Precisamos falar de Erom Cordeiro. Aos 40 anos, o ator alagoano tem trilhado uma trajetória interessante no teatro carioca. Emendando espetáculos, ele tem se mantido quase sempre em cartaz na cidade, com escolhas pouco óbvias e bastante desafiadoras. É um ator que preza pelo risco em suas escolhas artísticas. Às vezes com realizações muito boas, outras bem ruins, mas sempre indicativas de uma busca por complexidade. Ele vem de “Laio e Crísipo”, “O Livro dos Monstros Guardados”, “Enterro dos Ossos” e “Decadência” para chegar a “Fauna”, peça da dramaturga argentina Romina Paula, montada aqui por Erika Mader (de “Os Insones”) e Marcelo Grabowsky (assistente de “Amor em Dois Atos”). A trama gira em torno de um diretor e uma atriz que viajam para o campo em pesquisa para um filme sobre Fauna, uma amazona intelectual, que morreu deixando dois filhos e uma série de mitos em torno de sua figura.

(Foto: Bruno Mello)

Erom não faz o diretor, a atriz, nem Fauna. Ele interpreta Santos, filho bronco, que retrata a herança selvagem da mãe – em oposição à Maria Clara, a outra filha, que é culta e letrada. O personagem do ator entra em cena em um segundo momento do espetáculo, mas a peça e a montagem são profundamente engrandecidos quando isso acontece. Santos desestabiliza todas as relações que começavam a se construir e tomar forma – para os personagens e para os espectadores – e sublinha o principal conflito da história: o contraste entre realidade e representação, mito e fato, personagem e pessoa. Santos é fundamental para a complexidade das reflexões propostas, e a atuação de Erom Cordeiro é perspicaz para não deixar nada escapar. Sua presença está especialmente forte neste trabalho, com movimentações e entonações sábias. É inquietante assisti-lo. O jogo com Kelzy Ecard (de “Tom na Fazenda”), outra brilhante atriz, que faz a irmã, com ótimo desempenho (mesmo com ataque de tosse em cena!); com Erika Mader, que vive a atriz-protagonista, idealizadora do projeto sobre Fauna; e com Eduardo Moscovis (de “Um Bonde Chamado Desejo”), na pele do cineasta, são muito ricos. O texto de Romina Paula já é muito bom, oferecendo ao personagem secundário o contraponto para cada um dos outros elementos da história.

Aliás, essa é uma peça de verdade muito boa. A maneira como as situações e provocações vão sendo apresentadas não deixa o espectador adivinhar para onde aquilo tudo está indo. Quando termina, tampouco se descobre – não de uma maneira decepcionante, mas instigante. A vontade é de ver de novo. Apesar da ambientação no universo do cinema, a dramaturgia trata muito de questões intrínsecas ao teatro. As cenas em que a atriz “passa o texto” são de profunda metalinguagem. Quando passa o texto com Santos, que não é ator, a provocação é virada do avesso. As sacadas de Romina são mesmo muito inteligentes.

Fauna, a personagem sobre a qual todos os outros se debruçam para conceber esse filme, tem sua história apresentada por memórias e escritos – que não se sabe até que ponto eram ficção. Para onde quer que caminhem, os filhos e os artistas do cinema se confrontam com a linha tênue entre biografia e autoficção. Mesmo quando se tratava de sua vida, Fauna subvertia as fronteiras: travestia-se de homem para cursar faculdade e fingia não reconhecer o ex-marido quando o reencontrava. Aliás, fingia ou realmente perdera a memória? A dúvida é algo com que os personagens têm que lidar.

Na montagem brasileira, o cenário – assinado por Fernando Mello da Costa – é forrado de feno, que o elenco, inclusive, despeja mais em determinado momento. O centro do palco é envolto de refletores à mostra, em referência ao cinema, de modo que fica no ar a ambiguidade sobre o quanto é real e o que não passa de representação – algo que recentemente foi proposta também em “E Se Eu Não Te Amar Amanhã”, de Sandra Werneck. Os figurinos de Antônio Guedes seguem o mesmo conceito, especificamente na caracterização da atriz interpretada por Erika Mader, que usa roupas da falecida e vestuário masculino para “entrar no personagem”. São opções criativas acertadas. A luz de Renato Machado, inserida na cena, vira poesia. “Fauna” é muito potente. Merece ser visto.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Bruno Mello)

Ficha técnica
Texto: Romina Paula
Tradução: Hugo Mader
Direção: Erika Mader e Marcelo Grabowsky
Elenco: Eduardo Moscovis, Erika Mader, Erom Cordeiro e Kelzy Ecard
Assistência de Direção: Luciana Novak
Luz: Renato Machado
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurino: Antônio Guedes
Direção de Movimento: Toni Rodrigues
Direção Musical: Marcello H.
Programação Visual: Luiza Chamma
Fotografia: Bruno Machado (estúdio) e Bruno Mello (de cena)
Direção de Produção: Erika Mader
Produção Executiva: Marcela Büll
Assistente de Produção: Ramon Alcântara
Administração Financeira: Alan Isidio
Diretor de Palco: Tarso Gentil
Contrarregra: Adanilo Reis
Operador de Som: Leandro Bacellar
Operador de Luz: Ramon Alcântara
Assistente de Figurino: Renata Mota
Bilheteria: Waldivia Juncken
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Consultoria: Cristiana Giustino
Realização: Auch Produções

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SERVIÇO: qua a dom, 19h. R$ 40. 80 min. Classificação: 16 anos. Até 16 de julho. Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) – Av. Rio Branco, 241 – Centro. Tel: 3261-2565.