Já adaptado para o teatro, o cinema e a televisão, o livro “Capitães da Areia” (1937) de Jorge Amado (1912-2001) conta também com uma versão no teatro musical, sob os cuidados de Marcelo Caridade, da Cia. de Repertório de Teatro Musical. Em cartaz desde 2015, o espetáculo está na reta final de sua temporada no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana. São 13 atores jovens em uma montagem orgânica, na qual tocam instrumentos, cantam, dançam e dão vida a 40 personagens, no compasso da capoeira e da percussão referentes ao imaginário baiano. Na conhecida história, emblemática da literatura nacional, nove menores abandonados vivem como adultos nas ruas, virando-se sozinhos e operando furtos em Salvador. Cada um tem uma origem, uma personalidade e uma perspectiva de futuro – mais ou menos otimista, em confronto com a realidade que enfrenta.

A adaptação musical, na verdade, não é boa. Se por um lado a rítmica e o timbre dos instrumentos ajudam a construir a ambientação da história (serviriam como trilha sonora), por outro as canções originais do diretor musical Marcello Sader trazem letras pobres, que nada acrescentam além da embromação. Soma-se a isso um grande problema do espetáculo, identificado já na primeira cena: a dicção do elenco. Na ausência de microfones, a fala rápida dos atores atrapalha a compreensão da plateia – tanto nos diálogos quanto nas músicas. É algo que merecia melhores cuidados. Nos números musicais, a concepção coreográfica além de tudo é simplória: explora movimentos da capoeira sem criatividade e vê o elenco como uma unidade e não um conjunto plural, o que desvaloriza a cena. Na maior parte do tempo, nota-se que o espetáculo seria melhor se não fosse musical.

A história de Jorge Amado é poderosa para se comunicar com diferentes faixas etárias, e isso é difícil arruinar. O problema social levantado é importante, e ainda atual. Contudo, o enxugamento estético de Marcello Caridade – com satisfatória cenografia limitada a largas tábuas de madeira, como caixotes de feira, dispostos como degraus – concentra toda a potência da encenação no elenco, nem sempre seguro ou confiante para isso. Os figurinos (de Zezé Caridade e Marcello Caridade) são condizentes no elenco principal, e caricatos para os personagens secundários. A iluminação de Raphael Cesar Grampolla, essa sim, é boa e capaz de criar momentos interessantes. Mas, em resumo, a encenação não alcança um nível de qualidade ao qual a plateia carioca já está habituada.

Matheus Signorelli é o líder do bando Pedro Bala. Não é um mau ator, mas lhe falta a força e o espírito de liderança necessários para um personagem deste porte. A construção do romance de Pedro Bala com Dora (Giovanna Sassi, de “Sítio do Picapau Amarelo”), a menina que entra para o grupo até então exclusivamente masculino, é apresentada em síntese, de modo pouco envolvente – uma questão da adaptação, também muito breve nos desfechos da história. Com isso, o capitão-mór é engolido em cena por coadjuvantes. Wagner Cavalcante (de “Galinha Pintadinha em Ovo de Novo”) explora melhor a riqueza de nuances de Sem Perna, Daniel Mello (de “Romeu e Julieta – O Blefe”) marca seu espaço com a malemolência do Gato, Cleitom Lisboa cresce com a inocência da fé do Pirulito, e o ator convidado Wagner Trindade (de “Versão de 2”) usa bem sua veia cômica em personagens secundários, em contraste com seu desempenho como o Padre José. As participações femininas de Dandara Abreu (de “Robin Hood”) e Miriam Dumas também são valiosas. Deixo um elogio especial para Matheus Lana (de “Tutti Frutti – O Musical”), como Boa Vida: atuação segura e carismática, voz necessária no coro, e brilho que poucos têm. Ótimo achado do diretor.

​Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica:
dramaturgia adaptada da obra de JORGE AMADO
adaptação e direção geral MARCELLO CARIDADE
MATHEUS SIGNORELLI (Pedro Bala), WAGNER CAVALCANTE (Sem Perna), GIOVANNA SASSI (Dora), MATHEUS LANA (Boa Vida), CLEITOM LISBOA (Pirulito), DANIEL MELLO (Gato), DAVID REIS (João Grande), JOÃO RAMALHO (Professor), VICTOR BRAGA (Almiro/Barandão) RAFAEL GUALANDI (Volta Seca), DANDARA ABREU (Dalva/Luiza), MIRIAM DUMAS (Mãe Aninha/D. Ester), e WAGNER TRINDADE como Padre José.
assistente de direção DUDU GAMA
músicas originais e direção musical MARCELLO SADER
direção de movimento e coreografias CAMILLE OLIVEIRA
direção de capoeira EDU PORTO
Iluminação RAPHAEL CESAR GRAMPOLLA
figurinos ZEZÉ CARIDADE e MARCELLO CARIDADE
concepção cenográfica MARCELLO CARIDADE
produção de arte em cenografia RICARDO BRANDÃO
fotos BIANCA OLIVEIRA
divulgação CIA. REPERTÓRIO DE TEATRO MUSICAL
assistente de produção VICTOR BRAGA
direção de produção e administração RHAIANY SOARES
realização CIA. DE REPERTÓRIO DE TEATRO MUSICAL

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SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom e seg, 20h. R$ 50. 90 min. Classificação: 14 anos. Até 11 de junho. Teatro Glaucio Gill – Praça Cardeal Arcoverde, s/n – Copacabana. Tel: 2332-7904.