Um dos grandes nomes do teatro espanhol, Juan Mayorga ganha mais uma montagem no Brasil: “O Garoto da Última Fila”, com tradução de José Wilker (1944-2014). O espetáculo, aqui dirigido por Victor Garcia Peralta (de “The Pride”), trabalha as linhas tênues entre realidade e ficção, público e privado, voyeurismo e ética, questionando e confrontando esses limites. A dramaturgia é toda esquematizada a partir das trocas entre ação e narração, o que resulta em algo interessantíssimo e exige do espectador um estado de atenção constante.

(Foto: Ricardo Brajterman / Divulgação)

Na trama, um professor de literatura de meia idade, desiludido com os alunos e o futuro da nação, corrige redações incrivelmente ruins quando, por fim, se depara com um texto que valha a pena. Um dos estudantes narrou seu fim de semana, como o mestre pediu, e contou com detalhes como conseguiu se infiltrar na casa de um colega de turma para bisbilhotar sua família de perto. No fim, escreveu: “continua…”. Fisgado pelo poder de narrativa do garoto, o professor passa a se dedicar especificamente a ele, emprestando livros, exigindo mais de sua escrita, e lendo com regularidade seus textos – que descrevem o dia-a-dia da família de outro estudante. Uma família ordinária de classe média. Sem se importar com qualquer dilema moral, o professor pede mais e mais, como quem lê uma novela escrita em tempo real, sem ter certeza do que é real ou ficcional, mas encantado pela qualidade literária do aluno voyeur. Sua mulher, que também é conquistada pelo conteúdo das redações, avisa: isso não pode acabar bem. Mas o professor paga para ver.

Essa história chegou ao Brasil primeiro com sua adaptação cinematográfica – “Dentro da Casa” (Dans la Maison), apresentada no Festival do Rio de 2013. O filme, francês, tem direção de François Ozon e foi premiado em alguns festivais na Europa. Os cortes, enquadramentos e a edição ajudam a tornar a trama mais envolvente e irresistível para o espectador, como é para o professor ler as redações do aluno. Fica a dica: é um bom filme. Juan Mayorga, no entanto, não é inédito nos palcos cariocas. Outras peças dele já foram montadas por aqui: “Hamelin”, “A Tartaruga de Darwin” e “A Paz Perpétua”.

“O Garoto da Última Fila” é rico em possibilidades de análise. O aluno escritor é o único personagem apresentado fora de uma estrutura familiar, sem cenas em sua própria casa. Não se sabe dele mais do que ele escreve – sobre os outros. É fascinante como Mayorga constrói o protagonista a partir de sua narração sobre outras vidas. Por outro lado, o que se conhece da família em questão é sempre por sua perspectiva, ora com desdém, ora com afã, com intenção de agradar o único leitor, que é o professor exigente. É mesmo um texto com várias camadas.

A montagem de Victor Garcia Peralta opta por uma concepção neutra. O cenário, assinado por Miguel Pinto Guimarães, é composto simplesmente por uma grande mesa retangular branca, em torno da qual os seis atores se acomodam em cadeiras durante toda a encenação, independente de estarem ou não em cena. Com isso, o diretor dá ao público algo além da peça: o espectador vê os personagens em exposição em tempo integral, com acesso a mais do que o aluno-narrador entrega. A decisão, arriscada, resvala em excesso e compromete o valioso mistério que o texto pede. Os figurinos sóbrios de Carol Lobato ficam responsáveis pela estética da montagem, com bons resultados, mas a iluminação de Maneco Quinderé, por sua vez, perde oportunidades dramáticas. A luz faz muito pouco por uma dramaturgia já sem cenário.

O elenco é liderado pelo veterano Isio Ghelman (de “Ivanov”), em ótima atuação como o professor, e o estreante Gabriel Lara como o estudante. Luciana Braga (de “O Submarino”), na pele da esposa do mestre, e Celso Taddei (de “Apesar de Você”), como o pai da família espionada, são destaques da montagem, com atuações competentes e certeiras, melhores compreendendo o lugar de seus personagens dentro do todo. Lorena da Silva (de “Timon de Atenas”) e Vicente Conde completam o time. Na sessão assistida, algo incômodo aconteceu: em diferentes momentos, todos os seis tropeçaram no texto, com engasgos, denotando ansiedade em dar as falas. É importante respirar para que seja o público a perder o fôlego.

“O Garoto da Última Fila” é um texto sensacional, que talvez não tenha encontrado sua melhor realização possível, mas ainda assim vale a pena assistir. E não se esqueça do filme, que não está na Netflix, mas é facilmente encontrado.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Ricardo Brajterman / Divulgação)

Ficha técnica
Elenco: Celso Taddei, Gabriel Lara, Isio Ghelman, Lorena da Silva, Luciana Braga e Vicente Conde
Direção: Victor Garcia Peralta
Iluminação: Maneco Quinderé
Cenário: Miguel Pinto Guimarães
Figurino: Carol Lobato
Projeto Gráfico: Vento Estúdio
Assessoria de imprensa: MNiemeyer
Direção de produção: Cristiana Lara Resende e Tatianna Trinxet
Idealização: Cristiana Lara Resende e Victor Garcia Peralta
Realização: Cris Lara Produções Artísticas Ltda

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SERVIÇO: qua e qui, 21h. R$ 60. 90 min. Classificação: livre. Aé 31 de agosto. Teatro das Artes – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea. Tel: 2540-6004.