O espetáculo “Alair” estreou com algum buzz na mídia – afinal tem nude de um jovem ator, e Edwin Luisi (de “BarbarIdade”) no papel principal. Atrativo seja qual for seu interesse. Em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim, sem patrocínio, a peça resgata o nome do fotógrafo Alair Gomes (1921-1992), que se tornou referência póstuma internacionalmente na estética da fotografia homoerótica. De seu apartamento em Ipanema, ele fotografava os caras de sunga na praia e, frequentemente, descia para convidá-los para posarem nus. É basicamente isso que a montagem se propõe a retratar.

(Foto: Divulgação/Elisa Mendes)

A trama, escrita por Gustavo Pinheiro (de “A Tropa”), coloca Alair entre dois personagens secundários – um moreno da praia que se torna seu modelo, questionando suas intenções homossexuais, e um jovem militar, com quem o fotógrafo tem uma relação sentimental, oculta e sem beijo. Entre os encontros com um e outro, o espetáculo também trabalha com um diário de viagem de Alair, com cenas essencialmente descritivas e cansativas. O texto, na realidade, não evolui muito de sua sinopse, falhando no aprofundamento da humanização do homenageado. O resultado é quase um estereótipo raso do coroa gay atrás de garotões. Um tanto decepcionante.

Edwin Luisi prova seu talento, mas é incapaz de salvar um espetáculo fraco, com tantos solilóquios randômicos. Muitas vezes, seus discursos competem deslealmente com os atores jovens tirando a roupa ao lado, tornando-se impossível assimilar o que o veterano diz. André Rosa (de “Terra Papagalli”) e Raphael Sander (da novela “Verdades Secretas”) são os colegas de elenco – o primeiro como o garotão da praia e o segundo como o grande amor do fotógrafo. André, que fica nu em cena, apresenta bom desenvolvimento de suas cenas, aproveitando as oportunidades. Raphael, no entanto, derrapa em suas poucas falas, com interpretação sem alma ou naturalidade. Há que melhorar.

A direção de Cesar Augusto (de “A Tropa”) explora os corpos definidos – e deveras deslumbrantes – de André e Raphael em jogos de luzes e sombras assinado por Tomás Ribas. Há uma cena inteira dedicada à coreografia dos corpos, aproximando-se da dança contemporânea e um quê de cinema. Há outra em que Raphael manuseia o refletor para traçar a sombra da silhueta de Edwsin enquanto este fala: um momento bonito. Cesar também trabalha com projeções digitais, tanto de imagem estática quanto em movimento. Algumas vezes, engrandecem a encenação, outras, sobram. Essas projeções são as responsáveis por preencher o palco. Não há cenário: apenas objetos cênicos como uma cadeira, uma mesa e uma tela grande. Por mais que seja uma opção cênica, incomodam fios, tomadas e cabos do teatro à mostra: denotam descaso com detalhes. A sofisticação visual é exclusiva da iluminação. Ponto positivo também é a trilha sonora de Rodrigo Marçal, com canções de Caetano Veloso, que casam bem com o que acontece.

É bem intencionada a ideia de resgatar o nome de Alair Gomes e apresentá-lo para quem não o conhece. O material enviado à imprensa indica uma pesquisa com base em diários e relatos do próprio fotógrafo, encontrados na Biblioteca Nacional. Ainda assim, a montagem me parece rasa. O espectador sai do teatro sabendo tão pouco sobre Alair quanto ao entrar. Pouco acrescenta.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação/Elisa Mendes)

Ficha técnica
Texto: Gustavo Pinheiro (a partir dos diários de Alair Gomes)
Direção: Cesar Augusto
Assistente de direção: Luisa Pitta
Elenco: Edwin Luisi, Andre Rosa e Raphael Sander
Cenário: Mariana Villas Boas
Figurino: Ticiana Passos
Iluminação: Tomás Ribas
Trilha Sonora: Rodrigo Marçal
Videografismo: Renato Krueger
Fotografias em cena: Alair Gomes
Visagismo: Marcio Mello
Fotos: Elisa Mendes
Projeto Gráfico: Gilmar Padrão Jr.
Produção executiva: Michaela Barcellos
Assistente de produção: Athenea Bastos
Produção e realização: Me Gusta Produções
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

_____
SERVIÇO: qua a sáb, 21h; dom, 20h. R$ 60. 70min. Classificação: 14 anos. Até 2 de julho. Casa de Cultura Laura Alvim – Avenida Vieira Souto, 176 – Ipanema. Tel: 2332-2015.