No Brasil desde o ano passado, o musical “Ghost” cumpre temporada no Rio de Janeiro depois de sua estreia em São Paulo. Dirigida por José Possi Neto (de “O Musical Mamonas”), essa montagem marca a sétima exportação internacional do espetáculo, que estreou em 2011 na Inglaterra e já chegou a países como Estados Unidos, Itália, Coreia do Sul, Alemanha, China e Austrália. O original ficou pouco mais de um ano em cartaz no West End e recebeu cinco indicações ao Laurence Olivier Awards – maior prêmio teatral britânico. Mas não levou nenhum. Já na Broadway, o musical ficou somente quatro meses em cartaz, o que significa um tremendo fracasso. Nada disso impede que ele continue seguindo viagem: “Ghost” é um nome que vende.

(Foto: Caio Gallucci)

Quem nunca viu “Ghost: Do Outro Lado da Vida” na “Sessão da Tarde”? Lançado nos cinemas em 1990, o filme foi reprisado na TV inúmeras vezes. Com críticas variáveis, o drama romântico faturou US$ 507 milhões de bilheteria globalmente e cinco indicações ao Oscar – das quais venceu as de melhor roteiro original (para Bruce Joe Rubin) e melhor atriz coadjuvante (para Whoopi Goldberg, que ganhou todos os prêmios importantes naquele ano). A frente da história de Sam e Molly, os atores Patrick Swayze, que já era um astro e tinha o sucesso de “Dirty Dance” (1987) em sua conta, e Demi Moore, que, com esse trabalho, mostrou ser mais do que sex symbol e esposa de Bruce Willis (já um sucesso com a franquia “Duro de Matar”). Patrick e Demi, nesse longa, protagonizam uma das cenas mais icônicas de Hollywood, ao som de “Unchained Melody”. Está aí o link para um musical – o roteirista pensou. Sim, o espetáculo tem texto e letras do próprio Bruce Joel Rubin (em parceria com Dave Stewart e Glen Ballard no caso das composições)… e aqui começam os problemas.

Qual a razão para adaptar um filme para um musical teatral se não for para engrandecê-lo? Parto desse princípio: mexa em uma obra apenas se for para melhorá-la ou trazer algo novo valioso. Bruce – o Joel Rubin, não o Willis, que não tem nada a ver com essa história – não foi feliz. As composições são fracas e não acrescentam nada à trama conhecida. É redundante dizer que Sam e Molly não precisam dessas músicas – que mais parecem pausas no roteiro – mas “Ghost” prova que dispensa esse formato a cada número musical apresentado. As canções são realmente sobressalentes.

Dito isso, a versão brasileira assinada por Ricardo Marques e apresentada no Teatro Bradesco tem ainda mais problemas. As músicas em português não cativam em nada – o que fica muito evidente quando o protagonista André Loddi (de “Wicked”) entra frequentemente cantando “Unchained Melody”, em inglês. A música-tema não foi traduzida, o que fica esquisito, mas ajuda a despertar o vínculo afetivo na plateia. Em contrapartida, “Unchained Melody” explicita como todas as outras músicas são inferiores. A direção musical de Paulo Nogueira não ajuda: em muitos números, com a voz do coro emparelhada com a do elenco principal e o som da banda alto demais, a sensação é de barulho. É triste, mas nenhuma música envolve. As coreografias das músicas (de Floriano Nogueira), em geral, são toscas. A direção de movimento (também de Floriano) é muito melhor fora da parte musical: verdadeiros balés para lutas e efeitos paranormais – um dos pontos altos.

