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Segundo texto do inglês Mike Bartlett montado pelo Grupo 3 de Teatro, “Love, Love, Love” sucede o premiado “Contrações”, o que significa uma estreia cercada de expectativas altas. No palco, as atrizes da cia., Débora Falabella e Yara de Novaes, contracenam com Ary França (de “Galileu Galilei”), Rafael Primot (de “O Livro dos Monstros Guardados”) e Mateus Monteiro (de “Playground”). A trama acompanha a trajetória de uma família de 1967, no dia da primeira transmissão ao vivo de TV via satélite, até 2014, tratando do conflito de gerações. O espetáculo é quase uma terapia em grupo, porque é impossível não reconhecer a si mesmo e aos próprios familiares nos confrontos, mágoas e ânsias representados.

(Foto: Leekyung Kim)
(Foto: Leekyung Kim)

Toda a peça é dividida em três cenas longas. A primeira retrata o encontro de dois universitários de Oxford, libertários, amantes de rock, da rebeldia, do ideal “paz e amor” e da possibilidade de mudar o mundo. A segunda mostra esse casal já com filhos adolescentes, com problemas de comunicação em casa, e ainda em dificuldade para entender sua maneira de amar. Na terceira cena, os libertários estão aposentados, com vidas confortáveis, mas com filhos fracassados de quase 40 anos: um show de mágoas, revoltas e cobranças – justificáveis ou não, vai depender do ponto de vista.

O texto de Bartlett começa um tanto arrastado, quando o público ainda não tem noção de que a primeira cena será toda a primeira história. Fica melhor a partir do segundo momento, com o conflito de perspectivas e identidades entre pais e filhos. Quanto ao elenco, não há o que falar. Cada ator tem uma força imensa em cena, muito perspicazes com a evolução temporal de seus personagens, com essência facilmente identificável. Yara de Novaes, que pega o papel dessa mãe na segunda e terceiras partes, é muito cativante. Seu papel personifica muito bem esse amor e ódio possível de se sentir pelos pais e, estando de fora dessa árvore genealógica, por esse ser humano. Palmas e ojerizas seguidas pela personagem, muito em parte por seu bom desempenho.

Na direção, Eric Lenate (de “Mantenha Fora do Alcance do Bebê”) investe em uma montagem brechtiana, com contrarregras à vista mudando cenários, atores trocando de figurinos e perucas diante da plateia, e o elenco no palco mesmo fora de cena. Cada cenário, assinado por André Cortez, marca não só a mudança de tempo, como o enquadramento dos personagens. Os figurinos de Fabio Namatame, idem. A iluminação de Gabriel Fontes Paiva, terceiro membro do Grupo 3, escapa à obviedade. E tem ainda a trilha sonora, a cargo de L.P. Daniel, com Beatles, Caetano Veloso e New Kids On the Block.

As soluções brechtianas, com intuito de quebrar a “ilusão teatral”, colaboram para a comunicação da montagem. No intervalo entre cada cena, enquanto cenários e atores são transformados, o público pensa no que acabou de ver. Política e intimidade entrelaçadas. É uma boa peça para assistir com os pais, com a família, e sair com mais compaixão por cada um deles. A vida é sobre apostas, erros e acertos, e na verdade ninguém sabe muito bem o que está fazendo. “Love, Love, Love” inspira reflexão suficiente para uma sessão de terapia.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Leekyung Kim)
(Foto: Leekyung Kim)

Ficha técnica
Autor: Mike Bartlett
Tradução: Maria Angela Fontes Frederico
Diretor Artístico: Eric Lenate
Elenco: Ary França, Débora Falabella, Mateus Monteiro, Rafael Primot e Yara de Novaes
Iluminador: Gabriel Fontes Paiva
Trilha Sonora: L.P. Daniel
Cenário: André Cortez
Figurinos: Fabio Namatame

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SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 30. 110 min. Classificação: 14 anos. Até 12 de março. Oi Futuro Flamengo – Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo. Tel: 3131-3060.