Publicada há exatos 80 anos, a obra “Ratos e Homens”, do escritor americano John Steinbeck (1902-1968), ainda prova-se potente e reverbera. Adaptada para teatro, cinema e televisão diversas vezes, em países variados, ela pode ser vista atualmente no palco do CCBB, em uma montagem teatral intitulada “Sobre Ratos e Homens”, que já se consolidou nas premiações paulistas. A direção é de Kiko Marques (de “Sínthia”), que cumpre também a missão de celebrar os 60 anos de outra montagem brasileira, assinada pelo ícone Augusto Boal (1931-2009). O interesse pelo livro, no entanto, não é exclusivamente nacional: há três anos, a Broadway também ganhou uma nova montagem teatral: James Franco e Chris O’Dowd deram vida aos protagonistas no espetáculo, indicado a dois Tonys.

(Foto: Luciano Alves)

Por aqui, cabe a Ricardo Monastero (de “Otelo”) e Ando Camargo (de “O Soldadinho e a Bailarina”) a missão de interpretarem os amigos George e Lennie, que começam a história fugindo porque Lennie está para ser linchado por ter agarrado o vestido de uma moça. Ele tem retardo mental, esquecimentos constantes e ingenuidade infantil. A trama se passa no ambiente rural norte-americano, durante a Grande Depressão, grave crise econômica que durou mais de dez anos a partir de 1929 e assolou o sonho norte-americano de sucesso e prosperidade. Fugindo, George e Lennie buscam emprego em uma nova fazenda, enquanto idealizam um futuro onde terão uma porção de terra para criar coelhos e fazer agricultura. Mas Lennie, sem querer, não tarda a se envolver em problemas, por não ter controle da própria força.

A peça se passa majoritariamente nesta nova fazenda, mais precisamente no alojamento dos empregados – cenário realista e potente de teatralidade assinado por Marcio Vinicius. Entre patrões e trabalhadores, só há homens. A única figura feminina é a esposa do filho do fazendeiro, responsável por desestabilizar o local e sublinhar para o público muito sobre o que trata a dramaturgia: exclusão, solidão, necessidade de uma companhia, preconceitos, frustrações, desvio dos sonhos e falta de humanidade em uma situação de miséria – econômica e emocional. O papel é de Natallia Rodrigues (de “Jogo Aberto”), atriz que vem em um crescente de bons trabalhos no teatro. O contraste de gênero é realçado pelos figurinos de Fabio Namatame: só Natallia veste algo que foge à cor bege dos demais. Completam o elenco, Tom Nunes (de “Agora”), Cássio Inácio Bignardi (de “Querida Helena”), Roberto Borenstein (de “Cais Ou da Indiferença das Embarcações”), Pedro Paulo Eva (de “O Beijo no Asfalto”) e Thiago Freitas (de “Uma Trilha Para Sua História”): todos muito envolvidos com a crueza e profundidade da obra. Nesta peça, não existem bons e maus, todos têm entretons, de modo que o público possa compreender a situação de cada um.

A dupla formada por Ricardo e Ando esbanja química e compreensão mútua um do outro como ator. É fácil para a plateia ter empatia com os protagonistas, em especial Lennie, que traz humor para a densidade dos temas tratados, graças à sua infantilidade, vivida com exatidão por Ando. “Sobre Ratos e Homens” depende muito dessa dupla: se ela não funcionar, o espetáculo não acontece. A trilha sonora de Martin Eikmeier e a iluminação de Guilherme Bonfanti também colaboram.

“Sobre Ratos e Homens” é um espetáculo de alto nível. A ação termina, mas o cérebro ainda borbulha ao sair do teatro. A dramaturgia não se encerra em si mesma. São as conexões e observações do público que dão o valor final, dentro de cada um. Na sessão assistida, espectadores discutiram quando as luzes se acenderam devido à presença de um menino na plateia, abaixo da classificação etária. Uma mulher recriminou o pai da criança por levá-la para ver um espetáculo com linguagem ofensiva, referências vulgares e, no geral, temas adultos. Historicamente, “Ratos e Homens” viveu polêmica similar nos Estados Unidos e foi banido de bibliotecas públicas e do currículo escolar em várias cidades pelas mesmas razões e “profanação”. Repte-se: a obra se mantém potente e reverbera.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Luciano Alves)

Ficha técnica
Texto: John Steinbeck
Produção: Dendileão Produções Artísticas
Direção Artística: Kiko Marques
Tradução: Ricardo Monastero
Elenco: Ricardo Monastero, Ando Camargo, Natallia Rodrigues, Tom Nunes, Cássio Inácio Bignardi, Roberto Borenstein, Pedro Paulo Eva e Thiago Freitas.
Cenografia: Marcio Vinicius
Figurinos: Fabio Namatame
Trilha Sonora: Martin Eikmeier
Iluminação: Guilherme Bonfanti
Visagismo: Raphael Cardoso
Maquiadora: Chloé Gaya
Contra Regra: Sidney Felippe
Técnica de Som: Carol Andrade
Técnica de Luz: Kuka Batista
Comunicação Visual: Cristiano Canguçu
Fotos: Luciano Alves
Gestão de projeto e Sustentabilidade: Celso Monastero
Coordenadora Administrativa: Sonia Odila
Assessoria Jurídica: Francez e Alonso Advogados Associados
Direção de Produção: Antonio Ranieri

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SERVIÇO: qua a dom, 19h. R$ 20. 100 min. Classificação: 10 anos. Até 30 de abril. Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.