Idealizado e dirigido por Daniel Herz (de “Ubu Rei”), o espetáculo “Conexão: Solidão” trata da relação do ser humano com a Internet e das relações humanas intermediadas por dispositos digitais, tema que vem aparecendo frequentemente nos palcos nesta década. Com quase 20 atores no elenco, a montagem dispensa qualquer cenário e figurinos mais elaborados para exarcebar as tintas em torno do assunto: a conectividade realmente aproxima ou afasta as pessoas? O texto, resultado de criação coletiva e dividido em esquetes independentes, parece ter a resposta em seu título: a solidão.

(Foto: Epiderme – João Santucci)

O ponto de vista é defendido em cenas mais ou menos engraçadas, como a do casal que está prestes a transar mas acha melhor trocar nudes, cada um na sua casa; a da mulher angustiada com a demora – de minutos – para o cara respondê-la no Whatsapp; a do gay que duvida da existência de um ficante porque ele não tem perfil nas redes sociais; e a do homem que busca a companhia artificial de um aplicativo pago para não passar seu aniversário sozinho. A peça é bem atualizada, com referências do momento e espírito jovem. Alguns trechos, contudo, são muito mastigados e se tornam patéticos, diluindo o potencial de humor. Existe esse desequilíbrio entre esquetes bem construídas e outras nem tanto. Algumas boas ideias não são bem desenvolvidas e, apresentadas sequencialmente, podem aborrecer o espectador.

A verdade é que, apesar do nome do gabaritado Daniel Herz encabeçando o projeto, “Conexão: Solidão” não parece um espetáculo profissional – não só pela ausência de cenário, pelos figurinos básicos ou pela iluminação elementar (de Guiga Ensa). O grandioso elenco é muito cru e a montagem tem aparência estudantil, como se fosse uma apresentação de fim de curso. Se este é o caso, o público deveria ser informado. São atuações frágeis e artificiais, inferiores ao que se assiste na cena teatral carioca, sobretudo no Teatro Poeira, conhecido pela qualidade de sua programação. Minha impressão é que, por serem muitos atores aparentemente inexperientes juntos, mais ou menos nivelados, o problema do elenco se tornou mais evidente. Faltou gente com mais experiência para equilibrar. De qualquer forma, destaco Carol Santaroni (de “Procura-se”), Kaique Bastos (de “Escombros”) e Laura Storino como nomes com potencial.

Em resumo, “Conexão: Solidão” não supera suas boas ideias e intenções. A realização não é satisfatória.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Epiderme – João Santucci)

Ficha técnica
Uma ideia original de Daniel Herz
Texto: Criação coletiva
Direção: Daniel Herz
Assistente de direção: Carol Santaroni
Elenco: Bruna Steiner, Carol Santaroni, Graziela Dalbosco, Haroldo Léda,Juliana Souza Lima, Kaique Bastos, Laura Storino, Leo Armada, Luisa Ferrari, Mariana Maffia, Mário Sampaio, Moisés Meireles, Natalia Knaack, Natasha Janini, Rafael Telles, Raphael Zaremba, Renata Nascimento, Roberta Brisson, Vinicius Bertoli
Iluminação: Guiga Ensa
Trilha sonora: Carol Santaroni
Operador de som: Magno Myller
Direção de Produção: Laura Storino e Roberta Brisson
Produção Executiva: Leo Armada
Assistente administrativa: Carolina Hinterhoff
Programação Visual: Lucas Rocha

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SERVIÇO: ter e qua, 21h. R$ 40. 70 min. Classificação: 16 anos. Até 25 de abril. Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104 -Botafogo. Tel: 2537-8053.