Lembrado até hoje, “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”, o filme americano de 1962, por vezes é ofuscado por suas próprias histórias de bastidores. O longa-metragem, vencedor do Oscar de melhor figurino, colocou duas das maiores rivais de Hollywood juntas em cena pela primeira vez na carreira: Bette Davis (1908-1989) e Joan Crawford (1904-1977). Imagine administrar esse set! Entre verdadeiros bafões e boa quantidade de mitos, o filme soube tirar proveito da rixa entre as protagonistas: a trama, escrita por Henry Farrell (1920-2006), acompanha justamente duas atrizes, irmãs, que guardam mágoas, ressentimentos e segredos de uma vida marcada por competições e egos feridos. Quase Bette e Joan, se fossem irmãs de verdade. Mas as personagens são Baby Jane e Blanche Hudson, e isso que é resgatado na adaptação teatral da história. Escrita pelo próprio roteirista, a peça está em cartaz no Theatro Net Rio, em Copacabana, com Eva Wilma (de “Azul Resplendor”) e Nathalia Timberg (de “33 Variações”) nos papéis principais. Sem histórico de competição entre si, as atrizes colaboram para que a dramaturgia fique em primeiro plano, livre de qualquer fofoquinha. Primeira montagem do mundo, a brasileira faz jus a uma trama parcialmente engolida por questões secundárias no século passado.

(Foto: Leo Ladeira)

Com tradução de Claudio Botelho e direção e adaptação de Charles Möeller (mesma dupla de “Cinderela” e “Kiss Me, Kate”), o espetáculo se passa na velhice das irmãs, obrigadas a conviverem por co-dependência. Baby Jane foi uma estrela mirim do teatro de vaudeville, que detinha a atenção de todos, inclusive do pai, na infância. Quando cresceram, no entanto, quem despontou como um grande nome de Hollywood foi Blanche ofuscando a irmã, que viu sua carreira degringolar e desenvolveu vício por álcool. O duelo de vaidades e afetos gera inúmeras brigas, até que um acidente de carro marca a vida de ambas pelo resto da vida, e deixa Blanche em cadeira de rodas. Com movimentos limitados, ela necessita dos cuidados de Baby Jane – que, por sua vez, precisa do dinheiro dela para sobreviver. Presas em um vínculo destrutivo, elas dividem uma mansão, onde a peça se desenrola, marcada por memórias da infância e juventude das duas. Baby Jane e Blanche são interpretadas por Sophia Valvede/Alessandra Martins e Duda Matte/Ágatha Félix quando meninas e por Juliana Rolim (de “O Capote”) e Karen Junqueira (de “Nine – Um Musical Felliniano”) quando adultas.

O espetáculo conta com um cenário com parafernália móvel, assinado por Rogério Falcão, simulando dois andares da casa lado a lado. Integrada à cenografia, o desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros preserva a teatralidade com ares cinematográficos, assim como a trilha sonora. A montagem teatral tem vida própria, mas flerta com sua origem no cinema, o que é interessante porque o duelo entre as irmãs também representa a disputa entre o teatro e a ascensão do cinema falado. A direção de Charles Möeller capta esse aspecto em minúcias, com destaque para a realização das cenas de flashbacks. Os figurinos de Carol Lobato e o visagismo de Beto Caramanhos colaboram para o contraste e as correlações entre realidade e ficção que marca a vida das artistas.

“O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” é um espetáculo para duas personagens, mais do que para duas atrizes. Todos os secundários aparecem para sublinhar ainda mais o isolamento das irmãs. A rixa entre as duas, que de início aponta ares cômicos, pouco a pouco trilha caminhos mais densos, e o público se entende diante de um grande drama. A coletânea de contrastes da peça coloca Blanche com a carga mais dramática e Baby Jane com um toque de humor perverso, que não tarda a virar horror. A atuação de Eva Wilma é exata na profundidade da personagem. Nathalia Timberg, por sua vez, encara o desafio de fazer teatro presa a uma cadeira de rodas e o resultado é comovente. O encontro cênico dessas duas atrizes de primeiro escalão nacional torna-se imperdível.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Leo Ladeira)

Ficha Técnica:
Um espetáculo de Charles Möeller & Claudio Botelho.
Com Eva Wilma, Nathalia Timberg, Paulo Goulart Filho, Teca Pereira, Nedira Campos, Juliana Rolim, Karen Junqueira e as crianças Sophia Valverde, Duda Matte, Alessandra Martins e Ágatha Félix.
Autor: Henry Farrell.
Adaptação: Charles Möeller.
Tradução: Claudio Botelho.
Direção: Charles Möeller.
Cenografia: Rogério Falcão.
Figurinos: Carol Lobato.
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros.
Visagismo: Beto Carramanhos.
Design de som: Ademir Moraes Jr.
Coordenação Artística: Tina Salles.
Realização: Brain+

_____
SERVIÇO: qui, 18h; sex e sáb, 21h; dom, 18h. R$ 50 (balcão com visão parcial) até R$ 150 (plateia e frisas). 70 min. Classificação: 14 anos. De 21 de abril até 25 de junho. Theatro Net Rio – Rua Siqueira Campos, 143 – Copacabana. Tel: 2147-8060.