André Loddi e Giulia Nadruz (de “Shrek – O Musical”) são os protagonistas Sam e Molly. Diferentemente de Patrick e Demi, os dois não passam química para o público e a história de amor é muito pouco crível. No quesito romantismo, o espetáculo perde. A direção de José Possi Neto parece muito técnica, possivelmente pela questão da franquia, e peca pela falta de sensibilidade. Engessados, os atores não cativam pela interpretação e cantam belamente as canções singelas. Ganha força a ação, o suspense e a comédia: em “Ghost”, após morrer em um assalto, a alma do bancário Sam continua presa no plano terrestre e ele descobre que Molly está em perigo. Sua morte fez parte de um golpe que seu amigo de trabalho Carl (papel de Igor Miranda, de “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”) prepara para desviar US$ 10 milhões do banco para si mesmo. Para isso, Carl precisa de um caderninho de Sam, que está na casa de Molly. Para alertá-la, Sam convence a charlatã Oda Mae Brown (papel que foi de Whoopi Goldberg e no teatro é de Ludmillah Anjos, de “O Homem de la Mancha”), que trabalha como vidente mas nunca havia de fato entrado em contato com nenhum espírito. Se Igor cumpre bem o papel de vilão, Ludmillah dá alguma diversão à plateia, ainda que seja bastanta exagerada. Sabe fazer rir. Os figurinos over-kitsh de sua personagem, criados por Miko Hashimoto, também cooperam.

O mais legal do musical são todos os efeitos visuais. O cenário (de Renato Theobaldo) repete o do West End com os painéis de LED ao fundo do palco, criando diferentes ambientações e situações com as projeções e vídeos de Zachary Borovay. Mais de uma vez, os efeitos de ilusionismo (de Michael Keating), junto com a iluminação de Paul Miller, surpreendem e fazem valer a ida ao teatro. Eles aparecem em todas as demandas paranormais da dramaturgia. São o mais perto de justificativa para a adaptação teatral do blockbuster do cinema. A estrutura do musical é relativamente simples e com oportunidades criativas lúdicas. Há algumas falhas de direção de arte, mas que o grande público certamente não pesca.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Caio Gallucci)

Ficha técnica
Texto e Letras Originais: BRUCE JOEL RUBIN
Música e Letras Originais: DAVE STEWART e GLEN BALLARD
Música Unchained Melody: HY ZARET e ALEX NORTH
Versão Brasileira: RICARDO MARQUES
Direção: JOSÉ POSSI NETO
Elenco: Giulia Nadruz, André Loddi, Ludmillah Anjos, Igor Miranda, Josi Lopes, Alice Zamur, Lolla Fanuchi, Elton Towersey, Arízio Magalhaes, Philipe Azevedo, Gabriela Germano, Fábio Porto, Hélcio Matos
Anelita Gallo – Swing e Dance Captain
Assistente de Direção: VANESSA GUILLEN
Direção Musical: PAULO NOGUEIRA
Assistentes de Direção Musical: RODOLFO SCHWENGER e ANDREI PRESSER
Direção de Movimento e Coreografias: FLORIANO NOGUEIRA
Assistente de Direção de Movimento e Coreografia: ANELITA GALLO
Cenógrafo: RENATO THEOBALDO
Cenógrafo Associado: BETO ROLNIK
Figurinista: MIKO HASHIMOTO
Visagismo: SIMONE MOMO
Designer de Som: GABRIEL D’ÂNGELO
Designer de Som Associado: GABRIEL BOCUTTI
Designer de Luz: PAUL MILLER
Designer de Luz Associado: JOSEPH BEUMER
Designer de Projeção e Vídeo: ZACHARY BOROVAY
Designer de Projeção e Vídeo Associado: WLADIMIRO A. WOYNO R.
Ilusionista: MICHAEL KEATING
Direção Artística: LÉO ROMMANO E RICARDO MARQUES
Produtor Geral: RICARDO MARQUES
Supervisor de Produção: COLIN INGRAM
Diretor de Produção: LÉO ROMMANO
Gerente de Produção: MANU FIGUEIREDO
Diretor Técnico: CARLOS PEIXOTO
Coordenação Administrativa e Financeira: MAÍRA FREITAS
Assistentes de Produção: GERARDO MATOS e ANA DULCE PACHECO
Estagiária: TAMIRES CÂNDIDO

_____
SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 17h30. R$ 50 até R$ 150. 150 min. Classificação: livre. Menores de 14 anos só com responsáveis. Até 5 de novembro. Teatro Bradesco – Shopping Village Mall – Avenida das Américas, 3900 – Barra da Tijuca. Tel: Tel: 3431-0100.