Pegue três atores conhecidos da TV, abuse de piadas homofóbicas, gordofóbicas e ageístas (discriminação contra idosos), trate a mulher como objeto sexual acéfalo, não se preocupe em decorar o texto, demonstre o quanto puder que não está nem aí para dizer suas falas e, pronto, você tem um musical bem sucedido. “Os Produtores” está enchendo o Vivo Rio, no Flamengo, e já prorrogou sua temporada em mais um fim de semana. Não faço a menor ideia de como isso está funcionando, mas está: a plateia se diverte, ri bastante e aparentemente volta para casa de astral renovado, o que me deixa muito sem esperanças com a humanidade. Socorro!

(Foto: Caio Galucci)

Metalinguisticamente, é mais ou menos essa a história do próprio espetáculo. Baseado no filme homônimo de 1967, que valeu o Oscar de melhor roteiro original para o cineasta Mel Brooks, “Os Produtores” conta a saga de um produtor teatral e um contador que se unem para dar um golpe na Broadway. Eles descobrem que é possível ganhar mais dinheiro com um fracasso, fraudando o orçamento, do que com um sucesso, prestando contas honestamente. Os dois se dedicam, então, a montar o pior espetáculo possível (um musical neo nazista, “Primavera Para Hitler”), com patrocínio milionário desviado para um cofre pessoal, mas o público ama o resultado e eles terminam ovacionados. Parece ser exatamente o que acontece com essa montagem, assinada por Miguel Falabella (de “O Homem de la Mancha”).

“Os Produtores”, como espetáculo teatral, surgiu em 2001 na Broadway e ficou em cartaz por seis anos, depois de se tornar o maior vencedor do Tony Awards (foram 12 troféus: melhor musical, texto, direção, ator, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, coreografia, cenário, luz, figurino, trilha sonora e orquestração). Em 2007, Falabella estreou o musical no Brasil, com uma turnê que levou mais de 200 mil pessoas ao teatro. Não vi essa primeira montagem. A segunda, mais de dez anos depois, em curta temporada no Rio, é triste. Realmente passa a impressão de que houve um empenho verdadeiro em fazer algo muito, muito ruim, menosprezando a inteligência da plateia. Por exemplo, o abobado espetáculo se alimenta do riso fácil vindo de repetidas piadas sobre ânus (falado ou aludido gestualmente). Inexplicavelmente, o público não pode ouvir a palavra cu no teatro que morre de rir. Falabella sabe disso, o elenco também, e não veem razão para entregar nada mais elaborado.

Há uma longa cena inteiramente dedicada a estereotipar homossexuais, que parte da premissa de que é legal rir dos gays. As piadas são ruins, o texto não avança, mas estão ali personagens gays expostos ao riso coletivo e isso basta. É um terror. Criticável em muitos níveis. A plateia morre de rir. A discriminação também acontece com gordos e idosos. Chega a ser ofensivo e desrespeitoso. Logo no início, o personagem de Falabella grita, pela janela, impropérios para uma mulher na rua – algo facilmente enquadrado como assédio. O público também gosta e ri. O lugar da mulher na trama, aliás, é muito misógino: só aparece como oferta sexual. A única personagem feminina dentre os protagonistas é um acessório estético, a única sem sobrenome. É assustador ver isso no palco hoje em dia – por mais que a história se passe no fim dos anos 1950. Não se justifica dar tamanha visibilidade a tal discurso. Tem gente se ferrando por muito menos – tweets de 140 caracteres – você deve ter lido as notícias. Se era para o espetáculo ser uma sátira a esse pensamento preconceituoso e exclusivo, a adaptação se perdeu no caminho. Mas creio que é só mais uma peça extremamente datada trazida à tona desnecessariamente, reforçando estereótipos e pensamentos ultrapassados, para delírio de quem se identifica com tais discursos.

