“Círculo da Transformação em Espelho”, recém-montado no Brasil com assinatura de Cesar Augusto (de “A Tropa”), é a segunda peça da proeminente dramaturga Annie Baker, uma americana de 36 anos já com um Pulitzer no currículo. O texto acompanha o passar das semanas em um curso de artes dramáticas com apenas quatro matriculados – cada um por uma razão diferente. Uma das marcas de Annie é vista nesta peça: a história é ambientada em Shirley, uma cidade fictícia que ela também explora em outras obras. No entanto, todas as cenas se passam dentro da sala de aula, onde uma adolescente e os demais adultos são tirados de sua zona de conforto em exercícios que, pouco a pouco, revelam um tanto de cada um – para o público e para os próprios personagens.

(Foto: Rodrigo Castro)

O elenco brasileiro é formado por Fabianna de Mello e Souza (de “Incêndios”), como a professora, Alexandre Dantas (de “Agosto”), como o marido dela, Carol Garcia (de “Léo e Bia”), como a adolescente aspirante a atriz, Julia Marini (de “Beije Minha Lápide”), como a atriz que abandonou Nova York deixando a carreira e um amor para trás, e Sávio Moll (de “O Princípio de Arquimedes”), como um carpinteiro recém-separado e profundamente carente. Neste espetáculo, os atores têm um trabalho muito complexo, porque as distinções entre dramaturgia do texto e a dramaturgia da cena nunca foram tão evidentes quanto aqui. O texto de Annie Baker é repleto de silêncios e entrelinhas. Desta maneira, existe a trama que é dita e a que é percebida – como se fossem duas peças ao mesmo tempo – e o espectador é elevado a uma posição de potência muito grande. Cabe a ele decidir no que vai prestar atenção e não precisa ser necessariamente em quem está falando. Quando alguém diz, é porque já não dá mais para segurar. Os personagens mais escondem do que mostram e esse é o grande mérito da dramaturga: a construção e revelação de cada um deles de maneira minuciosa e tão mais introspectiva.

A peça não traz um conflito explícito, um clímax ou nem mesmo uma narrativa facilmente identificável. Em uma camada mais superficial, seu início, meio e fim é todo sobre a rotina de aulas dessa turma. É pouco o que se sabe das vidas pessoais dos personagens fora daquela sala: só aquilo que eles permitem e, como não são íntimos, pouco permitem. Então, a primeira impressão pode ser a de uma sucessão de nadas. E esse é o grande barato: enquanto nada acontece, na verdade, tudo está acontecendo. A vida passa aos olhos da plateia enquanto se espera por uma grande ação.

O grande desafio da direção é realizar isso em cena: expor o que se passa – por vezes, apenas – no íntimo dos personagens. Nem mesmo os figurinos (de Ticiana Passos) são reveladores: ao contrário, aparentam ser propositalmente neutros. Cesar Augusto, notadamente, aposta as fichas da montagem na direção de atores. São olhares, pequenos gestos e respirações certeiros. O elenco corresponde às expectativas com desempenho detalhista. O espetáculo são os atores. A iluminação de Adriana Ortiz evidencia o cenário (de Mina Quental), pouco explorado. Apresentado no teatro de arena, “Círculo da Transformação em Espelho” tem cenografia enxuta composta por cinco grandes espelhos de base móvel, que pouco agregam além de indicar para a plateia que acaba existindo “uma frente” para se ver. Pelo material oficial enviado ao site, descobri que essas estruturas, dependendo da luz e do ângulo que se vê, podem ora espelhar ora vazar transparência, mas confesso que, de onde estava, não notei nenhum efeito fora o encerramento.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Rodrigo Castro)

Ficha técnica
Texto: Annie Baker
Idealização e tradução: Rafael Teixeira
Direção: Cesar Augusto
Elenco / Personagem:
Alexandre Dantas / James
Carol Garcia / Lauren
Fabianna de Mello e Souza / Marty
Júlia Marini / Theresa
Sávio Moll / Schultz
Direção de movimento: Dani Cavanellas
Assistente de direção: Pedro Uchoa
Cenário: Mina Quental
Iluminação: Adriana Ortiz
Figurinos: Ticiana Passos
Programação visual: Daniel de Jesus
Fotos: Rodrigo Castro
Vídeos: tocavideos – Fernando Neumayer e Luís Martino
Direção de produção: Luísa Barros
Produção executiva: Ana Studart
Administração financeira: Amanda Cezarina
Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
Realização: Sesc Rio

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SERVIÇO: qui a sáb, 20h30; dom, 19h. R$ 30 (ou R$ 7 para associados Sesc). Classificação: 12 anos. Até 29 de outubro. Sesc Copacabana – Teatro de Arena – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.