“O Princípio de Arquimedes” é o novo bom espetáculo da Lunática Cia. de Teatro, em cartaz no Sesc Tijuca até 1º de outubro. É uma peça importada da Espanha, escrita pelo catalão Josep Maria Miró, e aqui dirigida por Daniel Dias da Silva (de “Dirigir-se Aos Homens”). Em síntese, conta a história do professor de uma escolinha de natação acusado de abuso de menor: uma das meninas da turma relata que ele abraçou e beijou na boca um garotinho que estava com medo de tirar a boia na piscina.

(Foto: Daniel Dias da Silva)

Antes de prosseguir, contudo, é importante (tentar) entender o título: do que trata o princípio de Arquimedes? Uma pesquisa no Google explica que Arquimedes foi um matemático e físico que viveu três séculos a.C. É dele o crédito da percepção de que qualquer corpo aparenta ser mais leve imerso n’água, porque ocorre uma força verticalmente para cima com intensidade igual ao peso do fluido deslocado pelo corpo. Ruim essa aula mequetrefe de física, né? Mas o princípio de Arquimedes, basicamente, trata da diferença entre o peso aparente e o peso real. Tem tudo a ver com a trama, e já mostro o porquê.

O espectador, como os personagens, não sabe se o professor agiu dentro dos limites do carinho socialmente aceitável ou se realmente teve uma atitude pedófila pervertida. A história é contada como um quebra-cabeça, com cenas entrecortadas, idas e vindas no tempo e mudanças de perspectiva dadas pela encenação. Vê-se um diálogo de determinado ângulo e, minutos depois, os atores desempenham a mesmíssima cena com marcações invertidas. Não sei se essa é uma indicação da própria dramaturgia para a direção, mas é inteligentíssima: força o público a analisar o mesmo material de outra maneira e, no fim das contas, é disso que trata o texto: o peso aparente e o peso real. Na piscina, com as crianças, o empuxo pontua a leveza das relações. Fora d’água, entre os adultos, a polêmica pesa. O conflito começa com a diretora dizendo que pais de alunos “estão reclamando”.

O texto traz blocos de cenas longas, bastante repetitivas, com evolução vagarosa mas constante. Tudo se passa ao longo de um único dia. O conflito se dá principalmente entre a diretora, pressionada pelos pais e sem certeza do que realmente houve, e o professor, colocado contra a parede, arredio e incapaz de convencer ser totalmente confiável. Há ainda um segundo professor, um tanto assustado com o boato, e o pai de uma das crianças, que invade a escola fora do horário de aula para fazer perguntas e exigir providências. Os protagonistas são Helena Varvaki (de “A Outra Casa”) e Cirillo Luna (de “The Pride”), e os papéis coadjuvantes são desempenhados por Gustavo Wabner (de “Estes Fantasmas!”) e Sávio Moll (de “Esse Vazio”). Cirillo é eficiente em manter a dúvida em torno de seu personagem, com uma atuação desenhada para entregar menos do que aparenta (olha aí o princípio de novo). Varvaki, contudo, é o grande destaque da montagem, com um leque mais denso de nuances: a diretora é apresentada de uma maneira no início do espetáculo e termina de outra, pouco a pouco evidenciando suas vulnerabilidades e perturbações. A atriz desempenha essa trajetória com sensibilidade notável.

Todas as cenas se passam no vestiário dessa escola de natação: o cenário imóvel é de Cláudio Bittencourt. As mudanças de perspectiva ficam por conta do diretor. Os figurinos de Victor Guedes trazem uma dramaturgia própria: o professor começa de sunga, tem cenas nu e, a medida que o cerco se fecha ao seu redor, se veste até de casaco. Quase uma tentativa de aparentar ser mais íntegro e ilibado. A iluminação de Walace Furtado marca os cortes no tempo: na sessão assistida, a operação pareceu precoce em alguns momentos.

O espetáculo levanta importantes reflexões. Que mundo se quer para os filhos? Qual o equilíbrio entre não colocar os filhos em risco e não condenar uma pessoa sem provas? O que tem mais peso: a verdade ou o que se dissemina como verdade publicamente? Tem diferença? Existe confiança indiscutível em alguém quando o assunto é abuso contra menor? Na peça, a situação se agrava por conta de um grupo no Facebook, no qual os pais interagem. É no ambiente virtual que o boato se prolifera e alarma as famílias. Faz lembrar tantas notícias – fakes ou infundadas – que viralizam nas redes sociais irresponsavelmente. O terror isenta de culpa quem “está apenas preocupado”. Não se pode esquecer que, aqui mesmo no Brasil, os donos de uma escola paulista foram tratados como abusadores pela mídia e pela sociedade até que se provou que a as acusações não procediam. Mas a vida deles já estava destruída. É o famoso “Caso Escola Base”. Vale um Google também. Na peça, o espectador tem, mais uma vez, a chance de fazer um julgamento: é a palavra do professor contra a de uma criança, que não vemos nem ouvimos diretamente. Dilema interessante.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Daniel Dias da Silva)

Ficha Técnica
Autor: Josep Maria Miró
Tradução e Direção: Daniel Dias da Silva
Um espetáculo da Lunática Companhia de Teatro e da Territórios Produções Artísticas Ltda.
Elenco: Helena Varvaki (atriz convidada), Cirillo Luna, Gustavo Wabner e Sávio Moll
Cenografia: Cláudio Bittencourt
Figurinos: Victor Guedes
Iluminação: Walace Furtado
Preparação Corporal: Sueli Guerra
Design gráfico: Gamba Junior
Assistente de Figurino: Camila Scorcelli
Assistente de Iluminação: Vilmar Olos
Cenotécnico: André Salles
Fotos e imagens: Zero8Onze (Aguinaldo Flor / Fernando Cunha Jr.)
Assessoria de Imprensa: Mônica Riani
Estagiário de Direção e Produção: Daniel Mello
Produção Executiva: Leticia Reis
Direção de Produção: Daniel Dias da Silva e Gustavo Falcão
Realização: Sesc

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SERVIÇO: sex a dom, 20h. R$ 25. 80 min. Classificação: 16 anos. Até 1º de outubro. Sesc Tijuca – Rua Barão de Mesquita, 539 – Tijuca. Tel: 3238-2139.