“Morte Acidental de um Anarquista”, texto do italiano Dario Fo (1926-2016), explora a comédia debochada para tratar de abuso de poder e distorção de fatos em ambiente policial. A peça é de 1970 e foi escrita com base no noticiário italiano, mas infelizmente sua atualidade e identificação com o Brasil justificam sua montagem no país mais de quarenta anos depois. Por aqui, o papel principal, que foi vivido pelo próprio Fo na Itália, fica a cargo de Dan Stulbach (de “Meu Deus!”), um dos produtores do espetáculo, que tem adaptação e direção de Hugo Coelho (de “Selvagens, Homem de Olhos Tristes”). A nova montagem brasileira (já houve uma nos anos 1980, com Antônio Fagundes) é marcada por improvisos e simulações de.

(Foto: João Caldas)

A história tem como pano de fundo atentados terroristas que aconteceram em 12 de dezembro de 1969, com bombas em Milão e Roma. 17 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas. A trama foca no suposto suicídio de um anarquista acusado pelos atentados: ele teria se jogado do prédio da polícia durante um interrogatório. O caso ficou nebuloso com incoerências nos depoimentos dos policiais envolvidos, mas ninguém foi condenado por falta de provas. Se o homem se jogou ou foi jogado, a justiça decidiu que vida que segue – para quem fica. Um ano após esse episódio na história da Itália, Dario Fo estreou sua peça ficcional, que coloca a figura de um louco dentro da delegacia naquele dia, subvertendo as artimanhas alheias e revelando práticas de tortura física e psicológica nos interrogatórios policiais. Na dramaturgia, o louco é acusado de falsidade ideológica, por gostar de se passar por outras pessoas, porém se revela mais esperto que o delegado e, ali mesmo, engana a todos fingindo ser um juiz.

A montagem brasileira respeita toda essa contextualização verídica italiana, sem buscar a troca por quaisquer paralelos no Brasil. As associações – e são várias – aparecem no desenrolar da encenação, principalmente pelos improvisos de Dan Stulbach e sua interação com a plateia. Os espectadores são aliados do ator e do personagem, e promovem um verdadeiro brainstorming em determinado momento do espetáculo, o que traz à tona nomes como Michel Temer, Pezão, Bolsonaro e termos como delação premiada e condução coercitiva. Ou seja, os links são políticos, em detrimento de policiais, o que o elenco incentiva, mas se impõe pelo público.

O vínculo ator-espectador, estabelecido pela figura de Dan, é primordial para o que se vê. Ao chegar ao teatro, o público é recebido por parte do elenco na porta, com uma apresentação musical. Dentro da sala, antes de começar a dramaturgia, os atores explicam porque e como decidiram montar essa peça, explicam a história e respondem perguntas. É uma estratégia que Dario Fo utilizava como aproximação e reconhecimento da plateia. A quarta parede não é quebrada porque inexiste ali. O problema é que essa interação deixa o protagonista em uma posição de busca desenfreada por ser engraçado, o que descamba para o âmbito da gracinha, desvalorizando um texto que já é cômico por natureza. Um problema de direção. Os cacos e improvisos por vezes são uma grande bobagem, que infantilizam a montagem.

Dan Stulbach cumpre a proposta e tem méritos por todo gestual de seu trabalho e pela administração da interação, sem perder o fio narrativo. No entanto, sua atuação é exagerada, em desarmonia com o restante do elenco. O personagem ser louco não justifica. Em contraste, a dupla Henrique Stroeter e Riba Carlovich, respectivamente o delegado e o secretário de segurança temerosos de não serem críveis e convincentes, encontram o tom perfeito e jogo teatral sintonizado. Maíra Chasseraux, Marcelo Castro e Rodrigo Bella Dona completam o elenco que, no palco, conta ainda com a música ao vivo de Rodrigo Geribello, atração à parte em especial por sua habilidade de sonoplastia vocal. Diverte.

O cenário, assinado por Marco Lima, cria uma sala de delegacia solar, sem nuances na iluminação amarela, a cargo de Hugo Coelho. Os figurinos, criados por Fause Haten, são lúdicos e reforçam o caráter debochado da peça, que se fantasia de grande bobagem, mas tem como pano de fundo um assunto seríssimo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: João Caldas)

Ficha Técnica
Texto: Dario Fo
Tradução: Roberta Barni
Dramaturgia e Direção: Hugo Coelho
Elenco: Dan Stulbach, Henrique Stroeter, Riba Carlovich, Maíra Chasseraux, Marcelo Castro e Rodrigo Bella Dona
Música ao vivo: Rodrigo Geribello
Cenário: Marco Lima
Figurino: Fause Haten
Iluminação: Hugo Coelho
Projeto Gráfico: Vicka Suarez
Produção Executiva: Katia Placiano
Realização: Quadrilha da Arte
Produtores Associados: Selma Morente, Célia Forte e Dan Stulbach

_____
SERVIÇO: sex, 21h; sáb, 19h30 e 22h; dom, 20h. R$ 70 (sex) ou R$ 80 (sáb e dom). 80 min. Classificação: 12 anos. Até 30 de abril. Teatro dos Quatro – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea. Tel: 2239-1095.