A Cia. Teatro Epigenia, dirigida por Gustavo Paso, conclui um ciclo em 2017: sua trilogia de montagens de peças de David Mamet, dramaturgo americano vencedor do Prêmio Pulitzer e indicado ao Tony Award. Depois de “Oleanna” e “Race”, a companhia brasileira optou por “Speed-the-Plow” para o encerramento da trinca. É um painel interessante: “Oleanna” aponta para a educação, “Race” para a justiça, e “Speed-the-Plow” para o cinema. Respectivamente, tratam da dificuldade de comunicação, da discriminação racial e do duelo entre arte e entretenimento. No Brasil, “Speed-the Plow” ganhou o título de “Hollywood”, e atuação de Cláudio Gabriel (de “Por Hora”), Luciana Fávero (de “Oleanna) e Ricardo Pereira (de “Um Sonho Para Dois”)/Gustavo Falcão (de “Race”).

(Foto: Daniel Moragas)

A história começa quando Tony Miller, recém-promovido para o cargo de diretor de produção de um grande estúdio, recebe a visita inesperada do amigo Daniel Fox em seu escritório. O colega conseguiu convencer um grande ator a mudar de estúdio e fechar com eles para fazer uma comédia de ação com potencial para blockbuster. Mas Daniel precisa dar a resposta até as 10h da manhã do dia seguinte, então Tony marca uma reunião urgente com seu superior. A questão é que, até a manhã seguinte, muitos acontecimentos fazem mudá-lo de ideia. Ele, que é verdadeiro defensor dos fins comerciais da indústria cinematográfica, tem um encontro com Karen, sua secretária temporária, e ela o convence a ler um livro filosófico com potencial para filme de arte. O que levar para o dono do estúdio: a comédia de ação estúpida, mas com previsão de grande bilheteria, ou o filme inspirador, que provavelmente não encherá as salas? A resposta é um jogo de manipulação.

A peça de Mamet se debruça nessa oposição entre produto e arte, de modo um tanto repetitivo. Ao invés de aprofundar a discussão ao longo da trama, os mesmos argumentos são apresentados diversas vezes, o que gera certa estagnação e se torna cansativo. Não é dos melhores textos do autor. Além disso, os diálogos machistas em torno da única personagem feminina são excessivos e naturalizados. Em determinado ponto, existe um assédio muito claro, e tudo é levado na brincadeira. É o olhar do espectador, e não o próprio texto, que implica um valor crítico ao conteúdo sexista. A peça parece olhar as mulheres de cima, o que é bastante incômodo.

A concepção da montagem brasileira é marcada pela cenografia do diretor Gustavo Paso, que contorna o espaço cênico e a mobília com plástico bolha. A percepção de que é tudo novo e desorganizado combina com o momento dos personagens. A iluminação de Paulo César Medeiros é importante especialmente para quando a cena sai do escritório para a casa de Tony Miller: nada além da luz caracteriza a mudança de ambientação. Além disso, o diretor optou por construir o cenário como corredor, com plateia dos dois lados, uma de frente para a outra, o que condiciona a atuação do elenco.

Cláudio Gabriel é o grande nome da montagem, imprimindo o humor necessário à encenação e demonstrando boa capacidade de improviso para contornar imprevistos. Luciana Fávero apresenta um trabalho seguro como a secretária, comedido à maneira Mamet. Já Ricardo Pereira, como Daniel Fox, está explosivo – com atuação histérica. Na sessão de estreia, o ator pareceu ter uma descarga elétrica no palco. O jogo entre Tony Miller e David Fox borbulha testosterona, mas se torna confuso por tanto texto gritado, com movimentação vigorosa incessante. Para se ter uma ideia, o figurino, assinado por Sônia Soares, saiu danificado. A direção de atores é um ponto negativo da montagem. Falta lapidação para alcançar melhors resultados. Menos é mais, quase sempre.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Daniel Moragas)

Ficha técnica
Texto: David Mamet
Direção: Gustavo Paso
Elenco: Ricardo Pereira, Cláudio Gabriel, Gustavo Falcão e Luciana Fávero.
Tradução: Flavio Marinho e Gustavo Paso
Cenário: Gustavo Paso
Figurino: Sônia Soares
Iluminação: Paulo César Medeiros
Trilha sonora: André Poyart
Produção e realização: Paso D’arte e Cia Teatro Epigenia

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 60 (qui e sex) e R$ 70 (sáb e dom). 75 min. Classificação: 14 anos. Até 25 de junho. Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.