Protagonista do espetáculo “O Jornal – The Rolling Stone” e parte do elenco da novela “Segundo Sol”, o ator Dan Ferreira usou seu Instagram para criticar uma manchete de construção racista publicada pelo site Notícias da TV, do UOL. A matéria, referente a seu personagem na novela, traz o seguinte título: “Segundo Sol: Rochelle usa ‘sexo com negão’ para se vingar de irmã drogada”. O ator escreveu: “eu não sou seu negro! (…) precisamos falar sobre objetificação de corpos negros. (…) É muito difícil ver essa parcela da impressa do nosso país que, ainda se permite escrever e publicar esse tipo de manchete, que reproduz e reforça estigmas preconceituosos, reduzindo e hiper sexualizando os nossos corpos com uma escrita viciada em troca de cliques”.

(Foto: TV Globo / João Costa)

No post, Dan Ferreira afirma que o elenco da novela se esforça constantemente para não reproduzir estigmas e estereótipos. Ele acredita que essa é uma responsabilidade inerente à visibilidade dos artistas. Também ressalta que a resposta do público é positiva, com abordagens que falam sobre orgulho e representatividade.

Ei! Notícias da TV, Eu não sou seu negro! Precisamos falar sobre objetificação de corpos negros. Quisera eu, que todos tivessem ideia da responsabilidade que nos atravessa em cena pra não reproduzir estigmas, não sublinhar estereótipos, não ficar chato, fazer bem e as vezes também se permitir esquecer tudo isso. Porque não pensar sobre essas coisas e apenas executar o seu trabalho é libertador, mas nem sempre possível. Quisera eu. Porém, o que me fez escrever aqui sobre a manchete acima, além dela ser absurda, são as mensagens que recebo nas redes e nas ruas. Palavras que falam de orgulho e representatividade, e que me fazem ter compromisso e responsabilidade quando boto a minha cara na tela. É por isso que escolhi ser ator, pra comunicar, andar com o nosso tempo e contribuir com reflexão. O que para mim, enquanto jovem ator, é responsabilidade e consciência, para quem se propõem a ser jornalista deveria ser obrigação. É muito difícil ver essa parcela da impressa do nosso país que, ainda se permite escrever e publicar esse tipo de manchete, que reproduz e reforça estigmas preconceituosos, reduzindo e hiper sexualizando os nossos corpos com uma escrita viciada em troca de cliques. Sei que temos aqui, veículos e jornalistas sérios, com propósito, e é nesse tipo de imprensa que acredito e busco dialogar. Márcia Pereira, Daniel Castro, Notícias da TV, faltou respeito e responsabilidade, meus caros! Pega a visão: Os tempos são outros. Repito: Eu não sou seu negro!

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Colegas de elenco como Emílio Dantas (de “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”), Luisa Arraes (de “Grande Sertão: Veredas”), Chay Suede, Fabiula Nascimento (de “5 X Comédia”), Giovanna Lancellotti (de “Pequeno Dicionário Amoroso”) e Danilo Mesquita (de “Rio Mais Brasil”) compartilharam o post de Dan Ferreira, apoiando seu desabafo e sua indignação. O site Notícias da TV, no entanto, afirma que apenas reproduziu a fala de uma personagem do texto de João Emanuel Carneiro, autor da novela. Rochelle é uma vilã “que não deve servir de exemplo para ninguém”, segundo o veículo.

“É Rochelle quem se refere a Acácio como ‘negão’. ‘Eu agora vou mostrar o Acácio pra vocês, meu negão maravilhoso’, dirá a vilã, durante uma transmissão ao vivo para seus seguidores, no capítulo que vai ao ar na próxima quinta-feira. Também será Rochelle quem dirá que ‘usou’ o capoeirista. ‘Foi bom demais usar esse corpinho por um tempo! Só pra isso que você serve’, gritará a personagem após romper o rápido romance com ele. (…) Se Dan Ferreira ou seus colegas têm problemas com o racismo apontado no texto de João Emanuel Carneiro, que reclamem com o autor”, diz uma segunda matéria publicada pelo site, após a repercussão do post do ator no Instagram.

“Segundo Sol”, na verdade, já estreou em meio a protestos na Internet por causa do número irrisório de atores negros em seu elenco, mesmo a trama sendo ambientada em Salvador, cidade de grande população negra. Parte dos atores contratados, inclusive, realizou uma manifestação interna na emissora, concordando com a pressão popular. Apesar disso, o diretor-geral da Globo, Carlos Henrique Schroeder, e o diretor da novela, Dennis Carvalho, minimizaram a questão e disseram que a inclusão de negros na TV deve “acontecer naturalmente” e que “não pode forçar a barra” (?).