O espetáculo “Ouroboros”, escrito e dirigido por Adriano Garib (de “Sexta 31”), começa quando a protagonista feminina diz ao seu companheiro que está apaixonada por outro homem e “precisa viver isso”. A maneira como ela comunica, como ele reage e como a cena se desenrola indica um distanciamento claro do senso comum, do esperado, mas oculta informações que a plateia só terá acesso mais adiante. É um ponto de partida cheio de potencial, capaz de despertar interesse e curiosidade, mas os próximos 90 minutos de peça são decepcionantes.

(Foto: Adriano Garib)

O desenvolvimento do texto entedia ao se perder em círculos. Manoel Madeira (de “Ludwig/2”), o protagonista masculino, apresenta um ótimo trabalho com seu personagem misterioso e angustiado, mas a dramaturgia não lhe é favorável. O personagem não avança e a plateia, ignorante de suas verdadeiras causas, não tem empatia. Anita Mafra (de “Antes e Depois”), a mulher, está apática e o que se vê de sua personagem é confuso. Em menores mas boas contribuições, estão os atores Guilherme Duarte (de “Antes e Depois”), que faz “o outro”, e Luciana Pacheco (de “Palavra de Mulher”), dividindo-se em vários personagens, todos muito parecidos.

Adriano Garib ambienta grande parte da trama na sala da casa desse casal principal – cenário rico assinado por ele mesmo e René Salazar. A plateia, dividida em duas arquibancadas, forma um corredor por onde acontece a encenação – opção que, dependendo de onde se sente, prejudica parcialmente a visão de algumas cenas. Há vários excessos que, apesar de belos, não agregam à história: são os casos da vasta trilha sonora (também de Garib, com canções originais de Felipe Storino), que protagoniza longos momentos ocos da montagem, e as coreografias despropositais. Pontos positivos são a iluminação criativa e surpreendente de Rodrigo Belay e os figurinos de Desirée Bastos, que pouco a pouco revelam a natureza dos personagens e as tatuagens de ouroboros – símbolo que representa a eternidade.

Esse é um ponto crucial da peça. O ouroboros do título é explorado em uma alegoria criada pelo dramaturgo, que só é explicitada na reta final da trama: chega tarde e torna-se risível, intimidando a reflexão proposta pelo autor e sugerida no material de divulgação. A partir daí, não se sabe se o que se vê é trash intencional ou ocasionalmente. Mas é, e muito. É como assistir a “Os Mutantes”: um novelão ruim.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Reprodução)

Ficha técnica
Dramaturgia e direção: Adriano Garib
Elenco: Anita Mafra, Manoel Madeira, Guilherme Duarte e Luciana Pacheco
Cenografia: Renê Salazar e Adriano Garib
Figurinos e acessórios: Desirée Bastos
Desenho de luz: Rodrigo Belay
Música original, áudios, ruidagens e efeitos sonoros: Felipe Storino
Trilha sonora: Adriano Garib
Preparação corporal e direção de movimento: Toni Rodrigues
Assistência de direção e operação de som: João Santucci
Assistência de figurino: Bruna Falcão
Assistência de iluminação e operação de luz: Cris Ferreira
Assistência de cenografia: Rafael Carvalho
Cenotécnica: João Wagner de Souza
Fotografia: João Santucci e Adriano Garib
Designer gráfico: Pedro Bittencourt
Produção executiva: Dani Carvalho
Criação e Produção: Adriano Garib, Anita Mafra e Manoel Madeira
Realização: Arte Chama Cia de Teatro

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SERVIÇO: sex a seg, 20h. R$ 30. 90 min. Classificação: 16 anos. Até 27 de março. Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto – Rua Humaitá, 163 – Humaitá. Tel: 2535-3846.