Uma boa pedida de comédia em cartaz na cidade é “O Abacaxi”, estreia da atriz Veronica Debom (de “Comédia em Pé”) na dramaturgia. O espetáculo é dividido em várias situações independentes, todas versando sobre amor romântico e as possibilidade contemporâneas de vivenciá-lo – monogamia, relacionamento aberto, poliamor, amizade colorida, etc. – assim como os conflitos inerentes a qualquer uma das opções de formatos. O caos, em distintas histórias, é retratado com bom humor e boas improvisações por parte dos atores: Debom divide o palco com ninguém menos que o namorado Felipe Rocha (de “Ninguém Falou Que Seria Fácil”), com direção de Debora Lamm (de “Pedro Malazarte e a Arara Gigante”). O casal da vida real dá vida a vários outros no palco.

(Foto: Aline Macedo)

O texto de Veronica capta comicamente um momento social de conflitos principalmente internos no que concerne aos relacionamentos amorosos: é fácil constatar que a monogamia faliu, mas é difícil lidar com novos formatos, tendo crescido com padrões tradicionalistas enraizados. As negociações e acordos quanto as regras dos relacionamentos, específicas para cada caso, são uma novidade da sociedade em transição. De forma leve e divertida, a peça consegue traçar reflexões e fazer provocações de ordem filosófica – sobre posse, liberdade, instinto e insegurança. O abacaxi do título significa “problema”, porque não escapa disso qualquer tipo de envolvimento afetivo com uma ou mais pessoas. Uma das cenas da peça, especificamente, mostra a personagem confiante de que pode transformar um abacaxi em manga. Quem nunca?

A realização dessas ideias no palco se concretiza de maneira eficiente. O cenário kitsch, criado por Mina Quental, acomoda vários cômodos de uma casa em um único, com elementos essenciais – vaso sanitário, rolos de papel higiênico (de forma decorativa!), geladeira, talheres, sofás, mesa, etc – em torno de um tapete, onde os atores ficam a maior parte do tempo. Há também espaço para a bateria do músico Rafael Rocha, que assina a divertida direção musical e executa a trilha ao vivo, quase um terceiro personagem da encenação. Os figurinos de Luiza Fardin seguem o espírito da cenografia, com ares de piada, e não delimitam muito os personagens, que podem ser qualquer um de nós. A iluminação de Ana Luzia de Simoni e João Gioia tem poucas variações, mas as que existem são marcantes e certeiras.

A direção de Debora Lamm imprime bom ritmo, reafirmado pela sintonia entre o casal de atores, e contorna a maioria dos pleonasmos do texto. Algumas opções cênicas, como aparições de coreografias e um segmento com ausência dos atores no palco, enriquecem a experiência do espectador. O espetáculo não esfria, e a plateia está sempre pronta para a próxima situação a ser apresentada. Os espectadores, aliás, são inseridos na montagem: alguns são convidados a se sentarem em sofás do cenário, assistindo à encenação de ângulo diferenciado. Além disso, com alto domínio da dramaturgia, Debom e Rocha improvisam, criam diálogos com a plateia, brincam com quem conhecem e acabam por criar um clima realmente amigável para todos na sala. Tem tudo para fazer sucesso no boca a boca.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Aline Macedo)

Ficha técnica
Autora: Veronica Debom
Direção: Debora Lamm
Colaboração Artística: Fabiano de Freitas
Elenco: Veronica Debom e Felipe Rocha
Direção Musical: Rafael Rocha
Direção de Movimento: Alice Ripoll
Cenografia: Mina Quental
Assistente de Cenografia: Éllen Rambo
Figurino: Luiza Fardin
Iluminação: Ana Luzia de Simoni e João Gioia
Programação Visual: Lucas Canavarro
Assessoria de Imprensa: Fernanda Lacombe (Lage Assessoria)
Direção de Produção: Rafael Faustini
Produção Executiva: Rachel Lamm
Realização: Faustini Produções

_____
SERVIÇO: sáb e seg, 21h; dom, 20h. R$ 40. 80 min. Classificação: 14 anos. De 9 até 31 de julho. Espaço Cultural Sérgio Porto – Rua Humaitá, 163 – Humaitá. Tel: 2535-3846.