A montagem brasileira do original britânico “The Pride”, dirigida por Victor Garcia Peralta (de “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?”) a partir da adaptação de Ricardo Ventura, é mais uma para a carreira da peça, estreada originalmente em 2008 em Londres. O texto é do grego Alexi Kaye Campbell, que venceu alguns prêmios com esse trabalho. “The Pride” (o título em inglês foi mantido) aponta avanços e desacertos quanto ao entendimento de sexualidade em um espaço de 50 anos. A peça acompanha duas histórias paralelamente: gays reprimidos em 1958, quando a homossexualidade ainda era considerada criminosa e patológica, e gays confusos quanto à liberdade sexual inserida em uma cultura heteronormativa monogâmica em 2008.

(Foto: Divulgação)

Terminada a sessão, saí do teatro com a mesma sensação que me acompanhou durante toda a apresentação do espetáculo: “e aí?”. A representatividade de personagens e temáticas LGBTQ é sempre importante, mas tive a impressão de que “The Pride” não traz nada novo, o que é uma pena. As questões que o texto pretende desvelar não superam o senso comum, até mesmo nas situações criadas. Por fim, concluí que é uma peça gay para o público hetero: básica, didática, compreensível. Há uma parte do espetáculo em que o personagem contemporâneo, um jornalista, é convidado para escrever sobre “sexo gay” para os leitores de uma revista masculina. É mais ou menos isso. Só o fato de “masculino” ser entendido como heterossexual já denota um atraso na discussão. Talvez, de 2008 para 2017, o ocidente tenha aprofundado na consciência desses tópicos, de modo que essa ficção já me pareça irrelevante.

Dito isto, foco na montagem brasileira: a concepção cênica de Victor Garcia Peralta não oculta o baixo orçamento, ainda que o supere com a atuação do elenco. A cenografia de Dina Salem Levy limita-se a uma estrutura central no palco, usada para marcar o tempo na história, como ponteiros de relógio que indicam 50 anos para trás ou para frente. A iluminação de Tomás Ribas não traz grandes variações. São os figurinos de Carol Lobato, passíveis de trocas incrivelmente rápidas, que contribuem determinantemente para a composição das cenas – e não só dos personagens. Há ainda uma trilha sonora sobressalente, assinada por Isadora Medella, com gravações de protestos contra Michel Temer, forçando a plateia a tentar encontrar alguma ligação com o que se vê.

O elenco é formado por quatro atores, Arthur Brandão (de “Cyrano de Bergerac”), Cirillo Luna (de “Paralelamente”), Lisa Eiras (de “Alice Através do Espelho”) e Michel Blois (de “Relações Aparentes”), que se alternam em dois ou mais personagens. É Michel que tem o maior destaque tanto na história do século XX quanto na do século XXI, com atuação competente. Arthur Brandão, na pele de um homem que se submete a tratamento médico para “cura gay” em 1958, detém as cenas mais duras e determinantes, com trabalho envolvente. Cirilo passeia por vários personagens menores, com desenvoltura. Lisa Eiras, por sua vez, apresenta perspicácia para interpretar duas personagens tão diferentes quanto parecidas no salto de 50 anos. É uma atriz para se prestar atenção, já há algum tempo.

“The Pride” é bem intencionado e pode dialogar com parcela do público, mas é superficial para os dias atuais. O texto de Alexi pede por atualização, ou algo se perdeu na tradução e adaptação. Acredito que o impacto de assistir à peça em 2008 seja muito diferente de assisti-la em 2017, olhando para 2008. Também tem sua importância, mas é outra experiência. Menos potente.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)

Ficha Técnica:
Texto: Alexi Kaye Campbell
Tradução e adaptação: Ricardo Ventura
Direção: Victor Garcia Peralta
Elenco: Arthur Brandão, Cirillo Luna, Lisa Eiras e Michel Blois
Cenografia: Dina Salem Levy
Figurino: Carol Lobato
Iluminação: Tomás Ribas
Trilha Sonora: Isadora Medella
Videografismo: Victor Leobons
Designer gráfico: Marcelo Mendonça
Produção: Arthur Brandão e Mariana Machado
Idealização: C.I.C. – Clube de Investigação Cênica
Realização: A Távola Produções

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SERVIÇO: qua e qui, 20h. R$ 30. 100 min. Classificação: 16 anos. Até 11 de maio. Teatro Ipanema – Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema. Tel: 2267-3750.