As noites de sexta e sábado na Lapa ganharam um espetáculo perfeito para o esquenta da noitada. Em horário alternativo, às 23h, “Fora da Caixa”, com texto de Claudia Mele (de “Antes Que Você Me Toque”) e Ivan Sugahara (de “Beija-me Como Nos Livros”), que também assina a direção, é apresentado na Sede das Cias, na Escada Selarón. Mais do que uma peça teatral, é possível ver esse trabalho como uma peça-manifesto, propondo uma revisão dos modelos tradicionais normativos de sexualidade, gênero e monogamia. Tudo começa com uma briga de casal, um homem e uma mulher, motivada por uma traição dele e outra dela. Ironicamente, eles estão prestes a sair para o casamento de uma prima. É o pontapé inicial para confrontar o ideal de amor aprisionador. Aos poucos, o casal abre sua relação para outras possibilidades, cada vez mais, e formam um “trisal”, com a chegada de uma terceira pessoa na vida afetiva, sexual e íntima deles.

(Foto: Dalton Valerio)

A dramaturgia de Claudia e Ivan é construída a partir de três segmentos. A mulher do trisal está morta e, no presente, os dois homens tentam entender como prosseguir sem ela. Em outro ponto, as memórias da relação a três e dos processos de desconstrução de sexualidade e gênero são invocadas por eles, em luto. Além disso, essa história é entremeada por esquetes avulsos, importantes para ilustrar, sublinhar, apontar e desmantelar as limitações ideológicas impostas ao corpo humano como território. A percepção de que o amor romântico está em crise evidentemente levanta a bandeira do poliamor na peça, mas, mais do que isso, passa uma mensagem contra quaisquer imposições. O público não é poupado. Sem spoiler, mas a plateia é contaminada e invadida pela pressão contemporânea, porque a crise da monogamia não é de um nicho, mas de todos. “Somos uma sociedade hipócrita, adúltera”, diz o texto, com nuances filosóficas.

A encenação tem um cenário único, em que as cenas orbitam em torno de uma cama com três travesseiros. A cenografia de Carolina Sugahara transforma o espaço da Sede das Cias na casa dos protagonistas, em cômodos sem paredes, de alguma maneira já “fora da caixa”, como diz o título. A iluminação de Paulo César Medeiros é de suma importância para a criação da ambiência das cenas de flashback e externas ao lar. Tudo está em sintonia na boa direção de Ivan Sugahara. Os figurinos de Joana Lima Silva são – vários – intimamente entrelaçados à dramaturgia. Juntos com as inúmeras explorações do nu, os figurinos mostram a transformação dos personagens e de suas relações, desamarrando-se dos paradigmas de gênero em direção à fluidez.

São cinco atores em cena. Rebecca Leão (de “Shopping and Fucking”), Ricardo Cabral (de “Casa Vazia”) e Thiago Ristow (de “Apocalipse Naquela Esquina ou a Corrosão do Caráter”) dão vida ao trisal, enquanto Catarina Saibro (de “Melodrama”) e Fábio Cardoso (de “Baker Street 221B”) se alternam entre diferentes personagens. O grupo forma uma unidade coesa, bem dirigida, em plena sintonia, o que, dependendo da cena, reforça o caráter de manifesto e protesto. Abrir-se ao amor livre, afinal, é também enfrentar preconceitos e condenações de ordem moral em uma sociedade patriarcal heteronormativa. A personagem de Rebecca, que sucumbe à pressão social, tem uma bela cena contra os rótulos impostos a quem anda em linha curva. O elenco é bom. Catarina se destaca em silêncios e timing, tornando especial cada uma de suas cenas, sejam dramáticas ou cômicas. Ótima atriz!

Em tempos de crises, tantas e em diversos aspectos, “Fora da Caixa” torna-se relevante na cena teatral: sabe o que quer dizer e como falar. O discurso contemporâneo resgata os movimentos de liberdade sexual e amor livre dos anos 1960, impulsionados pela pílula anticoncepcional, mas impedidos pela epidemia do HIV. Cinquenta anos depois, gênero e sexualidade são melhores compreendidos por parcela instruída da sociedade, mas ainda representam motivos para desrespeito, perseguição e agressão por parte de muitos. É um país que mata “em nome da moral e dos bons costumes” (?). Um avanço é que a discussão está em evidência na mídia, ao alcance de todos. A monogamia, por sua vez, segue cristalizada como modelo de sucesso e felicidade, apesar dos fracassos evidentes, e é difícil se desamarrar dela. “Fora da Caixa”, por isso, é para todos. Para pensar.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Dalton Valerio)

Ficha técnica
Elenco: Catarina Saibro, Fábio Cardoso, Thiago Ristow, Rebecca Leão e Ricardo Cabral
Direção: Ivan Sugahara
Dramaturgia: Claudia Mele e Ivan Sugahara
Iluminação: Paulo César Medeiros
Cenografia: Carolina Sugahara
Figurino: Joana Lima Silva
Produção: Aline Mohamad e Ana Studart

_____
SERVIÇO: sex e sáb, 23h. R$ 40. 90 min. Classificação: 16 anos. Até 16 de setembro. Sede das Cias – Rua Manuel Carneiro, 12 – Lapa. Tel: 2137-1271.