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“Match” é o primeiro texto do jovem dramaturgo americano Scott Organ montado no Brasil. A peça, originalmente intitulada “Phoenix”, transita pelo drama e pela comédia ao contar a história de um homem e uma mulher que se encontram quatro semanas após uma noite de sexo casual. Ela conta para ele que 1) adorou a noite, 2) eles não podem mais se ver, 3) está grávida. A notícia surpreendente sacode a vida dos dois – e, um pouco a contragosto dela – os encontros não cessam.

(Foto: Aline Macedo)
(Foto: Aline Macedo)

Ela está determinada a abortar; ele, nitidamente, balançado com a fantasia de ser pai. Ela, por causa da profissão, vive cada época em uma cidade diferente. Ele, pelo crush, viaja quatro dias de carro para acompanhá-la no dia do aborto, por vontade unicamente sua. O público não sabe muito sobre ambos, assim como eles pouco se conhecem. A construção da personagem feminina é particularmente confusa, textualmente e visualmente. Figurino e caracterização não colaboram para melhor entendimento de quem é essa pessoa por trás da situação inusitada. O desenrolar da trama se perde, ao tentar tratar de medo, coragem, riscos, imprevisibilidade, passado, presente e futuro.

Na adaptação brasileira, assinada pelo diretor Bruno Guida (de “The Pillowmen – o Homem Travesseiro”), há ainda a questão do título, “Match”, referência à ação no aplicativo de celular Tinder. A sinopse disponível para o espectador diz: “o espetáculo é o retrato de uma história a dois que começa num aplicativo, podendo ter qualquer desdobramento”. O dado, no entanto, não faz qualquer diferença na trama. Na verdade, durante toda a peça, existe somente uma mera menção – dispensável – ao fato de terem se conhecido no app. O título e a sinopse acabam, então, induzindo o público ao erro, pois não se trata de um espetáculo sobre relacionamentos virtuais ou especificamente surgidos na Internet. Pouco ou nada tem a ver com isso. Cria uma expectativa que leva à decepção.

No palco, os elementos dispostos pouco ajudam. Theodoro Cochrane assina a direção de arte, que dispõe de uma instalação suspensa no ar, em torno da qual a ação é construída. A iluminação de Ana Luzia de Simoni, por sua vez, é satisfatória. Em cena, os atores Carol Tilkian (de “Exercícios para Sr. Silva”) e Ciro Sales (de “Enterro dos Ossos”) demonstram entrosamento, mas não salvam uma dramaturgia desalinhada. Não parecem saber mais do que a plateia sobre seus papéis.

Há um projeto nos Estados Unidos para uma adaptação cinematográfica de “Phoenix”, e talvez a ideia funcione mesmo melhor na telona. Toda a questão das viagens dela e a saga de quatro dias dele no carro, aludidas na peça, podem ganhar corpo em um filme, com ares de road movie. Tem cara de filme indie, de festival. Pode dar certo. No teatro, sem cenários significativos, figurinos coerentes ou uma direção mais curiosa, o texto não decolou, infelizmente.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Aline Macedo)
(Foto: Aline Macedo)

Ficha técnica
Texto original: Scott Organ
Adaptação: Bruno Guida
Direção: Bruno Guida
Elenco: Carol Tilkian e Ciro Sales
Direção de movimento: Viétia Zangrandi
Direção de arte: Theodoro Cochrane
Arquitetura: Mariana Pitta
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Produção: Carol Tilkian e Ciro Sales
Realização: O maravilhoso coletivo / Otimistas artes e projetos

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SERVIÇO: qua e qui, 19h. R$ 30. 60 min. Classificação: 10 anos. Até 23 de fevereiro. Centro Cultural Justiça Federal – Av. Rio Branco, 241 – Centro. Tel: 3261-2565.