Com mais de 30 anos de carreira, Zeca Pagodinho ganhou uma homenagem em vida em um ambiente incomum para o sambista: o teatro. Poderia ser um samba-enredo, um show, um álbum tributo, uma música… mas é mesmo um espetáculo – “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba”, que cumpre temporada no Theatro Net Rio, em Copacabana. Antes da estreia do musical, o artista chegou a admitir que “não entende nada de teatro” e disse que preferiu não se intrometer, deixando tudo nas mãos “de quem entende”. Mas a verdade é que ele participa de todo o espetáculo, ora em vídeos projetados ora em áudios gravados especialmente para a montagem. Homenageado, Zeca ajuda a conduzir a própria história no palco, como um personagem.

O texto, o roteiro musical e a direção são de Gustavo Gasparani (com co-direção de Cristiano Gualda) – nome por trás de espetáculos elogiados como “Samba Futebol Clube” e “SamBra”. O diretor é conhecido pelo interesse e valorização da música brasileira. Além das experiências com samba, também concebeu “Garota de Ipanema – O Amor É Bossa”, com repetório da bossa nova, mas esse espetáculo não deu tão certo. “Zeca Pagodinho” marca seu retorno a uma sonoridade com a qual ele é familiarizado e vem sendo bem sucedido. Em cena, o próprio Gasparani dá vida ao cantor em sua fase adulta (Peter Brandão o interpreta na infância e tenra juventude) – em detrimento de um mínimo de semelhança física, permitida pela autoescalação. Ele faz um belo trabalho de canto, atuação e, o mais importante, gingado. Todas as coreografias (de Renato Vieira) são marcadas por gestos simples e cheios de swing, que é algo mais difícil de ser aprendido: ou tem ou não tem.

É notável a tentativa de “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba” para romper com a formatação típica das biografias musicais. Quando o público vai assistir a um espetáculo como esse, já sabe o que esperar. Para não cair na fórmula conhecida, Gasparani se volta para o teatro de revista – o que resulta em uma dramaturgia frágil e superficial em favorecimento de uma coletânea grande de músicas. São 45 sambas divididos em sete quadros. A busca por levar algo novo para o universo dos musicais biográficos, com o resgate de um formato antigo, esbarra no insucesso de apresentar algo interessante sobre o retratado. O espetáculo cai em lugares comuns: a origem humilde, a cerveja, a simplicidade e Xerém. Neste ponto, decepciona. Não há um aprofundamento em sua história.

A dramaturgia investe em caminhos lúdicos e criativos, um humor inocente e boa dose de metalinguagem. Tudo começa com uma cegonha que confunde a mamadeira com uma garrafa e dá bebida alcóolica para o bebê que está para nascer: Jessé Gomes da Silva Filho. Politicamente incorretíssimo. Preguiçosa, ela passa o serviço de entrega do bebê para Cosme e Damião, que funcionam como anjos da guarda do artista ao longo de toda sua caminhada. A partir daí, o espetáculo pincela um pouco da infância e adolescência de Zeca – sempre chamado de Jessé. O personagem, vez ou outra, se confronta com a voz off do próprio Zeca Pagodinho, que o atormenta com opiniões, piadas e diretrizes. São três versões que se encontram no palco: Jessé jovem, Jessé adulto e Zeca Pagodinho (na atuação do cantor nessas gravações mencionadas).

O bom elenco é formado por 11 atores-cantores e cinco instrumentistas, encabeçados por Gasparani. Fora Édio Nunes e Bruno Quixotte (ambos de “SamBra”), que são Cosme e Damião, todos os outros deixam a função de coro muito pontualmente. Ana Velloso (de “SamBra”) é a cegonha e Douglas Vergueiro (de “Andança – Beth Carvalho, o Musical”) é um caseiro alcoolatra, em contraponto à própria bebedeira do protagonista. São bons trabalhos de humor. Wladimir Pinheiro (de “Ataulfo Alves – O Bom Criolo”) tem uma boa cena de solo, em que exibe sua potência e técnica vocal. Peter Brandão, como o Jessé pequeno, imprime algum frescor entre veteranos. Seu sorriso é uma lembrança que fica.

Cenários e figurinos são alegres e coloridos. A cenografia de grande porte de Gringo Cardia traz novidades para cada quadro, entradas e saídas de parafernálias e reinvenção de elementos cênicos. Os figurinos de Marcelo Olinto invocam uma roda de samba e trabalham com cores quentes para o coro, em contraste com o branco e azul do papel protagonista. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros realça detalhes do todo. Os arranjos vocais de Maurício Detoni e a direção musical de João Callado levam as canções conhecidas para o campo da teatralidade, em união com a direção de Gasparani, sem descaracterizá-las ou inibir que a plateia bata palmas ritimadas.

Contudo, o espetáculo não supera o nicho óbvio: é para fãs de Zeca Pagodinho. Ou ainda para Zeca Pagodinho. Quem apenas busca uma boa história para assistir não vai encontrar lugar aqui: o fio narrativo é frágil e singelo. “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba” é uma celebração bem produzida desse personagem da cultura popular carioca e brasileira, mas sem força para renovar o público do cantor.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

Ficha Técnica
Texto, Roteiro Musical e Direção Geral: Gustavo Gasparani
Co-direção: Cristiano Gualda
Direção musical e arranjos: João Callado
Direção de movimento e coreografia: Renato vieira
Produção Geral:Victoria Dannemann e Sandro Chaim
Direção de Arte e Cenografia: Gringo Cardia
Figurino: Marcelo Olinto
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Design de Som: Branco Ferreira
Preparação e Arranjos Vocais: Maurício Detoni
Visagista: Beto Carramanhos
Produção de elenco: Marcela Altberg
Assistente de direção e diretor residente: Fabricio Polido
Assistente e Produtor de Cenografia: Jackson Tinoco
Assistente de Coreografia: Marluce Medeiros
Figurinista Assistente e Produtor de figurino: Almir França
Elenco: Ana Velloso, Beatriz Rabello, Bruno Quixotte, Douglas Vergueiro, Édio Nunes, Flavia Santana, Gustavo Gasparani, Lu Vieira, Milton Filho, Peter Brandão, Psé Diminuta, Ricardo Souzedo e Wladimir Pinheiro
Músicos: Glauber Seixas, Lucas Brito, Naná Simões e Rodrigo Jesus; Regente: João Callado

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SERVIÇO: qui e sex, 21h; sáb, 17h30 e 21h; dom, 20h. R$ 50 (balcão II) a R$ 150 (plateia e frisas). 120 min. Classificação: 12 anos. Até 29 de outubro. Theatro Net Rio – Rua Siqueira Campos, 143 – Copacabana. Tel: 2147-8060.