Fundada por Antônio Abujamra (1932-2015), a Cia. Os Fodidos Privilegiados segue em atividade no Rio de Janeiro, sob direção de João Fonseca (de “Desesperados”), e apresenta seu novo espetáculo – “Pressa”. Como o título indica, urgência é o tema da peça, inédita, escrita por Otávio Martins (de “Caros Ouvintes”) e apresentada por 11 atores de diferentes gerações no palco. Com um quê rodrigueana, a dramaturgia mexe com sexo, religião, prostituição, aborto, homossexualidade e HIV, no geral, para expressar a hipocrisia de cada personagem ou âmbito social.

(Foto: Divulgação)

O texto acompanha diferentes histórias que se entrelaçam a partir de vínculos familiares, empregatícios, afetivos ou casuais. São personagens-tipo, como “esposa aflita”, “garota grávida”, “irmão doente” e “marido calmo”, em diferentes situações de pressa para resolverem problemas mais ou menos graves. Por exemplo, um garoto que passa a fazer programas com outros caras para conseguir pagar o aborto da ficante que engravidou; uma mulher nervosa que busca na igreja evangélica a salvação de seus problemas; uma irmã desesperada para conseguir tratamento médico para o irmão; um marido que se envolve em situações graves para ocultar uma traição, e por aí vai… A peça fisga o espectador pela expectativa do desfecho da trama de cada personagem, diverte pelo humor negro e incomoda pela proposital crueza do tratamento dos temas densos.

Há alguns percalços também. A maneira como o HIV é tratado, em específico, na boca de uma personagem ignorante, sem nenhum contraponto contundente, faz pensar que a peça se passa nos idos dos anos 1980, o que não é o caso. Uso de celulares e menções a sites ambientam a história na atualidade – o que é reforçado pela direção de João Fonseca e Nello Marreze, que colocam até “Sua Cara” de Anitta e Pabllo Vittar para tocar em uma cena: não poderia haver um sucesso pop mais recente. Com isso, chama a atenção que alguém fale de HIV como uma sentença de morte hoje em dia. Pesquisas mostram que, justamente ao contrário, por conta da sabida longevidade propiciada pelo coquetel antirretroviral, o vírus se dissemina cada vez mais entre os jovens. Houve uma banalização – o que não é o mesmo que dizer que HIV é como diabate. Enfim… o tema aparece de maneira irresponsável.

Na sessão assistida, o elenco era composto por Isley Clare (de “Édio Unplugged”), Diogo Camargos (de “Édipo Unplugged”), Daniel Rangel (de “Buscado”), Mariah Viamonte (de “A Árvore Que Fugiu do Quintal”), Alexandre Pinheiro (de “Dorotéia”), Paula Sandroni (de “Édipo Unplugged”), Roberto Lobo (de “Rain Man”), Rose Abdallah (de “Menopausa”), Saulo Segreto (de “Bilac Vê Estrelas”), André Dias (de “Bilac Vê Estrelas”) e Thaïs Portinho (de “Fish & Chips”). A entrada de atores convidados não compromete a unidade característica de uma companhia teatral. É um trabalho bem nivelado e o interessante é que quase todos são protagonistas, o que é raro de se ver.

A direção aposta em um cenário único (do próprio Nello), inespecífico e conceitual, e os diversos ambientes da peça são construídos imaginariamente a partir de marcações precisas da luz de Luis Paulo Nenen e Tiago Mantovani e da movimentação dos atores. Não carece qualquer cenografia a mais. A trilha (de João) completa a construção cênica. Os figurinos, assinados por Victor Guedes, sugerem temperamentos e, como o texto, parecem datados em alguns casos. Pormenores a parte, é espetáculo interessante pela engenhosidade do entrelaçamento das tramas e por não poupar assuntos indigestos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Carlos Alberto Teixeira Costa)

Ficha Técnica
Autor: Otávio Martins
Direção: João Fonseca e Nello Marrese
Elenco: Filomena Mancuzo / Isley Clare, Diogo Camargos, Daniel Rangel, Mariah Viamonte, Alexandre Pinheiro, Paula Sandroni, Roberto Lobo, Rafaela Amado / Rose Abdallah, Saulo Segreto, André Dias / João Fonseca.
Participação especial: Thaïs Portinho
Direção de movimento: Johayne Hildefonso
Cenário: Nello Marrese
Figurino: Victor Guedes
Iluminação: Luiz Paulo Nenen e Tiago Mantovani
Trilha sonora: João Fonseca
Identidade visual: Inova Brand, Mauricio Tavares e Sérgio Lopes
Visagismo: Gahbie Figueira
Fotos de divulgação: Luiz Paulo Nenen
Divulgação e mídias: Mancuzo Entretenimento e Inova Brand
Direção de produção: Filomena Mancuzo
Realização: Cia. Os Fodidos Privilegiados
Assistente de direção: Pedro Pedruzzi
Assistente de cenário: Maria Sthefania
Assistente de figurino: Camila Scorcelli
Assistente de produção e administração: Michele Spindola
Administração: Mancuzo Entretenimento
Apoio: Marcela Rosario
Operador de som: Pedro Pedruzzi
Operador de luz: Ronaldo Borges
Contrarregra: Nivaldo Vieira

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SERVIÇO: sex a dom, 20h. R$ 25 (ou R$% 6 para associados Sesc). Classificação: 16 anos. Até 2 de setembro. Sesc Tijuca – Rua Barão de Mesquita, 539 – Tijuca. Tel: 3238-2139.