“Guanabara Canibal”, o mais novo espetáculo da Aquela Cia., é o terceiro da trilogia sobre o Rio de Janeiro – sucedendo “Cara de Cavalo” (2012) e o premiadíssimo “Caranguejo Overdrive” (2015). Desta vez, o autor Pedro Kosovski e o diretor Marco André Nunes concentram sua pesquisa nas guerras e no genocídio que fizeram parte da fundação da cidade no século XVI, aprofundando uma versão não oficial da história, em valorização da perspectiva indígena. O fio narrativo culmina na Batalha de Uruçumirim, liderada por Mem de Sá em 1567, nas águas da Baía de Guanabara, expulsando os franceses e exterminando tribos indígenas que, apesar de conflitos entre si, tinham características semelhantes, como o ritual de canibalismo (daí o título).

(Foto: Julio Ricardo)

Para o espectador, a experiência começa ainda fora da sala. A fila da entrada é dividida em duas para que cada metade do público entre por uma porta diferente: lá dentro, as arquibancadas ficam uma de frente para a outra, com o espaço cênico no meio, de modo que as duas plateias se vejam. Os espectadores são informados de que a encenação trabalha com muita terra e poeira: a produção oferece máscaras cirúrgicas descartáveis para quem julgar necessário. Ao entrar na sala, o que se vê é uma instalação. A cenografia de Marco André Nunes e Marcelo Marques é certamente impactante: o piso é todo coberto com a anunciada terra e, entre a arquibancada e o palco, há telas divisórias, que metaforicamente demarcam territórios e têm a utilidade de receber projeções com informações e introduções de cena ao longo de toda a montagem. Os atores já estão na instalação, e o público começa a entender como se dará a apresentação.

A história contada é de disputa, conquista e perda de terras, extermínio indígena, dizimação e desrespeito à cultura – em seu sentido mais original, de cultivo. É uma história suja, característica que se reflete na montagem em diversas opções dirty. A dramaturgia de Kosovski é fragmentada, cheia de lacunas, formada a partir de diálogos orais e narrações em texto projetado. Ela é sobreposta pela dramaturgia da encenação, mais potente. É impressionante tudo que Aquela Cia. consegue fazer criativamente. Efeitos visuais em projeções, com suporte da luz de Renato Machado; performance com uma peteca plena de significação; trilha sonora com banda ao vivo (uma característica recorrente das obras da companhia) – dirigida por Felipe Storino; e caráter documental com execução irônica de trechos de “Como Nasceu o Rio”, informativo gravado pelo jornalista Amaral Netto (1921-1995) em plena ditadura, narrando a versão colonizatória da fundação da cidade. Os índios dizimados não têm voz nos relatos oficiais.

As tribos indígenas, aliás, são retratadas com respeito e interesse pela direção e pelo figurinista Marcelo Marques. Caracterização indígena em espetáculos sempre corre o risco de cair no estereótipo fetichista, e este felizmente não é o caso. No elenco, os atores Carolina Virguez (de “Caranguejo Overdrive”), Matheus Macena (de “Caranguejo Overdrive”), Reinaldo Junior (de “Salina – A Última Vértebra”), João Lucas Romero (de “O Bigode”) e Zaion Salomão dividem-se entre diferentes personagens, em geral em cenas curtas, ainda que por vezes arrastadas. É um elenco equânime, que apresenta um trabalho visivelmente árduo fisicamente, capaz de deixar o espectador um tanto atordoado. A montagem reverbera quando termina. É a posteriori que o espectador tem a oportunidade de pensar e dar sentido a tudo que viu, o que é interessante, já que a ideia de construção de memória e de história permeia toda a pesquisa da Aquela Cia.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Julio Ricardo)

Ficha técnica
Direção: Marco André Nunes
Texto: Pedro Kosovski
Atores: Carolina Virguez, Matheus Macena, Reinaldo Junior, João Lucas Romero e Zaion Salomão
Direção Musical: Felipe Storino
Iluminação: Renato Machado
Instalação Cênica: Marco André Nunes e Marcelo Marques
Figurino: Marcelo Marques
Visagismo: Joseff Cheslow
Produção Executiva: Aline Mohamad | MS Arte & Cultura
Produção Geral: Núcleo Corpo Rastreado
Realização: Aquela Cia.

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SERVIÇO: qua a dom, 19h30. R$ 20. 80 min. Classificação: 14 anos. Até 15 de outubro. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Teatro 3 – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.