Patrícia Selonk fala sobre experiência de protagonizar peça de Shakespeare

Patrícia Selonk em cena de “Hamlet” (Foto: João Gabriel Monteiro)

“Por que não?”. Patrícia Selonk, membro-fundadora do Armazém Cia. de Teatro, não diz essa frase, mas é ela que guia todo seu pensamento. Com uma vida construída em coxias e salas de ensaio, ela se acostumou a pensar fora da casinha e se surpreende com perguntas bem simples. Completando 30 anos de carreira, Patrícia está em cartaz no CCBB, no Centro, com “Hamlet”, uma das peças mais famosas do mundo, de autoria de William Shakespeare (1564-1616). E ela faz o papel-título: o jovem príncipe que se finge de doido para vingar a morte do pai. Por que uma mulher de 46 anos para o papel de um homem mais novo, um garoto? Bem, porque o teatro permite esse tipo de subversão. Afinal, por que não?

– Essa questão nunca passou pela minha cabeça e acho que nem pela cabeça do Paulo [de Moraes, diretor e marido] ou dos atores. Hamlet é um personagem muito complexo. Tem uns caras famosos, como Laurence Olivier, que o fizeram com 40 e poucos anos. O teatro tem a chave dessa liberdade que é tão fabulosa. O ator pode fazer uma multiplicidade de personagens que, muitas vezes, não tem nada a ver com ele, o que é ótimo. Nem em questão de gênero, nem em opção política, nem na idade. – ela diz ao Teatro em Cena.

(Foto: João Gabriel Monteiro)

No Brasil, o príncipe da Dinamarca já foi vivido por nomes como Sergio Cardoso (1948), Walmor Chagas (1969) e Wagner Moura (2008). Uma atriz dando vida ao personagem é novidade. O papel da mulher e do feminino nesta peça, no entanto, é tema de pesquisas acadêmicas, material que Patrícia deve ter lido durante os sete meses de pesquisa e processo para a montagem. Desde que a companhia decidiu fazer “Hamlet”, estava certo que ela seria a protagonista. Patrícia Selonk é a principal atriz do Armazém Cia. de Teatro. Seu aniversário de 30 anos de carreira é o mesmo aniversário do grupo, que se formou em Londrina e se mudou para o Rio de Janeiro em 1998. Com patrocínio da Petrobras há quase 20 anos, o grupo tem sede na Fundição Progresso, na Lapa.

– Manter-se e acreditar no trabalho de grupo, de uma companhia, durante tanto tempo é top de linha, eu acho. Eu gosto da minha opção de trabalho, e é uma opção de vida também. Ela exige um perfil seu de determinação, de coragem, de afirmação de uma ideia, de um jeito de querer fazer as coisas. O saldo é muito positivo. Eu sou muito feliz e grata pela história que a gente tem construído. Acho que nem nos meus melhores sonhos aconteceria dessa forma. Comemorar 30 anos com esse espetáculo, vendo que Shakespeare é tão pulsante hoje, que o teatro continua sendo uma coisa tão fundamental para a criação de um outro jeito de existir, só me alimenta coisas boas. – diz a atriz, vencedora do Prêmio Shell de 2008 por “Inveja dos Anjos”.

Com seis indicações ao Prêmio Cesgranrio, “Hamlet” tem dado lotação máxima diariamente, com fila de espera na porta. Patrícia reconhece que a situação da companhia é privilegiada em tempos de crise. Mas nem sempre foi assim. Ela lembra que, na primeira vez que se apresentaram no Rio de Janeiro, tinha mais gente no palco do que na plateia. Ela já fez peça para público de três pessoas. Os perrengues foram vários. Durante uma temporada em São Paulo, por exemplo, todos jantavam apenas pão com leite e achocolatado durante um mês e meio. O grupo tinha conseguido um apoio para almoçar em um restaurante, mas não tinha dinheiro para a janta. Ela admite que pensou em desistir, diversas vezes, mas perseverou. Pensar em desistir faz parte da jornada.

Patrícia recebendo o Prêmio Shell (Foto: Reprodução / Marcos D’Paula)

– Eu lembro de a gente apresentar em cidades do interior de São Paulo e, quando acabava a apresentação e separávamos a grana para pagar todas as despesas, não sobrava para voltar de ônibus para Londrina. Era assim: compra duas passagens para dois atores e os outros voltam em um Fiat que o Paulo tinha, que era uma pick-up, três na parte de trás, na caçamba, cobertos por uma lona, junto com o cenário, torcendo para não acontecer nenhum acidente e não encontrar nenhuma blitz na estrada. Quando a gente olha pra trás, a gente pensa: “fiz isso e tô aqui, tô bem”. Elas dão um lugar de potência muito bom.

