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É difícil alguém não conhecer essa história: Bentinho se apaixona por Capitu ainda na infância, os dois crescem, se casam, têm um filho, e o protagonista começa a desconfiar: será que a esposa o traiu com seu melhor amigo? Será que o menino, na verdade, não é seu filho? O mistério – sem resposta há mais de um século – vai voltar a ser debatido com fervor em breve. O livro “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, ganhará uma versão em musical teatral, com estreia prevista para o primeiro semestre de 2018 no Rio de Janeiro. O projeto é da Acorde Produções Artísticas, com adaptação, direção e coreografia de Cleto Araújo e 12 canções originais assinadas por Lucas Fraga.

– Dom Casmurro me chamou atenção desde a época do ensino médio nas aulas de literatura. – o idealizador Cleto diz ao Teatro em Cena – Não o escolhi por achar que algo presente no texto remeta a um musical, mas sim por acreditar que é uma história forte o suficiente para atingir e cativar o público, fazendo assim uma reaproximação entre a literatura nacional e o nosso povo. Dom Casmurro possui elementos em seu enredo ainda muito atuais e acredito que, no formato de teatro musical, ele atingirá mais pessoas e irá gerar a vontade da leitura.

“Dom Casmurro” já teve adaptações para o cinema em 1968 e 2003, para a televisão em 2008, e também para o teatro em diversas ocasiões, com maior ou menor relevância. Uma versão musical, contudo, é uma grande novidade. O mais perto disso ocorreu em 1992, com uma ópera homônima, com libreto de Orlando Codá e música de Ronaldo Miranda. Traduzir em música uma obra tão influente da literatura brasileira é considerado um grande desafio, claro. Mais do que isso, porém, Cleto aponta um conflito temporal com relação à representação da mulher.

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– Talvez o maior desafio tenha sido dar voz a personagem Capitu. Optei por adaptar a história pelo olhar do Bentinho, assim como é no livro, e a questão que me perseguia e procurei dar uma atenção maior junto com o Lucas Fraga (compositor) foi justamente esta: como mostrar o que a Capitu sente e pensa em uma história que é narrada pelo homem que a condena? Seria fechar os olhos para a violência que atinge milhares de mulheres em nosso país calar a Capitu. Tudo bem que a personagem não tivesse um poder de fala no livro, porém era outra época. Mas ao meu ver, seria uma injustiça fazer o mesmo em uma adaptação realizada no momento atual. Em diversos momentos, será possível ver uma Capitu forte, empoderada, que decide rumos da história e que fala por muitas mulheres.

O projeto de adaptar o livro para o teatro musical existe ha três anos, e está em fase de captação. Não será algo pequeno: a produção quer montar um elenco de 18 atores/cantores/bailarinos de idades variadas, para representar a passagem de tempo do primeiro para o segundo ato. Todos artistas serão escolhidos em audições, previstas para o fim do ano ou início do ano que vem. “Estamos em busca de gente nova e principalmente aberta às experimentações do projeto”, diz Cleto.