Está cada vez mais difícil encher as salas de teatro. Pense, então, na situação de uma peça sobre suicídio – tema que afugenta tanta gente. É o caso de “Por Que os Prédios Caem?”, texto de Gustavo Rocha, apresentado recentemente em duas sessões no Festival Midrash de Teatro. Faz parte do repertório da Cia. Teatro de Demolição. A peça acompanha os pensamentos de um homem em queda livre de um prédio de 50 andares. O que o levou a se matar? O que se passa na cabeça de uma pessoa prestes a impactar o chão? Mórbido, certamente, mas também interessante.

Em cena, o próprio Gustavo Rocha divide espaço com Mônica Bittencourt (de “Anônimas”) ao longo de 70 minutos. Na primeira parte do espetáculo, ele ocupa o centro como o protagonista suicida, contextualizando o que se passa e apresentando as primeiras memórias do personagem. Enquanto isso, Mônica, sempre em cena, é vista ao lado, de frente para um espelho, maquiando-se, de costas para o público. De vez em quando, ela fala: “essa é a história de um homem que cai de um prédio de 50 andares. Enquanto ele cai, repete para se acalmar: ‘até aqui, está tudo bem'”. É em um segundo momento que ela ganha maior relevância, como uma stripper que o suicida conheceu em uma espelunca qualquer, se envolveu e estabeleceu algum tipo de relação, que acabou por influenciá-lo ou motivá-lo em sua decisão final. O texto fala de escolhas, fracassos e acasos decisivos (sinais?). A dramaturgia é um dos pontos altos desse trabalho – pela coragem do tema, o formato e a abordagem.

A maioria dos problemas é da ordem de direção. Mônica estar em cena desde o início da encenação, por exemplo, desvia a atenção do espectador enquanto o protagonista monologa. Quando a participação de sua personagem termina e ela continua ali, parece gratuito também. Fora isso, os dois atores apresentam atuações satisfatórias, mas com alguns tropeços, como afobação para dar o texto, por duas vezes quase se atropelando, e pouca destreza para manuseio de objetos da cenografia. São detalhes que não comprometem o todo, mas são notados.

O cenário é composto essencialmente por pilhas de tijolos que, ao longo da apresentação, são empilhados em analogia a um prédio em construção. É uma escolha sábia para ocupação de salas pequenas, como é o caso. Tem efeito estético, significância e funcionalidade. Os figurinos, também, contribuem ativamente para as cenas, em suma no caso da atriz. A iluminação, por sua vez, limita-se ao básico, com pouca criatividade, diferentemente da trilha sonora do espetáculo, que engrandece as cenas e contribui para a eficiência da mensagem para a plateia. Com tudo isso, “Por Que os Prédios Caem?” tem resultado satisfatório e torna-se relevante na temática do suicídio, ainda um tabu.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Flavio Dantas)

Ficha técnica
Direção, concepção e roteiro: Gustavo Rocha
Elenco: Gustavo Rocha e Mônica Bittencourt
Assistente de direção: Giselle Ribeiro
Ilustração: Keith Negley
Design Gráfico: Natália Del Nery
Direção de Produção: Joana D’Aguiar
Realização: Cia Teatro de Demolição e Sopro Escritório de Cultura