Segunda peça de Leonardo Netto (de “Para os Que Estão em Casa”) montada no Rio de Janeiro, “A Ordem Natural das Coisas” acompanha um homem arrasado, trancado em seu apartamento por semanas, após ser abandonado no altar por sua noiva, na frente de todos os convidados. O espetáculo busca mostrar o poder de interferência dos outros – direta ou indiretamente – na vida de uma pessoa. O quanto de nossas vidas escapa do nosso controle? O protagonista é João Velho, que também fez “Para os Que Estão em Casa”, e a direção é do próprio dramaturgo, que também assina a trilha sonora.

(Foto: Dalton Valério)

Na história, João Velho é o publicitário Lúcio, estupefato diante da mudança de rumos em sua vida. Sua noiva não só o abandonou no altar, como não deu nenhuma explicação para isso. Recluso em seu apartamento, cheio de caixas da mudança que ela não chegou a fazer e de presentes do casamento que não se concretizou, ele conta com o apoio de Emiliano – seu melhor amigo (talvez único) e, coincidentemente, irmão da noiva. É esse homem, um consultor de feng shui, que tenta reanimá-lo enquanto coloca seus ouvidos à disposição. Lúcio, no entanto, só começa a dar sinais de alguma revitalização quando Cecíia, a vizinha de cima, passa a visitá-lo: eles se conhecem após o gato dela fugir e aparecer justamente no apartamento dele. A interferência dos outros pode ser também de um gato ou de um passarinho…

O texto de Leonardo Netto aproxima-se da filosofia quando discute o real controle de nossas próprias vidas, em oposição a todo tipo de interferência externa, para o bem ou para o mal. Também quando reflete sobre “o sentido” dos acontecimentos: realmente existe algum sentido maior ou pensar assim é só um analgésico para momentos difíceis? A peça alterna com naturalidade diálogos triviais e mais profundos, e tem dois pontos de virada, importantes para manter o interesse do espectador. Ainda assim, há excessos que passam a sensação de repetição. Os 90 minutos da encenação acabam sendo sentidos. Pequenos monólogos dentro do espetáculo, por exemplo, seriam facilmente cortados para garantia mais inquieto.

Ainda analisando o texto, um ponto me chamou a atenção: ao focar na interferência que os outros têm em nossas vidas, o autor concebeu um protagonista completamente passivo. Ele realmente não faz nada: só sofre ações – da noiva, do amigo, da vizinha. Lúcio não gosta de seu emprego como publicitário, mas não pede demissão. Tampouco vai trabalhar. Quer escrever um livro, mas tem bloqueio criativo. É largado pela noiva, e não vai atrás em busca de satisfações. Com relação às caixas entulhadas na sala: não as despacha nem as abre para organizar seu conteúdo. A noiva, enquanto personagem, mal existe: dela se ouve apenas um suspiro em uma mensagem na caixa postal. Ainda assim ela age mais na vida de Lúcio do que ele mesmo. É quase inverossímil a passividade dele com relação ao abandono no altar. Entende-se que ele está com algum nível de depressão, mas essa condição acaba empobrecendo a discussão da peça. É fácil entender o poder da interferência externa na vida de alguém quando não há nada além disso nessa vida.

João Velho está ótimo no papel – que não é singelo. Ele consegue comunicar com o olhar o turbilhão de sentimentos que se passa dentro do personagem, que não quer botá-los para fora, com pena de si mesmo. Toda sua construção contida e reprimida valoriza os posteriores rompantes. Sua relação com Cirillo Luna (de “O Princípio de Arquimedes”), que faz Emiliano, é muito convivente. Cirillo e Beatriz Bertu (de “Tubarões”) são os responsáveis por levantar a bola para João bater durante toda a encenação. Ambos igualmente competentes, com personagens mais palatáveis. Algo que vem do texto, e Leonardo soube valorizar na direção, é o humor irônico, que atenua os conflitos entre os personagens e torna Lúcio mais suportável em todo seu drama.

O espetáculo inteiro se passa na sala do apartamento. O cenário (de Elsa Romero) traz uma estrutura vazada – aberta a interferências – com uma porta vermelha por onde entram e saem Emiliano e Cecília, mas nunca Lúcio. João Velho está presente em 95% das cenas, entre as caixas que sublinham o caos na cenografia. A iluminação de Aurélio de Simoni traça recortes neste ambiente, por vezes realizando mesmo enquadramentos. A trilha sonora, assim como o cenário, está em interdependência com a dramaturgia, com clássicos do rock dos anos 1960. É um elemento narrativo. Os figurinos de Maureen Miranda, por sua vez, mostram, com mudanças de adereços, como a vida está passando para os demais fora do apartamento e está estagnada para o protagonista ali dentro. O conjunto é bem articulado. Bom espetáculo.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e pós-graduado em Jornalismo Cultural.

(Foto: Dalton Valério)

Ficha técnica
Texto e direção: Leonardo Netto
Elenco: Beatriz Bertu, Cirillo Luna e João Velho
Direção de movimento: Márcia Rubin
Iluminação: Aurélio de Simoni
Cenário: Elsa Romero
Figurinos: Maureen Miranda
Trilha Sonora: Leonardo Netto
Design gráfico: Lê Mascarenhas
Fotos: Dalton Valério
Mídias sociais: Rafael Teixeira
Direção de produção: Luísa Barros
Produção executiva: Alice Stepansky e Thaís Pinheiro
Mobilização de recursos: Marcela Rosário
Realização: Sesc Rio e Fulminante Produções Culturais

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 20h. R$ 30 (ou R$ 7,50 para associados Sesc). 90 min. Classificação: 14 anos. De 10 de maio até 3 de junho. Sesc Copacabana – Mezanino – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.