O que resta de nossa identidade, se esquecemos todas nossas memórias? É sobre isso o espetáculo “Branca” – título que se refere à expressão “dar um branco”. A peça, escrita por Walter Daguerre (de “O Mamonas Musical”) e dirigida por Ivan Sugahara (de “El Pánico”), acompanha os pensamentos e questionamentos de uma mulher que volta para casa com amnésia depois de seis meses em coma. Não tem recordações da filha e do marido, não se sente ligada a eles, e duvida se algum dia realmente teve essa conexão com a família. Ao tentar remontar suas lembranças, redescobre-se, permite-se e até choca. Mas que culpa tem alguém que não se sente parte da própria vida? Que não se reconhece ali?

(Foto: Renato Mangolin)

O elenco de boas atuações é formado por Ludmila Wischansky (de “Dispare”), a mãe; José Karini (de “Amores”), o marido; Julia Stockler (de “Tãotão”), a filha; e Karen Coelho (de “Silêncio!”), a terapeuta. Karini consegue despertar compaixão e aversão na mesma medida com seu papel de marido preocupado, desesperado, sufocante e controlador. Stockler, por sua vez, tem cenas muito densas: são, em maioria, as mais sensíveis do texto, os embates entre a mãe que não tem sentimentos maternos e a filha que se sente deletada. É uma belíssima atuação da jovem atriz.

A direção trabalha com uma cenografia conceitual toda branca (de Carolina Sugahara), pouco útil, e com leitura de rubricas. Pensamentos e movimentos dos personagens são ditos em terceira pessoa pela boca dos atores que os interpretam. Para uma encenação de 90 minutos, torna-se deveras cansativa tal declamação em detrimento de ações. Basta dizer que são cadeiras os elementos mais funcionais da cenografia. Esteticamente, os figurinos de Tarsila Takahashi dispensam cores e se prendam à escala de cinza: a protagonista é a única de branco, como uma tela que ela ainda está por decidir como pintar. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros é marcada também pelo branco, por sombras por longos fade out, deixando a sala em completa escuridão, significativo do vazio de que trata a história.

“Branca” é interessante pelas questões que levanta. A dramaturgia é inspirada em uma notícia de jornal, e preza por um realismo. Há toda uma explicação científica sobre sentimentos e concepções humanas, pura biologia, que fazem pensar o quanto somos e o quanto nos construíram. Difícil sair do espetáculo sem cogitar “e se…?”.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Renato Mangolin)

Ficha técnica
Texto: Walter Daguerre.
Direção: Ivan Sugahara.
Assistência de Direção: Bia Bertu
Elenco: José Karini, Julia Stockler, Karen Coelho e Ludmila Wischansky.
Direção de Movimento e Preparação Corporal: Simone Nobre.
Cenografia: Carolina Sugahara.
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros.
Figurino: Tarsila Takahashi.
Música Original: Marcello H
Comunicação Visual: Bruno Dante.
Fotografia: Renato Mangolin.
Produção Executiva: Maria Albergaria
Direção de Produção: Sérgio Saboya.
Realização: Galharufa Produções & Rendezvous Produções.
Idealização: Ludmila Wischansky

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SERVIÇO: sex a seg, 20h. R$ 30. 90 min. Classificação: 14 anos. Até 26 de junho. Sede das Cias – Rua Manoel Carneiro, 10 – Lapa. Tel: 2137-1271.