“Começa, acontecem algumas coisas, e termina”: é uma fala da própria peça a melhor maneira de sintetizar o musical “O Grande Sucesso”. Na dramaturgia, a frase explica o funcionamento da vida – e do teatro. Sendo um espetáculo metalinguístico, cabe bem começar a crítica assim. “O Grande Sucesso” é fruto dos devaneios do ator Alexandre Nero (de “Bolacha e Maria”), protagonista e idealizador do projeto. Para quem já o leu nas redes sociais ou acompanhou suas entrevistas, fica a dica: o musical é a cara dele. Se isso é bom ou não, depende do quanto você está em sintonia, ou de quanto fumou.

(Foto: Priscila Prade)

A trama se passa inteiramente na coxia de um teatro, onde o elenco secundário aguarda sua vez de entrar em cena em um espetáculo “confuso” que já dura três horas. A peça dentro da peça é o trampolim para muitas ironias do texto do diretor Diego Fortes (que venceu o Prêmio Shell de São Paulo neste ano) a começar por “O Grande Sucesso” ser, também, uma grande confusão. Sem uma “mensagem”, como a dramaturgia debocha, mas às vezes também sem lógica ou um mínimo de fio narrativo, o espetáculo ora discute filosoficamente sobre fracasso e sucesso, ora se pergunta o sentido da vida, ora se percebe no limbo, ora leva para o palco os pensamentos do público: tem sentido? É para entender? Precisa entender tudo? É o bom humor que torna a experiência digerível. Não se trata de uma comédia, mas existe ali um humor autocrítico muito perspicaz. É engraçado, por exemplo, como os personagens são todos frustrados e infelizes, mas volta e meia têm que sorrir e “fingir que está tudo bem” para fotos.

O elenco forma uma boa unidade, com Nero em posição de destaque. São oito artistas ao todo, com mais duas participações. Fernanda Fuchs (de “Corrente Fria, Corrente Quente”) apresenta ótima atuação, e chama atenção para a direção de movimento de Carmen Jorge – que também assina as coreografias, mais patetas. Rafael Camargo (de “Paranã”) aproveita todas as suas boas oportunidades, com trabalho exemplar.

O que há de musical em “O Grande Sucesso” é forçoso e redundante: 11 canções, escritas, tocadas e interpretadas pelo elenco, que ressaltam o que já foi dito ou soam completamente aleatórias. Juntas, a direção musical de Gilson Fukushima e a direção geral de Diego Fortes não superam a sensação de interlude entre um diálogo e outro. Melhores aspectos são o cenário de Marco Lima, que transforma o palco em uma coxia lúdica, e os figurinos de Karen Bursttolin, em geral graciosos. A iluminação de Nadja Naira é adequada à proposta do espetáculo.

A direção cuidadosa de Diego Fortes também acerta na utilização do espaço, com entradas e saídas que contribuem para o entendimento de um espectador mais leigo no universo das artes cênicas. E eis aí um ponto que chama a atenção: autocentrado, o espetáculo parece se orgulhar de não fazer concessões, em um esforço constante para não atender expectativas mínimas. Flerta-se, vez ou outra, com uma aproximação com a plateia, mas no geral ocorre um distanciamento. A palavra de ordem parece ser confundir. A peça ganha força quando ironiza a si mesma quanto a esse aspecto, mas beira o pedante em discursos maiores do protagonista, extremamente pretensiosos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Priscila Prade)

Ficha Técnica
Texto e Direção: Diego Fortes
Direção Musical: Gilson Fukushima
Elenco: Alexandre Nero, Carol Panesi, Edith de Camargo, Fernanda Fuchs, Fabio Cardoso, Eliezer Vander Brock, Marco Bravo, Rafael Camargo
Participação: Fernando Trauer e Thomas Marcondes
Interlocução artística – Alexandre Nero
Direção de Movimento e Coreografia: Carmen Jorge
Consultoria dramatúrgica : Luci Collin
Design de Luz: Nadja Naira
Cenografia: Marco Lima
Figurino: Karen Brusttolin
Confecção de figurinos e adereços: Paula Accioli
Visagismo: Wilson Eliodorio e Junior Mesquita
Fotografia: Priscila Prade
Direção de Produção: Priscila Prade
Produção Executiva: Bila Bueno
Diretor de palco: Fernando Trauer
Assistente de Produção: Thomas Marcondes
Roadie: Marcos Franco
Operador de Som: Arthur Ferreira
Microfonista: Douglas Fernandes
Operador de Luz: Ari Nagô
Construção de cenário: Fernando Brettas | ONO-ZONE Estúdio
Assistente de figurino: Fernanda Tolen e Ivy Gabriel
Assistente Visagismo: Max Lima
Camareira: Rosa Passe
Assessoria Jurídica: Francez e Alonso Advogados
Gestão de projeto e lei de incentivo: Daniela Brusco | O Bixo Produção Cultural
Financeiro: Maristela Marino
Projeto Gráfico e Estratégia Digital: Gigi Prade e Murilo Lima
AudioVisual: Anderson Raione H5 Films
Realização: Super Amigos Produções Culturais e Ministério da Cultura

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SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 19h. R$ 80 (sex) e R$ 100 (sáb e dom). 105 min. Classificaçao: 14 anos. Até 30 de abril. Teatro do Leblon – Sala Marília Pêra – Rua Conde de Bernadotte, 26 – Leblon. Tel: 2529-7700.