E se existisse uma pílula contra a velhice? É esse o pano de fundo do espetáculo “Elefante”, da Probástica Cia. de Teatro. A peça, escrita por Walter Daguerre (de “O Musical Mamonas”), é uma ficção científica que se passa em um futuro em que ninguém mais envelhece ou morre de causas naturais. Com um comprimido diário, é garantida a juventude eterna: nada de rugas e cabelos brancos ou osteoporose e Alzheimer. Vive-se 200, 300 anos com rosto, corpo e saúde de 20, 30. É o progresso da humanidade, depois do fogo, da revolução industrial, da eletricidade, do audiovisual e da Internet. Surreal ou metáfora da nossa sociedade, que busca em tratamentos estéticos e cirurgias plásticas o ocultamento das marcas da idade? Fico com a segunda opção. A velhice é quase um constrangimento e disfarçá-la é um imperativo hoje em dia. A valorização da juventude vem juntamente com o acelerado envelhecimento da população no Brasil. Projeções do IBGE apontam que o país terá 73,5 milhões de idosos em 2060, o que representará um terço do total de brasileiros. Não à toa a discussão sobre a reforma da previdência é o assunto do momento. Uma pílula dessa poderia resolver a questão.

(Foto: Phillipp Lavra)

A Probástica é uma companhia que dialoga com seu tempo, com um olhar atento e perspicaz. Em 2012, tive o prazer de assistir ao seu primeiro espetáculo, “[des]conhecidos”, que mostrava um casal que se conhecia em um site de relacionamento. A peça, escrita e dirigida por Igor Angelkorte, que também assina a direção de “Elefante”, se debruçava principalmente no livro “Amor Líquido”, do sociólogo Zigmunt Bauman, e havia uma versão hetero e uma versão gay. No espetáculo sobre a velhice, as referências declaradas são “As Intermitências da Morte” de José Saramago, “A Máquina de Fazer Espanhóis” de Valter Hugo Mãe e o filme “Balada de Narayama” de Akira Kurosawa. O material permite que a dramaturgia se calce e avance em questões profundas.

Na história, existe um único lugar – uma ilha isolada – onde as pessoas ainda envelhecem, por não tomarem a pílula. O fotógrafo Francisco viaja até lá para fazer um trabalho encomendado pelo governo, e se encanta com a possibilidade de morte natural. Ele já tem mais de 60 anos, mas aparenta 30 e tantos, até que abandona o uso da pílula e anuncia aos próximos que quer se mudar para lá. O texto de Daguerre é engenhoso, sensível e duro ao mesmo tempo, bem humorado pelo distanciamento e emocionante pelas pontes muito claras traçadas com nossa realidade e nossos idosos. A direção de Angelkorte transforma o espaço cênico em uma arena, de modo que o público se vê, e mescla teatralidade e realismo, com vinho, peixe e sopa ingeridos de verdade ao longo da atuação. A maioria das soluções para a dramaturgia fica a cargo da iluminação de Renato Machado, nada óbvia. Os figurinos de Ronald Teixeira são aproximadores da plateia, e a cenografia de André Sanches trabalha principalmente com uma mesa e cadeiras, em apoio da luz.

São cinco atores em cena: os quatro jovens membros da cia. – Chandelly Braz, Igor Angelkorte, Lívia Paiva e Samuel Toledo – acompanhados do senhor Fernando Bohrer. Sem spoilers, mas quando Bohrer aparece, você entende o quanto já está envolvido na trama, porque a velhice dele causa certo espanto. No entanto, é para Chandelly que quero deixar registrado meu maior aplauso: que atriz! Ela interpreta a mãe do fotógrafo e dá conta de surpresas, horrores, sofrimentos, incompreensões e incômodos em olhares significativos. Seus olhos marejados impõe muito do tom da encenação, e revela um subtexto riquíssimo. É uma atriz para se prestar atenção.

A quem interessar possa, o título “Elefante” se deve à história de que os elefantes se isolam de seu bando para morrer. A peça diz que, na verdade, o que acontece é que, com o envelhecimento, os elefantes não conseguem acompanhar mais o bando, e buscam lugares com água e comida para se recolherem. O isolamento não é uma opção, mas uma imposição do corpo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Phillipp Lavra)

Ficha técnica
ELENCO: Fernando Bohrer, Chandelly Braz, Igor Angelkorte, Lívia Paiva, Renato Livera e Samuel Toledo
DIREÇÃO E ARGUMENTO: Igor Angelkorte
TEXTO: Walter Daguerre
ASSISTENTES DE DIREÇÃO: Paula Vilela e Philipp Lavra
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Marcela Casarin
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Livia Machado
PREPARAÇÃO DE ELENCO: Miwa Yanagizawa
CENOGRAFIA: André Sanches
DIREÇÃO DE PALCO: Wallace Lima
ILUMINAÇÃO: Renato Machado
ADAPTAÇÃO DE LUZ E MONTAGEM: João Gioia
OPERAÇÃO DE LUZ E SOM: Wallace Furtado
FIGURINO: Ronald Teixeira
DIREÇÃO MUSICAL: Felipe Storino
FOTOGRAFIA: Phillipp Lavra
COMUNICAÇÃO VISUAL: Paula Vilela
REALIZAÇÃO: Probástica Companhia de Teatro
PRODUÇÃO: Mãe Joana Filmes e Produções

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 60 (qui e sex) e R$ 80 (sáb e dom). 70 min. Classificação: 16 anos. Até 30 de abril. Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.