“220 Cartas de Amor” é o espetáculo que marca o 13º aniversário da Cia. Teatro Íntimo. E é mesmo uma obra bem íntima: trata-se de uma peça documental, escrita pelo ator Renato Farias (de “Erê, Piá, Curumim”) a partir das cartas trocadas por seus pais entre 1956 e 1962, período que antecedeu o casamento, quando namoravam à distância. No palco, as cartas do pai de Renato ganham vida na interpretação de seu filho e as cartas de sua mãe ganham a atuação de Gaby Haviaras (de “Erê, Piá, Curumim”), com direção de Rafael Sieg (de “Cabeça”). Além do inevitável voyeurismo despertado pelo acesso à correspondência alheia, o espetáculo também provoca uma volta no tempo, quando a própria relação com o relógio e o calendário era outra.

(Foto: Jessica Barbosa)

Mas essas não são as cartas de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre ou de qualquer outro casal que desperte interesse espontâneo nas pessoas. Maria de Lourdes Lang e Lourenço Renato Medeiros de Farias, os pais do ator, são importantes unicamente para ele. O conteúdo da correspondência, por sua vez, também não traz nada excepcional: são cartas triviais, por vezes entediantes, nos quais os personagens admitem não terem novidades e levarem uma vida ordinária. O amor presente no título do espetáculo se manifesta com recato e algumas crises de ciúme pouco calorosas (principalmente por parte do rapaz machista, controlador, retrato da época). Não há nada de verdadeiramente interessante, chamativo ou mesmo emocionante, de tal modo que a dramaturgia não supera a exclusiva natureza de curiosidade de um filho. Quero dizer: não existem elementos impressionantes na história do casal, nada que a justifique ser contada para o grande público, sinceramente.

Dito isto, ressalto os esforços do diretor para tornar atrativa a leitura e interpretação de documentos. No início, a encenação é mesmo fria, cada um com seus papéis na mão, e assusta a ideia de que o espetáculo possa ser inteiro assim. Felizmente, não é. São variadas e notáveis as buscas para teatralizar as cartas. Neste aspecto, as trocas de figurinos (assassinados por Tuca Sodré), detalhes do cenário (de Gigi Barreto) e vai-e-vém de adereços (de Guilherme Xavier) impulsionam a ação, sobretudo com o telão no fundo do palco, mostrando fotos, scanners e artes que envolvem o espectador. A iluminação de Nara Maia, todavia, é básica.

Renato Farias e Gaby Haviaras, em alguns momentos, são artificiais, principalmente ela na emissão de voz, o que os afasta dos personagens. Não ficou claro se essa é uma opção artística ou um deslize, porque há mesmo duas ou três quebras na atuação para que os atores se coloquem como eles mesmos e comentem o material que têm em mãos. A atriz, por exemplo, faz uma breve observação feminista sobre a realidade machista que a correspondência evoca, dando voz a uma percepção latente em (acredito) parte da plateia. Eu mesmo já havia torcido o nariz algumas vezes para o que escutava. Por outro lado, tratar do assunto como mera nota de rodapé não satisfaz. Essa é a única provocação que a leitura das cartas gera, e é totalmente desperdiçada.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Jessica Barbosa)

Ficha técnica
Dramaturgia: Renato Farias – a partir da correspondência de Maria de Lourdes Lang e Lourenço Renato Medeiros de Farias
Elenco: Gaby Haviaras e Renato Farias
Direção: Rafael Sieg
Produção Rio de Janeiro: Damiana Guimarães
Produção Porto Alegre: Nara Maia e Rodrigo Marques
Produção Santa Maria: Denise Copeti
Produção Florianópolis: Eveline Orth
Cenário: Gigi Barreto
Aderecista: Guilherme Xavier
Figurinos: Tuca Sodré
Iluminação: Nara Maia
Maquiagem: Ton Hyll
Seleção musical: Rafael Sieg
Projeto visual: Flávia Moretz e Dani Tinoco
Projeto gráfico: Tarcísio Lara Puiati
Fotos: Carol Beiriz
Assessoria de imprensa Porto Alegre: Adriana Jampert
Assessoria de imprensa Santa Maria: Adriana Lampert e Liciane Brum
Assessoria de imprensa Florianópolis: Eveline Orth

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SERVIÇO: sex a dom, 20h. R$ 30. 85 min. Classificação: 12 anos. Até 1º de abril. Sesc Tijuca – Teatro I – Rua Barão de Mesquita, 539 – Tijuca. Tel: 3238-2139.