Três anos após o musical infantil “Mania de Explicação”, os autores Adriana Falcão e Luiz Estellita Lins repetem a parceria, desta vez em uma peça inédita de temática religiosa, “Pai”. Ela acompanha os conflitos internos de Jesus Cristo em sua última hora de vida, quando sabe que será traído por Judas, assassinado e crucificado. Indignado por Deus lhe cobrar a vida aos 33 anos, após ter feito absolutamente tudo certo, o personagem é confrontado com a possibilidade de fugir de seu próprio destino, em diálogos reais, delirantes ou fantasiosos com o demônio, Maria Madalena e Teresinha de Jesus, por exemplo.

(Foto: Nil Caniné)

Quando o espectador entra no teatro, já se depara com o ator Ivan Mendes (de “Caixa de Phosphorus'”) em cena. Não há dúvidas de que se trata de Jesus Cristo – o figurino assinado por Ronald Teixeira e Guilherme Reis comunica com clareza – mas ele está tocando Beatles e tocando violão. É a primeira provocação da montagem, dirigida por Cássia Villasbôas. Quem tem um mínimo de intimidade com a Bíblia reconhece as referências e as superações da dramaturgia. Há uma inegável aura de religiosidade, mas a peça inclina a história conhecida para o ponto crucial de que o protagonista será morto apenas por ter pregado o amor. Não muito diferente dos dias atuais, quando tantos de nós são assassinados em tentativas de usurpar o direito de amar.

Ivan contracena com Daniela Carmona (de “Larvárias”), que se divide entre vários papéis, com trocas de figurinos e aderereços (de Maria Adélia) no palco. Aqui, há um problema: as pomposas e grandiosas caracterizações da atriz a atrapalham em cena diversas vezes. É uma bota que ela não consegue tirar, uma roupa que tem dificuldade para desamarrar, uma unha postiça que cai… Parece urgente rever essa parte para que seja funcional para Daniela. A atriz consegue contornar essas questões, mas o público fica aflito acompanhando os erros. Em termos de atuação, ela e Ivan estão convincentes.

A concepção de Villasbôas conta com o belo cenário de Ronald Teixeira e Guilherme Reis, com flores de arame farpado, a meia luz de Renato Machado, com momentos criativos, e a inquietante sonoplastia de Renato Ollé. Não escapa de alguns clichês de marcações de quem monta no teatro de arena do Sesc Copacabana, mas nada grave. Esteticamente, o resultado é elogiável.

O grande problema de “Pai”, a meu ver, é a comunicação com a mídia e o público. O espetáculo é embalado e vendido como a história “de um louco que acredita que é Jesus Cristo em sua última hora de vida”. Foi o argumento, no caso, que me atraiu. Durante a encenação, porém, não há nada que indique se tratar de um louco: ele se veste como Jesus, vive as passagens de Jesus, interage com personagens do entorno de Jesus… O que há de não-Jesus, então? Pode ter me escapado, mas não percebi. Se for óbvio, desculpe-me o equívoco. Pareceu-me mais justo e coerente divulgar o espetáculo como uma reflexão contemporânea dos momentos finais do personagem bíblico. Vai direto no público certo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Nil Caniné)

Ficha técnica
Texto – Adriana Falcão & Luiz Estellita Lins
Elenco – Ivan Mendes e Daniela Carmona
Direção – Cássia Villasbôas
Direção de Movimento – Raquel Karro
Direção de Arte – Ronald Teixeira
Iluminação – Renato Machado
Cenografia e Figurinos – Ronald Teixeira e Guilherme Reis
Adereços e Objetos de Cena – Maria Adélia
Confecção de Figurinos: Guilherme Reis
Preparação Vocal – Silvana Stein
Preparação Vocal “Help” – Julie Wein
Sonoplastia – Renato Ollé
Engenharia de Som – Cláudio Fonseca & OPSOM
Fotos – Nil Caniné
Designer Gráfico – Quarto 315 / Studio Criativo
Cinegrafista Making Of – Fernando Deslandes
Assistente Making Of – Irwin Fiuza
Opeador de Luz – Kelson Santos
Operador de Som – Gabriel Leporage
Diretor de Palco – Ricardo Silva
Direção de Produção – Cássia Villasbôas
Produção Executiva – Mayara Maia
Assessoria Jurídica – Jonas Vilasbôas
Assessoria de Imprensa – Luiz Menna Barreto
Realização – NOVE PRODUÇÕES Culturais

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SERVIÇO: sex e sáb, 20h30; dom, 19h. R$ 25 (ou R$ 6 para associados Sesc). 70 min. Classificação: 12 anos. Até 3 de setembro. Sesc Copacabana – Teatro de Arena – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.