Adaptação teatral do filme de mesmo nome, “Dançando no Escuro” chegou de mansinho na programação carioca e já conta com um boca a boca positivo. Em cartaz no Teatro Sesc Ginástico, no Centro, o espetáculo traz certo frescor para os fãs de musicais no Rio: é uma dramaturgia muito densa. Conta a história da tcheca Selma, que se muda para os Estados Unidos e passa situações difíceis para cumprir sua missão: juntar dinheiro e pagar a cirurgia reparadora que vai impedir que seu filho fique cego por herança genética. Ela mesma perde cada vez mais a visão enquanto enfrenta longas jornadas de trabalho, focada em sua meta. Sua vida é um drama, mas ninguém a vê reclamar: sua válvula de escape são os musicais, que ela ama, ainda que precise da ajuda da amiga para lhe dizer o que acontece na tela do cinema.

(Foto: Elisa Mendes)

O filme “Dançando no Escuro”, com roteiro e direção de Lars Von Trier, estreou no ano 2000 no Festival de Cannes, onde recebeu a Palma de Ouro, prêmio máximo do evento, e o troféu de melhor atriz para Björk. A cantora islandesa, conhecida por seu trabalho conceitual-experimental, também escreveu e produziu as canções do longa-metragem – trabalho que lhe rendeu indicações ao Oscar e ao Grammy, em específico pela música “I’ve Seen It All”. Nada mal para um filme de baixo orçamento, que visava carreira apenas por festivais. Arrecadou mais que o triplo de seu orçamento em bilheteria mundial.

Em 2012, a adaptação teatral de Patrick Ellsworth estreou na Alemanha. Esse mesmo texto, com tradução de Elidia Novaes, agora ganha montagem brasileira, com direção da atriz Dani Barros (de “Estamira”), estreante na função. No papel que foi de Björk, está a atriz Juliane Bodini, em sua primeira protagonista após cinco musicais com papeis menores – entre eles “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz” e “Cássia Eller”. Com esse trabalho, Bodini consegue mostrar do que é capaz – em atuação e canto – com desempenho muito positivo. Realização pessoal e profissional à parte, o musical serve também de vitrine para essa artista, agora em destaque. Com visagismo de Marcio Mello, ela ainda ficou muito parecida com a Selma de Björk – saciando a parcela da plateia que vai ao teatro porque gosta do filme. A adaptação, no geral, é muito fiel à versão cinematográfica. Dani Barros busca o que é essencial teatral que possa agregar à obra.

No elenco, destacam-se ainda Cyria Coentro (de “Love”), como a fiel amiga de Selma, que foi interpretada pela francesa Catherine Deneuve no cinema; e Suzana Nascimento (de “Calango Deu!”), que diverte com as tiradas cômicas da supervisora da fábrica no primeiro ato e emociona como a carcereira no segundo ato. Em termos de canto, o elenco não tem grandes oportunidades, com exceção de Luis Antonio Fortes (de “Os Inadequados”), que não faz jus ao dueto que tem com Bodini.

Como musical, “Dançando no Escuro” é bem limitado: são apenas seis músicas, fora trechos de outras três de “A Noviça Rebelde”, que a protagonista ensaia em um grupo amador. As canções aparecem em momentos muito pontuais, quase sempre como devaneios da protagonista. Bobinhas. Com raras exceções, as cenas sobreviveriam sem elas. Marcelo Frankel, versionista, tinha uma missão ingrata de trazer para o português o trabalho nada fácil de Björk. Os arranjos e a direção musical são de Marcelo Alonso Neves. Em um ou dois números, a voz dos atores e o instrumental da banda se encontraram mal nivelados e foi difícil entender o que era cantado. No geral, os musicais sem coro são mais limpos e melhores apresentados. As coreografias de Denise Stutz são simples e, por isso mesmo, dão certa doçura ao espetáculo, marcando a inocência da protagonista.

A tristeza provocada pela história é realçada pelo ótimo cenário de Mina Quental, que toma licenças poéticas para ilustrar o ambiente fabril, pelos figurinos de Carol Lobato, que na verdade são uniformes, e pela iluminação de Felicio Mafra, que invade o palco como um raio de sol necessário. É a cor cinza que determina todos esses traços, em contraste com o sorriso da resistente Selma. A montagem é bem digna e a direção de Dani Barros tem como principais qualidades a coerência e a coesão entre todos os elementos. Mas o ponto alto de “Dançando no Escuro” segue sendo sua trama: é de chorar. É um espetáculo emocionante e para todos os públicos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Elisa Mendes)

Ficha técnica
Musical baseado no longa-metragem de Lars von Trier
Adaptação Teatral: Patrick Ellsworth
Tradução: Elidia Novaes
Direção: Dani Barros
Músicas Originais: Björk
Direção Musical e Arranjos: Marcelo Alonso Neves
Idealização: Juliane Bodini e Luis Antonio Fortes
Direção de Produção: Jéssica Santiago
Elenco: Juliane Bodini (Selma Jezková), Cyria Coentro (Carmen Baker), Luis Antonio Fortes (Jeff), Andrêas Gatto (Samuel), Greg Blanzat (Gene Jezková), Julia Gorman (Linda Houston), Lucas Gouvêa (Bill Houston), Marino Rocha (Norman) e Suzana Nascimento (Brenda Young)
Músicos: Vanderson Pereira (multi tecladista), Johnny Capler (baterista), Allan Bass (baixista) e Dilson Nascimento (multi tecladista)
Cenário: Mina Quental
Figurino: Carol Lobato
Iluminação: Felicio Mafra
Preparação Vocal: Mirna Rubim
Direção de Movimento: Denise Stutz
Aulas e Coreografia do Sapateado: Clara Equi
Preparação Corporal e Assistente de Direção de Movimento: Camila Caputti
Visagista: Marcio Mello
Versionista: Marcelo Frankel
Sonorização: Joyce Santiago
Assistentes de Direção: Rubia Rodrigues e Camila Caputti
Assistente de Visagismo: Roberto Santiago
Produção Executiva: Camila Santana
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Programação Visual: Daniel de Jesus
Fotos do Material Gráfico: Nana Moraes
Marketing Digital: Maria Alice
Marketing Cultural: TEM DENDÊ! Produções – Tamires Nascimento

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SERVIÇO: qui a sáb, 19h; dom, 18h. R$ 30 (ou R$ 7,50 para associados Sesc). 120 min. Classificação: 14 anos. Até 19 de novembro. Teatro Sesc Ginástico – Avenida Graça Aranha, 187 – Centro. Tel: 2279-4027.