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Após “As Conchambranças de Quaderna” (de Ariano Suassuna), “Os Mamutes” (de Jô Bilac), “Nem Mesmo Todo o Oceano” (de Alcione Araújo) e “Infâncias, Tiros e Plumas” (de Jô Bilac), a Cia. OmondÉ aposta em uma criação coletiva para a dramaturgia de sua quinta montagem, “Os Inadequados”, estreada sem patrocínio, contando com uma vaquinha coletiva, em tempos de crise financeira. O espetáculo mescla poemas de Thiago Mello, Calderón de la Barca e Wislawa Szymborska à interpretação de reclamações diversas registradas em cartas de condomínio. O tema principal é a intolerância, por vezes esbarrando em visões de mundo deturpadas, egocêntricas e egoístas.

(Foto: Elisa Mendes)
(Foto: Elisa Mendes)

Tratar de intolerância não poderia ser mais atual. É o assunto em voga no cenário político internacional, com massacres e atentados terroristas, e também no nacional, com pessoas desfazendo amizade por opiniões contrárias desde as últimas eleições presidenciais. Sem esbarrar no dualismo de coxinhas vs. petralhas, “Os Inadequados” aprofunda em questões micropolíticas de prédios e condôminos. São brigas por vagas na garagem, música alta, sapato alto no andar de cima, lixo, sexo barulhento, preconceito, elitismo, enfim, uma completa desarmonia – e, acima de tudo, inflexibilidade e desinteresse em fazer concessões.

O espetáculo não se baseia na estrutura linear de dramaturgia com início, meio e fim. São fragmentos. Oito atores dão vida a cartas de reclamações, inspiradas nos livros reais de seus condomínios, sem relação umas com as outras. Cada carta, um ator, uma nova história. A ideia, muito interessante a princípio, se desgasta rapidamente com a repetição incessante, apesar da ótima direção de movimento da montagem. Os três poemas, que poderiam servir como quebras para novo fôlego, não se diferenciam da encenação das reclamações, então não contribuem nesse sentido. Chega um momento em que o espetáculo já está cansativo e o lado cômico não é suficientemente potente para evitar que o espectador comece a se mexer na poltrona.

“Os Inadequados” não transcende a interpretação de cartas, por mais evidente que seja o esforço de imprimir teatralidade da direção de Inez Viana. Como não há cenário, além dos holofotes em cena; os figurinos são sóbrios e modestos; e a iluminação não vai além do básico; toda a responsabilidade decai sobre o elenco. Os atores são todos muito comprometidos com o ideal do projeto e defendem o trabalho do início ao fim. Há uma parte em que convidam os espectadores a subirem no palco e fazerem suas próprias reclamações: na sessão assistida, ninguém subiu. Apesar da decepção, simulada ou não, os atores não perderam o rebolado. O problema não é eles, é a concepção. O púlpito, fisicamente ausente no palco, mas ideologicamente presente, entendia depois de meia dúzia de histórias. Nem o síndico aguenta ler tanta reclamação de uma vez, afinal.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Elisa Mendes)
(Foto: Elisa Mendes)

Ficha técnica
Texto: Cia OmondÉ
Direção: Inez Viana
Direção de Produção: Claudia Marques
Elenco: Cia OmondÉ – Iano Salomão, Jefferson Schroeder, Juliane Bodini, Junior Dantas, Leonardo Bricio, Luis Antonio Fortes, Marta Paret e Zé Wendell (stand in: Helder Agostini)
Iluminação: Ana Luzia Molinari de Simoni
Cenário, figurino e direção musical: Cia OmondÉ
Colaboração dramatúrgica: Helder Agostini
Colaboração coreográfica: Dani Amorim
Programação visual: Daniel de Jesus
Assessoria de imprensa: Ney Motta
Fotos de Divulgação: Elisa Mendes
Assistentes de direção: Helder Agostini e Lucas Lacerda
Assistente de produção: Thamires Trianon
Produção executiva: Jéssica Santiago
Realização: Fábrica de Eventos e Eu+Ela

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SERVIÇO: sáb e seg, 20h30; dom, 19h30. R$ 30. 70 min. Classificação: 14 anos. Até 27 de junho. Teatro Ipanema – Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema. Tel: 3594-2690.