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O que Deborah Evelyn (de “A Hora Amarela”), Emílio de Mello (de “Os Realistas”), Luiz Henrique Nogueira (“Cock – Briga de Galo”) e Marjorie Estiano (de “O Desaparecimento do Elefante”) apresentam até 12 de março no CCBB é a versão mais atualizada e completa de “Fluxorama”, cuja primeira parte estreou em 2013. A peça, assinada por Jô Bilac (de “Conselho de Classe”), é dividida em quatro partes – quatro monólogos, mais especificamente. Todos têm em comum o trabalho com o fluxo de pensamento dos personagens, resultado de um processo de investigação da dramaturgia performativa. Ouve-se o que eles pensam, em outras palavras.

(Foto: Caio Gallucci)
(Foto: Caio Gallucci)

Na primeira história, Deborah interpreta uma mulher que, certo dia, acorda sem audição e não conta isso para ninguém. A cada semana, ela perde mais um sentido. No segundo solo, Luiz vive Luiz Guilherme, um homem preso nos destroços de seu carro recém-acidentado, lúcido, mas imóvel, na espera do resgate. Na terceira trama, Marjorie apresenta Valquíria, uma mulher correndo a maratona de São Silvestre pela primeira vez, estrebuchando. Na última parte, Emílio dá vida ao texto inédito Medusa, sobre um homem desesperadamente tentando se desligar e meditar – mas com a cabeça a mil. Os quatro personagens estão em situações-limite, de diferentes maneiras, e um tema que perpassa as histórias com frequência é a morte. De fato, um pensamento que atormenta a mente humana.

A ideia de Jô Bilac é interessante, mas enfrenta dificuldades para se realizar no palco, sob a direção de Monique Gardenberg (de “A Hora Amarela”). Ao entrar na sala, o público recebe o texto da peça inteiro impresso, então é possível afirmar com certeza que “Fluxorama” é melhor lido do que encenado. A dramaturgia demanda pouca ou nenhuma ação, e Monique optou por marcações bastante rígidas, sem locomoção. A cenografia, assinada por Daniela Thomas e Felipe Tassara, é construída em torno dessa premissa: a boca de cena conta com uma tela grande transparente, na qual são projetados os diferentes cenários. A iluminação, da própria diretora, é concentrada no centro, onde cada ator é aprisionado para que sua imagem “vaze” pela tela. O restante é escuridão, por conta da projeção. Os figurinos, de Cassio Brasil, fora o solo de Marjorie, tem menor importância. Monólogos + fluxo de pensamento + imobilidade dos atores + escuridão: não é uma boa combinação para deixar o espectador desperto. A luz sombria, em suma, é muito problemática.

O elenco não supera o cansaço que é assisti-lo nessas condições. Deborah Evelyn talvez aproveite melhor as oportunidades cômicas de seu solo. Todas as quatro partes são bem humoradas, mas não exatamente engraçadas, nem vão para esse lado. Emílio de Mello conduz com segurança seu papel, mas é prejudicado pelo excesso de texto repetitivo. Marjorie Estiano se sai bem na pele da aspirante a maratonista: a simples simulação de correr dá alguma vida à montagem. Luiz, por sua vez, tem o desafio mais ingrato: atuar só com o rosto, única parte visível no carro revirado. É curioso o caminho de Monique Gardenberg, entendendo que pensamento é palavra, quando, na verdade, pensa-se também muito visualmente, evocando imagens o tempo todo. Em “Fluxorama”, o que se assiste é somente palavra, então há muito pouco para ver, no fim das contas.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Caio Gallucci)
(Foto: Caio Gallucci)

Ficha técnica
Texto: Jô Bilac
Direção: Monique Gardenberg
Com: Deborah Evelyn, Emílio de Mello, Luiz Henrique Nogueira e Marjorie Estiano
Música Original: Philip Glass
Cenário: Daniela Thomas e Felipe Tassara
Figurino: Cassio Brasil
Iluminação: Monique Gardenberg
Coordenação Cenografia: Camila Schmidt
Imagens Projeção: Albino Papa
Assistente de Direção: Mila Portella
Assistente de Direção em Valquíria: Kiko Mascarenhas
Preparação Corporal em Valquíria: Renata Melo
Programação Visual: Vicka Suarez
Fotos: Caio Gallucci
Produtoras: Selma Morente e Célia Forte
Produção local RJ: Ciranda de 3 Trupe Produções / Dadá Maia
Assistente de Produção: Bárbara Santos
Produção: Morente Forte Produções Teatrais

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SERVIÇO: qui a dom, 19h. R$ 20. 80 min. Classificação: 14 anos. Até 12 de março. Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB – Teatro I – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.