Divertido é a melhor maneira de definir “[nome do espetáculo]” (grafado assim), musical da Broadway montado no Brasil por iniciativa dos atores Caio Scot e Junio Duarte (ambos de “The Book of Mormon”). Os dois estão em cena ao lado da ótima voz Carol Berres (de “A Ópera Pânica”) e da excelente comediante Ingrid Klug (de “O Mambembe”), dirigidos por Tauã Delmiro (ator de “60! Década de Arromba – Doc. Musical”, estreante na função). O espetáculo acompanha dois amigos que escrevem um musical inédito em três semanas, com colaboração de duas amigas, para participar de um festival. O musical que o espectador assiste é justamente o musical que os personagens escrevem. Explico melhor: os personagens são os próprios criadores. As cenas, supostamente, aconteceram de verdade durante o processo criativo. A trama metalinguística acompanha as alegrias e agruras de um grupo de artistas envolvidos com a concepção de um musical: as pequenas e grandes conquistas, o crescimento, a decepção, as discussões, as concessões, e a luta pela autenticidade simultânea à busca pelo sucesso.

(Foto: Manuela Hashimoto)

Escrito por Hunter Bell, com letras e músicas de Jeff Bowen, “[title of the show]” estreou em 2004 no New York Musical Theatre Festival – aquele para o qual os personagens escrevem o espetáculo. Um ano depois, revisado e expandido, ele entrou no circuito off-Broadway e, finalmente em 2008, chegou à Broadway. Essa trajetória também é contada na dramaturgia: tudo que ia acontecendo, eles iam incluindo no texto – cheio de quebras e subversões espirituosas. Na bem adaptada versão brasileira, assinada por Caio Scot, Carol Berres, Junio Duarte, Luisa Vianna e Tauã Delmiro, esse caminho é marcado pela conquista de teatros daqui, com sonho de chegar ao Renault, em São Paulo – palco de grandes produções recentes como “Os Miseráveis” e “Wicked”. Essa versão merece todos os elogios possíveis: fora o nome dos personagens, todas as referências, piadas e situações são essencialmente brasileiras. Você esquece que é um musical importado. As inserções nacionais surpreendem e tornam a experiência mais engraçada, aproximando a plateia. Não vou citar nenhuma para não estragar o efeito surpresa.

O texto traz muitas menções muito específicas do meio teatral, e o público pode não captar ou não entender todas. Mas o grande trunfo de “[nome do espetáculo]” é a capacidade de rir de si mesmo, e sua autocrítica não ignora este ou tantos outros pontos. Então, quem não ri na primeira piada ri na segunda. Há um ou outro momento dispensável, com caráter de autoajuda, mas o texto é muito bom apesar disso. Por suas especificidades, esse é um musical para fãs do gênero. Contudo, também tem potencial para entreter quem detesta musicais, por todo seu deboche. A comédia está a frente. Musicalmente, tudo acontece apenas com as quatro vozes e um teclado, tocado pelo diretor musical Gustavo Tibi (da banda Jamz). As canções, no geral, são bem humoradas – algo como os álbuns de Clarice Falcão, ficando a seu critério se essa lembrança é boa ou não. Como os números são sonoramente enxutos, o desempenho vocal de cada ator fica muito evidente. Berres e Klug sobressaem-se a Scot e Duarte, que estão na linha do satisfatório. Na sessão assistida, ainda houve problemas técnicos como microfones com ruídos e técnicos no palco para reparar o teclado. Neste segundo caso, o jogo de cintura dos atores deu conta de incluir aquilo na encenação, porque cabe tudo em um musical sobre criar um musical. Mas são erros que não podem existir para a dignidade mínima de uma montagem.

O cenário criado por Cris de Lamare é ínfimo – três cadeiras coloridas de rodinhas, uma poltrona amarela e quatro venezianas ao fundo – assim como a criatividade da iluminação de Paulo Cesar Medeiros. Os figurinos, assinados pelo diretor, são casuais, com algo de ridículo. Como o texto, a direção também faz graça de suas limitações, rindo da precariedade, o que diverte. Tauã Delmiro é perspicaz em explorar ao máximo as possibilidades dos elementos disponíveis, sempre com humor, sobretudo nos números musicais, com coreografias também cômicas e às vezes propositalmente toscas. O subtexto torna-se muito rico. É um musical que tira sarro do universo musical, ao mesmo tempo que o homenageia. Sem dúvida, saldo positivo, com momentos geniais.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Manuela Hashimoto)

Ficha técnica
TEXTO ORIGINAL: Hunter Bell
LETRAS E MÚSICAS ORIGINAIS: Jeff Bowen
VERSÃO BRASILEIRA (TEXTO E MÚSICAS): Caio Scot, Carol Berres, Junio Duarte, Luisa Vianna e Tauã Delmiro
DIREÇÃO ARTÍSTICA: Tauã Delmiro
ELENCO: Caio Scot, Carol Berres, Gustavo Tibi, Ingrid Klug e Junio Duarte – Stand in ator/pianista: Catherine Henriques
CENÁRIO: Cris de Lamare
FIGURINO: Tauã Delmiro
ILUMINAÇÃO: Paulo César Medeiros
DIREÇÃO MUSICAL: Gustavo Tibi
DIREÇÃO VOCAL: Rafael Villar
DESIGNER DE SOM: Gabriel D’Angelo
OPERADOR DE SOM: Cidinho Rodrigues e Erick Lima
OPERADOR DE LUZ: Dans Souza
MICROFONISTA: Manuela Hashimoto
DESIGNER GRÁFICO: Thiago Fontin
FOTOS DE DIVULGAÇÃO: Bárbara Lopes
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Manuela Hashimoto
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Fernanda Alencar
ASSESSORIA DE IMPRENSA: Julyana Caldas – JC Assessoria de Imprensa
IDEALIZAÇÃO: Caio Scot e Junio Duarte
REALIZAÇÃO: Caju Produções

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SERVIÇO: sáb a seg, 20h. R$ 40. 90 min. Classificação: 14 anos. Até 4 de dezembro. Solar de Botafogo – Rua General Polidoro, 180 – Botafogo. Tel:2543-5411.