Eu vi Miguel Falabella dizendo em uma entrevista que “Os Produtores” é mesmo politicamente incorreto. Mesmo assim, quis montar. Viu qualquer motivo para isso. Mas por que, então, não caprichou na montagem? A começar pelo elenco, que não está minimamente comprometido com o que está fazendo, o que é um desrespeito ao valor cobrado no ingresso. Como diretor, ele não poda, nem impõe limites. Todo mundo faz o que quer ali. Os protagonistas são ele e Marco Luque (de “Tamo Junto”), os produtores do título. Tanto um quanto o outro esquecem o texto, colocam cacos e perdem o fio da meada, riem de piadas internas que o público obviamente não alcança, falam quaisquer coisas incompreensíveis como se estivesse tudo bem e seguem em frente. Daniele Winits (de “Xanadu”) completa o trio principal, no papel de gostosona oca que ela está acostumada a fazer. Ela brinca de gemer em tempo integral, cacoete já visto em outros trabalhos. No canto, Miguel Falabella é o mais satisfatório. Marco Luque não está qualificado para um musical. Sua veia cômica não basta. Toda vez que ele tem que cantar, é evidente que era melhor não fazê-lo. Winits não é o maior problema. Há mais 22 atores, entre personagens secundários e coro. Poderiam segurar a peteca, aumentar a qualidade do que se vê, mas também entram em cena rindo, sem nenhum autocontrole, e tudo vira uma grande bagunça. Não estou sendo chato: não é como se eles perdessem o personagem uma ou duas vezes porque acharam graça de algo. É o tempo todo. Claudio Galvan (de “Romeu e Julieta, musical”), como o diretor afeminado, e Edgar Bustamante (de “A Madrinha Embriagada”), como o maluco que escreve um tributo a Hitler, são destaques positivos – ainda que não fujam do que eu disse na frase anterior. É como se ninguém estivesse levando a sério o musical que está fazendo, o que é na verdade muito compreensível.

A orquestra, sim, faz seu papel direito. A direção musical é de Carlos Bauzys. Algumas letras das músicas, no entanto, não podiam ser compreendidas: não sei se era um problema do elenco ou da caixa de som próxima de onde me sentei. O número de abertura, por exemplo, não deu para entender a maioria das palavras. Além disso, as coreografias, assinadas por Fernanda Chamma, sempre parecem render menos do que podiam. Há um número musical das velhinhas com andadores que começa muito promissor, mas fica abaixo da expectativa. Os 350 figurinos (de Ligia Rocha e Marco Pacheco), somados a 60 perucas, são condizentes com a proposta caricata e cômica. Os cenários (de Renato Theobaldo) prezam por painéis variados – 16 ao todo, com trocas rápidas. A iluminação (de Guillermo Herrero) é o melhor elemento dentre os citados neste parágrafo, mas ironicamente foi culpa dela o atraso de 40 minutos para o início da sessão. Sem maiores explicações, algo explodiu e deixou o palco no breu. O musical teve que recomeçar, após um reparo. Foi aquela noite que você chega ao fim e pensa: “não era pra ser”.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Caio Galucci)

Ficha técnica
Direção Geral – Miguel Falabella
Direção Musical e Vocal – Carlos Bauzys
Coreografia – Fernanda Chamma
Cenografia – Renato Theobaldo
Figurino – Ligia Rocha e Marco Pacheco
Visagismo – Dicko Lorenzo
Design de Som – Gabriel D’Angelo
Design de Luz – Guillermo Herrero
Produção Geral – Sandro Chaim
Assistente de Direção e Diretora Residente – Dani Calicchio
Direção Musical Associada e Maestro – Guilherme Terra
Coreografia de Sapateado – Felipe Galganni
Cenógrafo Associado – Beto Rolnik

ELENCO
Miguel Falabella – Max Bialystock
Marco Luque – Leo Bloom
Danielle Winits – Ulla
Claudio Galvan – Roger De Bris
Edgar Bustamante – Franz Liebkind
Mauricio Xavier – Carmen Ghia
Brenda Nadler – Ensemble
Carol Costa – Ensemble
Fefa Moreira – Ensemble/ Swing
Giovanna Zotti – Ensemble
Hellen de Castro – Ensemble
Mariana Belém – Ensemble
Maysa Mundim – Ensemble
Renata Vilela – Ensemble
Talita Real – Ensemble
Thais Garcia – Ensemble
Adriano Tunes – Ensemble
Carlos Leça – Ensemble
Daniel Caldini – Ensemble / Swing
Fernando Lourenção – Ensemble
Gustavo Klein – Ensemble
Marcel Octavio – Ensemble
Pedro Paulo Bravo – Ensemble
Rafael Machado – Ensemble
Ubiracy Brasil – Ensemble
Patrocínio: SulAmérica, Colgate, Eurofarma, Sem Parar, Alelo.
Promoção: TV Globo
Realização: Chaim Entretenimento e Ministério da Cultura

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SERVIÇO: sáb, 17h e 21h. De R$ 75 a R$220. Classificação: 18 anos. Dia 28 de julho. Vivo Rio – Avenida Infante Dom Henrique, 85 – Parque do Flamengo. Tel: 2272-2901.