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A peça “O Camareiro”, do inglês Ronald Harwood, se torna, no Brasil, uma desculpa para o público ver o ator Tarcísio Meira. Ele não fazia teatro há 20 anos, até receber o convite de Kiko Mascarenhas (de “O Desaparecimento do Elefante”) e Ulysses Cruz (de “Tribos”) para esse trabalho. Com 60 anos de carreira, Tarcísio, como se sabe, consagrou-se no formato televisivo. Não à toa, “O Camareiro” é, na verdade, uma homenagem ao teatro: a história se passa inteiramente em uma coxia. A montagem brasileira, por sua vez, é também uma homenagem em cena ao Tarcísio. Ele e seu personagem confundem-se facilmente.

(Foto: Priscila Prade)
(Foto: Priscila Prade)

Na história, ambientada em 1942, ele é Sir, ator inglês dono de uma companhia de teatro decadente, especializada na obra de William Shakespeare (1564-1616). O personagem tem sinais claros de doença mental, com vários lapsos de energia e memória, oscilações de humor e falas incoerentes. Ele some na cidade por um dia, em plena Segunda Guerra Mundial, deixando seu camareiro preocupadíssimo, e vai parar em um hospital. Está à beira de um colapso, mas se dá alta e foge para seu compromisso inadiável: fazer a apresentação do dia – “Rei Lear” – embora esteja claramente fora de condições de trabalhar (por vezes diz que fará “Ricardo III” e revela não lembrar do texto). A trama, traduzida por Diego Teza, se passa toda na coxia desse teatro e acompanha a tensão da equipe para manter de pé a sessão, com a casa lotada, e o protagonista delirante. É uma completa metalinguagem: teatro dentro de teatro. São divertidas as brincadeiras que servem para “fora da historia”, como a crítica aos críticos e o estrelismo do protagonista ególatra, que quer a luz só para ele. Aliás, a iluminação, de fato, tende a privilegiar Tarcísio.

O espetáculo é dividido em dois atos, o que denuncia seu ponto baixo: é longo demais. O texto se arrasta, se repete e pouco evolui. Dado o fim da história (não se preocupe: não há spoiler aqui), é evidente que não faltam oportunidades de encurtá-la. O texto não segura por tanto tempo, porque não tem um conflito, nenhum fio condutor além de um dia na rotina daquelas pessoas. A tensão e pressão às quais estão submetidos os personagens, para colocar “Rei Lear” no palco, com os atrasos e entraves de Sir, sugerem um dinamismo, que a direção de Ulysses Cruz não imprime. Quem dá o ritmo da encenação é o personagem de Tarcísio, um senhor com ares de moribundo. Então, o público, em vez de ficar apreensivo, sem saber se a peça dentro da peça dará certo ou não, tende a acomodar-se na poltrona, com distanciamento, sem envolver-se com aquilo.

Quem conduz o espetáculo, como o título indica, é o camareiro, interpretado belissimamente por Kiko Mascarenhas, com humor bastante refinado. Não há más interpretações no elenco: estão todos muito cientes de seus papeis. A montagem, porém, gira em torno da estrela de Tarcísio, o que é compreensível dadas as circunstâncias, mas gera uma enorme lentidão, que não combina com a situação dos outros personagens, de correr contra o relógio. Sir é literalmente estagnado – sentado, por vezes estirado – enquanto tudo acontece em seu entorno. Ver isso se repetindo ao longo de duas horas, torna-se tedioso e previsível. Não há Tarcísio que segure.

A direção de arte tende para o pomposo em todos seus aspectos. O fato dos personagens estarem envolvidos com uma apresentação de “Rei Lear” faz com que a cenografia e os figurinos não se furtem ao ostensivo, ao popularmente dito teatral, ainda que com ares austeros, sinais da Inglaterra dos anos 40. São particularmente interessantes as projeções ocasionais, como espécies de interlúdios, e a trilha sonora, que lembra o espectador da alienação daquele ambiente: do lado de fora ocorre uma guerra.

Em resumo, “O Camareiro” não supera o atrativo de ser “uma peça com Tarcísio Meira”, de modo que, sem ele no elenco, não há muito mais o que interesse ali. Mas ele está ali, então fica tudo bem. Depois da temporada no Teatro Sesc Ginástico, já há outra programada, no Oi Casa Grande.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Priscila Prade)
(Foto: Priscila Prade)

Ficha Técnica:
Texto: Ronald Harwood
Tradutor: Diego Teza
Diretor: Ulysses Cruz
Diretor Assistente: Ravel Cabral
Elenco: Tarcísio Meira, Kiko Mascarenhas, Lara Córdula, Karen Coelho, Silvio Matos, Licurgo Spinola, Analu Prates
Coach Texto: Ana Luiza Folly
Cenografia: Andre Cortez
Figurinos: Beth Filipecki / Renaldo Machado
Produtor de arte: Luis Rossi
Designer de Luz: Domingos Quintiliano
Trilha Original: Rafael Langoni
Designer de Som: Laércio Sales
Fotos Divulgação: Priscila Prade e Juliana Hilal
Designer Gráfico: Victor Hugo
Visagismo: Emi Sato/Rose Verçosa
Assistente de Visagismo: Rodrigo Reinoso
Diretor de Palco: Angelo Máximo
Assistente de Palco: Alessandro Dourado
Camareira: Sabrina Rafaele
Assistente de Camareira: Priscila Romio
Produtoras Executivas: Carmem Oliveira / Viviane Procópio
Administradora: Carmem Oliveira
Assistente de Produção RJ: Marcela Araújo
Assistente de Produção SP: Igor Dib
Diretor de Produção: Radamés Bruno
Diretor Financeiro: Andre Mello
Produção: BR Produtora
Administração Geral: Ricca Produções
Patrocínio: Porto Seguro Seguros
Produtores Associados: Tarcísio Meira / Kiko Mascarenhas / André Mello
Realização: Lei Federal de Incentivo à Cultura, Ricca Produções, KM Produções, Ministério da Cultura, Governo Federal – Brasil Pátria Educadora

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SERVIÇO 1 : sex e sáb, 19h; dom, 18h. R$ 20 (ou R$ 5 para sócios do Sesc). 130 min. Classificação: 12 anos. Até 12 de junho. Teatro Sesc Ginástico – Av. Graça Aranha, 187, Centro. Tel: 22794027.

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SERVIÇO 2: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 40 a R$ 100 (qui), R$ 50 a R$ 110 (sex), R$ 60 a R$ 120 (sáb e dom). 120 min. Classificação: 12 anos. De 24 de junho até 10 de julho. Teatro Oi Casa Grande – Rua Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon. Tel: 2511-0800.