” no Brasil, Clara Verdier (a Cosette), Nando Pradho (o Javert), Laís Lenci (cover de Cosette) e Leo Wagner (cover de Jean Valjean e Javert) foram chamados para a temporada mexicana. Isso é mais comum do que se pensa. O ator espanhol Daniel Chagas, por exemplo, fez Jean Valjean na Espanha, no Brasil e seguiu para o México também. Aconteceu do mesmo jeito com Tiago Barbosa: destaque como “Simba” em “O Rei Leão” foi chamado para fazer “El Rey León” na Espanha. Detalhe: ele não falava espanhol. Ah, vale ressaltar: a galera de “Les Mis” também não. Isso, geralmente, não é problema. Um intensivão e a própria vivência no idioma ajudam os atores até a estreia. A pressão também deve surtir efeito.

Tiago Barbosa, no entanto, preferiu abrir mão do papel protagonista em sua chegada a Madri. “Eu falava apenas inglês!”, Tiago conta ao Teatro em Cena, “não dava para ser protagonista de uma obra. Então, aceitei a proposta visionária da empresa para que iniciasse esse ciclo como cover! A princípio, eu era o quarto cover em uma escala de prioridade. Imaginem vocês: depois de tantos prêmios e consagração no Brasil, cheguei aqui com muito orgulho para carregar um elefante de 200 kg!”. Fez muitas aulas de espanhol e de fonética. Hoje em dia, já é o titular de Simba em Madri, com contrato renovado por mais um ano. A diretora americana Julie Taymor, responsável por “The Lion King” na Broadway, o considera um dos melhores Simbas do mundo. O musical já foi montado em 19 países.

(Foto: Divulgação)

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Como Tiago e o elenco de “Les Misérables”, Myrthes também viajou com a cara e a coragem para Alemanha, depois de passar em um teste para “The Lion King” em Hamburgo, na Alemanha. “Não falava alemão, nem inglês, nem nada. Somente português. Mas assim que cheguei fui muito disciplinada, comecei minhas aulas imediatamente, pois eu sabia que para chegar a um papel de protagonista, precisaria falar fluentemente o idioma. Além do alemão, aprendi também inglês e espanhol”, diz. Já está na Alemanha há 11 anos e é uma estrela de musicias na Europa, tendo atuado também na Áustria e na Suíça. Já estampou capas de revistas e concedeu entrevistas para a TV. Mas não foi fácil. “O público espera uma fala perfeita como a dos alemães que estão ao seu lado no palco, afinal muitos deles perderam uma vaga para você”, ressalta a atriz, que é a princesa Jasmine de “Aladdin” há três anos no país. Em outubro, se mudará para Áustria para protagonizar “An American In Paris” e depois “Ragtime”. Acabou que sua carreira aconteceu lá fora.

– Acho que a melhor parte da carreira internacional é poder estar em contato direto com diretores renomados e ter a oportunidade de ser dirigida por esses grandes nomes. É realmente uma honra. Consegui com dedicação, fé e muito esforço conquistar meu espaço e fazer um nome na Alemanha, Suíça e Áustria. Eu gosto muito de trabalhar na Europa e de ter a oportunidade de atuar em seus teatros tão lindos e em produções tão caprichosas. – diz a atriz – Os países da Europa valorizam muito a arte e a cultura. Artista na Europa é uma profissão de alto nível e é também muito bem reconhecido. Fora que Alemanha, Suíça, Áustria, são países ricos e que tem condições financeiras para valorizar a arte (e também coerência na hora de redistribuir o dinheiro público). Além de tudo, tem uma moeda muito forte. São países de uma tradição cultural muito antiga, países que valorizam seus teatros municipais e estaduais, que são teatros de luxo, muito bem cuidados. O artista na Europa não precisa lutar pelo seu direito, pelo contrário, é muito reconhecido e admirado.

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A remuneração em euro chama atenção dos brasileiros, claro. Atualmente a cotação está mais de 4 reais para 1 euro. Mas Tiago gosta de destacar: “você ganha em euro, mas gasta em euro!”. Na verdade, nem tanto: não há muito tempo para gastar dinheiro. As produções internacionais só dão uma folga por semana para os artistas. No geral, eles só querem descansar nos dias livres. “Vejo os atores de teatro musical no Brasil se queixando que fazem sete ou oito shows na semana. Aqui nós fazemos de nove a dez semanais, com folga só na segunda-feira”, ele conta. Já acostumada à rotina intensa de trabalho, Myrthes diz que é assim mesmo: “e, se der mole, tem uma fila de gente querendo entrar no seu lugar. O reconhecimento é grande, mas se trabalha muito”. Todos citam também a saudade de família. Contato, só pela Internet. Durante as temporadas, é impossível viajar ao Brasil. Tem que esperar as férias ou o fim do contrato. Quem pensa em trilhar a carreira internacional, tem que ter essa consciência: abre-se mão da convivência com os familiares. Namoros, em geral, também não suportam a distância por tanto tempo…

Destaque no elenco de “Les Misérables” no México, Leonardo Wagner deixou o marido Carlos Arruza (de “A Noviça Rebelde”) no Rio de Janeiro. Estavam acostumados à ponte aérea Rio-SP e agora a realidade é de quase dez horas de voo – se não houver escalas e conexões. Até fuso horário entrou na realidade do casal. A distância das pessoas queridas é a pior parte dessa experiência, ele destaca. “Sorte ter a Internet hoje em dia, mas mesmo assim a saudade é muito grande”. Também sente falta do açaí. Ele viajou com a previsão de passar um ano no país, mas existe a possibilidade de prorrogar o contrato para 2019. Ainda não sabe o que fará, se isso realmente acontecer. A temporada é um sucesso e já atraiu mais de 100 mil espectadores em mais de 100 apresentações. Sua colega de elenco, Clara Verdier, está até indicada ao prêmio de melhor atriz de musical no México.

(Foto: Gilda Villarreal)

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No país, Leonardo também ganhou mais destaque dentro da produção. Ele era apenas cover de Jean Valjean (o papel de Hugh Jackman na adaptação cinematográfica) no Brasil, o que significa que só assumia o papel em eventualidades. No México, foi promovido a alternante e protagoniza o musical pelo menos uma vez por semana, estipulada em cronograma. Como já estava habituado ao espetáculo e ao personagem, focou nas aulas de espanhol quando chegou ao país e continua se empenhando na perda do sotaque. “Nunca tive uma crítica negativa com relação ao sotaque e isso me deixa muito feliz”. Sua estadia no país do “Chaves” também lhe rendeu contratos publicitários, incluindo uma campanha para a Televisa, a maior emissora de TV mexicana. Não há do que reclamar.

Questionado sobre um conselho para os atores que também querem fazer trabalhos internacionais, Leonardo Wagner dá a dica: fazer sempre seu melhor. “Não importa pra quem e quando, porque comigo o convite foi absolutamente inesperado, e tenho certeza que foi fruto de muito esforço e dedicação no meu dia-a-dia para entregar sempre a minha melhor perfomance para o público, independente se tinha diretor, produtor, alguém importante assistindo. E, claro, estar preparado. Para quando a oportunidade aparecer, estar pronto para encará-la”, conclui.