Novidade no teatro carioca, “A Peça Escocesa” é apresentada como uma obra livremente inspirada em “Macbeth” de William Shakespeare (1564-1616). Sua autora Marcia Zanelatto (de “ELA”), inclusive, ressalta que não tem interesse em contar ou adaptar a história. No material enviado à imprensa e acessado pelo grande público, a dramaturga diz que seu objetivo é “ouvir as vozes subterrâneas, revelar o que não foi dito no clássico”. Soa intrigante. O espetáculo, contudo, não transcende a tragédia inglesa (como visa) e tampouco conta satisfatoriamente sua famosa história (o que não busca). No meio do caminho entre um e outro, perde-se e não chega a lugar algum.

(Foto: Paula Kossatz)

A dramaturgia esquarteja “Macbeth” e a apresenta em seus fragmentos principais, nos quais a direção de Paulo Verlings (de “Alguém Acaba de Morrer Lá Fora”) impõe um caráter espetacular de show. Para o espectador que por ventura não teve contato com a obra original, o entendimento tende a ser árduo. Quem conhece a peça identifica seus principais elementos, mas de maneira superficial. Saltos no tempo empobrecem o texto e esvaziam seu potencial de impacto. A proposta dramatúrgica não convence, infelizmente.

A encenação idealizada por Verlings, intérprete do papel-título, conta com quatro músicos no palco, que no geral fazem interlúdios entre uma cena e outra – forma rígida que não tarda a entediar por melhor que seja o trabalho da banda e da direção musical de Ricco Viana. Transformando a tragédia em show contemporâneo, os atores trabalham a favor da música e não o contrário. Verlings e Carolina Pismel (de “ELA”), que faz Lady Macbeth, entram e saem do palco no fim de cada diálogo ou solilóquio e a única justificativa aparente para isso é um show de sons e luzes. Dentro do conceito, a iluminação de Tiago e Fernanda Mantovani é um dos pontos altos do espetáculo, provocando bons efeitos visuais e compondo a enxuta cenografia de Mina Quental, que recria a formatação de uma apresentação de banda no palco. Os atores, por exemplo, utilizam microfones com pedestais para dar suas falas. Tudo converge para a ideia de “word show”, ou seja, um show da palavra falada (e não cantada). Mas tais caminhos cortam o ritmo e prejudicam a evolução da trama.

Neste ponto, os atores têm limitadas suas chances de afetar a plateia. No texto de Zanelatto, diálogos são trocados por narrações e desabafos, eventualmente histéricos. Verlings e Pismel pouco contracenam e, com solilóquios, não despertam qualquer emoção quando seus personagens falam de ambição, culpa, remorso, neurose, poder, suicídio e assassinatos. São atores que admiro bastante, mas não exatamente neste trabalho. Os figurinos de Flavio Souza e o visagismo de Vini Kilesse, com dreads nos dois atores, não os engrandecem tampouco, ainda que estejam de acordo com a proposta da montagem. Tudo parece bem equivocado.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Paula Kossatz)

Ficha técnica
Texto: Marcia Zanelatto
Direção e Concepção: Paulo Verlings
Elenco: Carolina Pismel e Paulo Verlings
Diretor Assistente: Flávio Souza
Assistência de Direção: Orlando Caldeira
Músicos Banda Dagda: Antonio Fischer-Band (teclado); Arthur Martau e Kim Fonseca (guitarras); Pedro Velho (Baixo) e Victor Fonseca (Bateria)
Direção Musical: Ricco Viana
Cenário: Mina Quental
Figurinos: Flavio Souza
Desenho e técnico de Som: Luciano Siqueira
Visagismo: Vini Kilesse
Iluminação: Tiago e Fernanda Mantovani
Fotos: Paula Kossatz
Vídeo: Eduardo Chamon
Projeto Gráfico: Raquel Alvarenga
Produção Executiva e Marketing Cultural: Heder Braga
Direção de Produção: MS Arte & Cultura | Aline Mohamad e Gabriel Salabert
Patrocínio: CAIXA e Governo Federal

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SERVIÇO: qui a dom, 19h. R$ 10 (balcão) a R$ 20 (plateia). 60 min. Classificação: 14 anos. De 3 de março até 1º de abril. Teatro da Caixa Nelson Rodrigues – Avenida República do Chile, 230 – Centro. Tel: 3509-9600.