Marco Nanini comemora 50 anos de carreira em plena atividade. Depois do sucesso de seu último trabalho, “Beije Minha Lápide”, que lhe rendeu o Prêmio APTR, o ator apresenta ao público “Ubu Rei”, ícone do teatro moderno, de autoria do francês Alfred Jarry (1873-1907). A montagem marca a colaboração do artista com a Cia. Atores de Laura, que celebra seu 25º aniversário de formação. O resultado é, no mínimo, interessante.

“Ubu Rei” bebe muito de “Macbeth”, de William Shakespeare (1564-1616). Na história, Pai Ubu é incentivado pela esposa, Mãe Ubu (Rosi Campos, de “La Mamma”), a assassinar o rei da Polônia e assumir o trono. O que diferencia as duas peças é a condução dos protagonistas a partir da usurpação do poder: enquanto Shakespeare aposta na paranoia e no tormento da culpa, Jarry cria um personagem grotesco, amoral e covarde, com tons absurdos. Quando “Ubu Rei” estreou, em 1896, foi recebido com vaias de uma plateia chocada, o que levou o espetáculo ao fracasso na França e ao cancelamento da temporada. O reconhecimento, como influência para movimentos de vanguarda, só veio mais tarde, depois da morte do autor. O anti-herói Pai Ubu tornou-se um marco na história do teatro, mas a posteriori.

A primeira fala da peça é “merda!”, o que na época quebrou com a solenidade teatral instituída: um palavrão, como assim? Hoje em dia, porém, os ouvidos já estão acostumados a tal vocabulário. Palavrões, quando não usados como artifício para o riso fácil, tendem a não chamar atenção. Do mesmo modo, as ações inescrupulosas de Pai Ubu, em diálogo com o noticiário contemporâneo, correm o risco de não causarem assombro em uma sociedade com referenciais reais tão ou mais cruéis, que levam à anestesia. Encenar esse texto no Brasil atual revela-se, portanto, um desafio, porque tudo leva a crer que as principais características da obra perderam potencial de impacto. O que resta? Sabiamente, o diretor Daniel Herz (de “O Pena Carioca”), em vez de sublinhar essas qualidades, as dilui com uma encenação cômica, carregada na desconstrução do real (que a dramaturgia já indica, mas que ele explora mais) a partir de elementos trash e lúdicos. Provavelmente, se distancia do que Alfred Jarry imaginou, mas provoca a troca das vaias por aplausos. Comunica perfeitamente com a plateia carioca de um governo em crise, com créditos para a acertada adaptação de Leandro Soares (de “A Importância de Ser Perfeito”).

A estética trash-lúdica se apresenta na cenografia de Bia Junqueira, nos figurinos de Antônio Guedes (com problemas na caracterização de um ator na primeira entrada) e na iluminação de Aurélio de Simoni desde a abertura das cortinas. Pai Ubu tem aparência de clown, e Mãe Ubu exibe uma cabeleira bizonha. A interpretação dos dois protagonistas, Marco e Rosi, também se encaminha para o lado satírico. Os absurdos da dramaturgia são digeridos facilmente com o humor. É como se o Pai Ubu de Marco Nanini soubesse que é patético. Por vezes, o espetáculo, que tem classificação etária de 14 anos, flerta com o infantil, o que diverte os espectadores. Impressões assim aparecem em todo o elenco, formado por mais nove artistas, que manuseiam bonecos, usam spray de espuma para simbolizar neve e tocam instrumentos musicais. A direção musical é de Leandro Castilho, que também está em cena.

“Ubu Rei” é muito atual e coincide diretamente com muito do que se tem vivido no panorama político brasileiro. Em vários momentos, parecem metáforas criadas especialmente para os escândalos contemporâneos. A acentuação no humor, inerente à obra pelas ironias e cinismos, é um opção não para debochar do texto, mas para provocar um amplo riso sobre nossa própria situação social. Que bom seria se Pai Ubu fosse singular e não plural.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Texto: Alfred Jarry
Direção: Daniel Herz
Elenco: Marco Nanini, Rosi Campos, Cia. Atores de Laura (Ana Paula Secco, Leandro Castilho, Marcio Fonseca, Paulo Hamilton e Verônica Reis), Cadu Libonati, João Telles, Tiago Herz e Renato Krueger.
Produzido por Fernando Libonati
Adaptação: Leandro Soares
Cenografia: Bia Junqueira
Figurinos: Antônio Guedes
Iluminação: Aurélio de Simoni
Direção Musical: Leandro Castilho
Direção de Movimento: Marcia Rubin
Design Gráfico: Gringo Cardia
Realização: Pequena Central

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 20h. R$ 50 a R$ 100 (qui e sex) ou R$ 50 a R$ 120 (sáb e dom). Classificação: 14 anos. Até 30 de abril. Teatro Oi Casa Grande – Rua Afrânio de Melo Franco 290 – Leblon. Tel: 2511-0800.