O espetáculo “A Sala Laranja: no Jardim de Infância” traz ao país a dramaturgia da premiada autora argentina Victoria Hladilo. Estreada originalmente em Buenos Aires em 2013, a peça “La Sala Roja” segue em cartaz por lá até hoje, com mais de dez mil espectadores resultantes de apresentações para públicos pequenos de até 80 pessoas por sessão. A montagem brasileira – que trocou o vermelho pelo laranja e tem direção de Victor Garcia Peralta (de “O Garoto da Última Fila”) – mantém o caráter de pequeno porte, com temporada no Teatro Cândido Mendes, com 103 lugares. É para rir bastante, mas como diz aquele meme: “tô rindo, mas é de nervoso”. A peça mostra como o ser humano dificilmente perde uma chance de ser ridículo.

(Foto: Junior Marins)

A história mostra uma reunião de pais no jardim de infância. A diretora está atrasada e só comparecem os responsáveis por quatro crianças da turma, cada um com seus segredos e motivações muito específicas do porquê está ali. Na ausência da representante da escolinha, os pais são levados por uma espécie de inspetora para uma sala de aula colorida, onde são incumbidos de atividades de socialização – perfeitas para evidenciar a incapacidade de trabalharem em grupo. O ótimo texto de Victoria Hladilo aponta como adultos não passam de crianças grandes e podem ser profundamente infantis e patéticos em disputas por poder e na defesa de seus interesses. De maneira cômica e quase absurda, a peça trata de egoísmo, manipulação e intolerâncias.

Toda a trama se desenrola durante a espera dos pais pela diretora – que, como Godot, não chega nunca. Deixá-los sozinhos na sala na ausência da responsável pela escola não difere muito de deixar crianças sozinhas sem um professor: vira uma grande bagunça. Perde-se a linha. Mais parece um recreio. Lutando pelo melhor para seus filhos, eles travam brigas inacreditáveis. Difícil não lembrar de “Deus na Carnifica”, peça da francesa Yasmina Reza. Tudo é realmente engraçado de ver. O próprio cenário de Dina Salem Levy já propicia um ar cômico: os adultos têm que se sentar em cadeiras infantis e criar regras para conviverem naquele ambiente que não é deles. A cenografia reforça o ridículo da situação.

A direção explora todo o espaço da sala de teatro, com atores subindo e descendo as pequenas arquibancadas, aproximando ainda mais a plateia, que assiste a tudo como voyeur. A iluminação é inalterável durante toda a encenação – recriando o que seria a lâmpada de uma sala de jardim de infância com realismo. Os figurinos, assinados por Luiza Fardin, obedecem a externação das características que os personagens querem passar uns para os outros. O uniforme da inspetora, lúdico, a distancia dos demais. A atriz que a interpreta, Isabel Cavalcanti (de “Adorável Garoto”), é sábia na interpretação de alguém que já não diferencia como falar com adultos ou crianças e trata todos de maneira alienada. O elenco competente e afiado traz ainda Daniela Porfírio (de “Longe Daqui”), Priscilla Baer, Rafael Sieg (de “João Cabral”), Renata Castro Barbosa (de “Alucinadas”) e Robson Torinni (de “Dzi Croquettes”). Daniela chama a atenção pela construção da instabilidade emocional de sua personagem, uma mulher um tanto histérica, em meio a desconfianças de que é traída pelo marido e pela amiga. Outro destaque é Renata, que vive a representante dos pais, disposta a decidir tudo por todo mundo e sempre fazer valer sua opinião mascarada de democracia. É aquela típica personagem insuportável que a plateia adora – em torno dela rondam a maioria dos conflitos. Renata sabe como demonstrar o deboche e o desdém da personagem sem precisar abrir a boca para tal.

“A Sala Laranja” é uma boa surpresa da temporada: um comédia de camadas mais profundas do que pode parecer.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Junior Marins)

Ficha técnica
Texto | Victoria Hladilo
Direção | Victor Garcia Peralta
Elenco | Renata Castro Barbosa, Isabel Cavalcanti, Priscilla Baer, Daniela Porfírio, Rafael Sieg e Robson Torinni.
Tradução | Elisa Brites, Robson Torinni e Victor Garcia Peralta
Figurino | Luiza Fardin
Cenário | Dina Salem Levy
Maquiagem | Nani Gama
Fotos | Junior Marins
Direção de produção | Deborah Aguiar
Produção executiva | Robson Torinni
Produtores associados | Robson Torinni e Sandro Fernandes
Idealização | Elisa Brites, Robson Torinni e Victor Garcia Peralta
Realização | REG’S Produções Artísticas

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SERVIÇO: sex e sáb, 20h30; dom, 20h. R$ 60. 70 min. Classificação: 12 anos. Até 29 de outubro. Teatro Cândido Mendes – Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema. Tel: 2525-1000.