No ano passado, Rodolfo Vaz e Yara de Novaes apresentaram o excelente “O Capote” no CCBB – ele como ator, ela como diretora. Neste ano, a dupla volta ao mesmo local para uma temporada de “Justa”, uma nova parceria, que agora traz os dois como atores. Divulgada como uma “peça-manifesto”, ela tem assinatura da Odeon Cia. Teatral, com texto de Newton Moreno (de “Maria do Caritó”) e direção de Carlos Gradim (de “Horácio”). A peça trata de justiça e corrupção.

(Foto: Elisa Mendes)

Na história, políticos corruptos passam a ser assassinados em Brasília e, prestes a se aposentar, um investigador (Rodolfo Vaz) é incumbido de descobrir quem está cometendo os homicídios. As pistas o levam a um bordel chamado “O Colégio”, muito conhecido entre senadores e deputados. Enquanto investiga, novos assassinatos acontecem, mas ele tem sua atenção desviada para uma prostituta em especial – que é cega e atende pelo nome de Justa (Yara de Novaes). Ironicamente, é amor à primeira vista – da parte dele.

O texto é inteiramente narrado pelo investigador, portanto, contando uma história que ele viveu e já conhece o final. Rodolfo Vaz, encarnado no personagem, diz o que fez, pensou e sentiu, em vez de fazer, pensar e sentir. Yara de Novaes, interpretando a puta-musa e todas as outras, entra em geral na ilustração dessas cenas, sempre em diálogo com o protagonista. São só os dois no palco, em tempo integral, e ela, quando não está imbuída de alguma personagem, senta-se ou faz uma espécie de coreografia aleatória no fundo do palco. Os dois atores estão, mais uma vez, muito bem – ainda que em tempos de atuação diferentes – uma implicação trazida pelo texto de Moreno.

O material de divulgação diz que a peça surgiu com a proposta de tratar da prostituição. Mas, no resultado final, essa é apenas uma circunstância. Tomada pelo panorama político brasileiro, a dramaturgia valoriou mais a troca de voto por propina do que sexo por dinheiro. A corrupção da consciência, com consequências para toda uma população, ao invés da corrupção do corpo, com consequências apenas para si. Um desvio apreciável, tensionando dilemas éticos. O problema é que a paixão do investigador pela prostituta resulta gratuita, um método apenas para esticar a história. Mais de uma vez durante a encenação, imaginei que uma adaptação para a TV – essas microsséries das 23h – funcionaria ainda melhor: tem a política, o suspense, e também o melodrama.

A direção de Carlos Gradim reforça o aspecto “manifesto” da encenação. O cenário de André Cortez trabalha com uma grande mesa central, com microfones, pedestais, potencializando vozes e discursos, e nove telas de LCD, que exibem imagens e vídeos de vaginas, seios, atos sexuais e frases de protesto – em diálogo com o fortalecimento da onda conservadora, que consegue cancelar e suspender exposições artísticas no Brasil. A iluminação de Telma Fernandes sublinha a escuridão do submundo da corrupção, mas sem deixar o espaço cênico com aquele clima de soninho. Os figurinos de Fábio Hitoshi contrastam o social apático do investigador feito por Rodolfo, realista, com a roupa de mergulho das personagens de Yara de Novaes, vários tons distantes da realidade. Nas primeiras cenas, a voz off também sublinha certa teatralidade: Yara chega a dublar uma risada – gravada por ninguém menos que Teuda Bara, como revela a ficha técnica.

O espetáculo tem alguns poréns, mas vale a pena assistir, principalmente pela reta final. É complexa a simpatia que se sente pela serial killer justiceira.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes de Cena.

(Foto: Elisa Mendes)

Ficha técnica
TEXTO Newton Moreno
DIREÇÃO GERAL Carlos Gradim
ELENCO Yara de Novaes e Rodolfo Vaz
DIRETOR ASSISTENTE Leandro Daniel
DIREÇÃO DE MOVIMENTO e ASS. DE DIREÇÃO Murillo Borges
DESIGN DE LUZ Telma Fernandes
CENOGRAFIA André Cortez
FIGURINOS Fábio Hitoshi
TRILHA SONORA ORIGINAL Dr Morris
PRODUÇÃO MUSICAL Yvo Ursini
VOZ DO HINO DE NINAR Laila Garin
GARGALHADA Teuda Bara
CONTEÚDO AUDIOVISUAL George Queiroz
PROGRAMAÇÃO DE VIDEO Julio Parente
ASSISTENTE DE CENÓGRAFIA Carmem Guerra
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO Caseiras Produções Culturais – Ana Luisa Lima
PRODUÇÃO EXECUTIVA Igor Biond
ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃO Marianna Botelho
ESTAGIÁRIO DE PRODUÇÃO Roy D’Peres
ADMINISTRAÇÃO DA TEMPORADA: Beatriz Lima
CENOTECNIA André Salles
OPERAÇÃO DE LUZ Boy Jorge JP
OPERAÇÃO DE AUDIO Vitor Vieira
EQUIPAMENTO DE SOM Rz Sound
CONTRA-REGRAGEM Roy D’Peres
PROJETO GRÁFICO Beto Martins e Gabriela Rocha
FOTOS João Caldas (Formato Estúdio) e Elisa Mendes
ASSESSORIA DE IMPRENSA Approach Comunicação
COORDENAÇÃO GERAL INSTITUTO ODEON: Thais Boaventura, Mariana Braga, Hannah Drummond e Ingrid Boiteux

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SERVIÇO: qua a dom, 19h30. R$ 20. 90 min. Classificação: 18 anos. Até 19 de novembro. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.