São 15h30, horário marcado para a entrevista, e ela atende a ligação rapidamente, desculpando-se pelo barulho que faz no local. Patrícia já está no Centro Cultural Banco do Brasil, onde tem se apresentado de cinco a seis dias por semana. As sessões são às 19h, mas os membros da companhia gostam de chegar sempre três horas antes. A preparação envolve trabalhar músculo, elasticidade, voz e também trocar uma ideia. “É preciso ter um corpo forte para abrigar essas emoções. A gente pensa assim, e a gente está em um momento bacana, em que gosta de se encontrar”, diz a atriz, “é para você estar em cena bem e, quando a peça acabar, sair tranquilo. Quando acabou, acabou. Vamos pra casa, falar de outras coisas, ficar bem e não levar tarefa pra casa”. Em tese. Quando acaba, é a hora de ouvir o que o público tem a dizer. Ela tem ficado feliz de ver como o texto reverbera nos espectadores.

O objetivo dessa montagem do Armazém é justamente encontrar um Hamlet atual. Paulo de Moraes diz que é importante tratar Shakespeare como se ele fosse um dramaturgo genial recém-descoberto, com urgências para tratar sobre a guerra, a loucura do mundo e os líderes políticos modernos. Isso guia toda a encenação. Uma preocupação de Patrícia, no caso, foi como respeitar a linguagem rebuscada necessária para o contexto da peça, mas tornando-a o mais natural e acessível possível para quem vê.

– Isso foi um desafio e tanto. Outra questão foi que, ao longo da peça, existem vários solilóquios, então como fazê-los de uma forma que não seja “muito conduzida”? Digo no sentido de impor o meu jeito para ele, para esses momentos. Como fazer com que aquele texto, uma pessoa falando, reverbere no público? Como fazer com que o público tenha, hoje em dia, paciência para ouvir e tentar entrar mais na mente desse cara?

(Foto: João Gabriel Monteiro)

TEATRO EM CENA: Você já tinha pensado que algum dia faria Hamlet?
PATRÍCIA SELONK – Nunca! (risos) Não, não tinha pensado, não. Existia uma admiração pela obra, pelo personagem. O solilóquio mais famoso da história, eu acho, que é o “ser ou não ser”, eu já tinha falado em alguns exercícios do Armazém. Mas nunca tinha pensado, não. Quando o Armazém decidiu “vamos tentar fazer um projeto em cima de Hamlet”, minha primeira impressão foi: não vou dar conta desse personagem. Quando surgiu a ideia do Paulo, quase engasguei na primeira vez. Como vou fazer isso? Mas, depois de um tempo pensando, cheguei à conclusão que não preciso dar conta dele. O mais importante é fazer essa peça e colocar esse personagem no lugar dele, que é no palco, porque, embora seja um texto literário famosíssimo, ele é uma peça de teatro. Essa possibilidade de colocar ele em cena está sendo valiosa.

Uma mulher fazendo o Hamlet: isso traz algum acréscimo à peça?
Boa pergunta. Acréscimo, eu não sei. Vou falar da minha experiência. Acho que a questão de gênero no personagem do Hamlet, de certa forma, é importante, porque a forma que ele vê a mãe e a Ofélia, em certos momentos, é um tanto quanto machista. Eu acho que o fato de eu, uma mulher, estar fazendo um personagem que tem esse viés pode ser muito interessante, porque, querendo ou não, essa questão é abordada por outro olhar: isso perpassa o corpo de uma mulher ao dizer aquelas frases. Por exemplo, “vá para um convento!”. Acho que propõe um outro olhar para a questão.

Muitos artistas já fizeram Hamlet. Tem algum que te marcou?
Sim. Eu vi um cara aqui do Brasil fazendo o Hamlet, que foi o Marco Ricca em São Paulo. Eu gostei muito da interpretação dele, era uma direção do Ulysses Cruz, e eu gostei muito da peça. O Wagner Moura, que veio assistir à nossa montagem há umas semanas, fez em 2008 – eu acho – e eu vi algumas cenas dele pela Internet, pelo Youtube. Vi algumas entrevistas que ele deu sobre o personagem, e houve de cara uma admiração pela empreitada dele de fazer e produzir a peça. Fiquei morrendo de vontade de encontrá-lo durante o processo, e até falei isso com ele, quando veio nos assistir. Que vontade de encontrar para falar “o que você pensa dessa frase? Como você entende isso?”!. Queria trocar uma ideia com alguém que já passou pela experiência de dar vida a um personagem tão complexo quanto esse. Tem uma montagem de um grupo alemão, que chama Schaubühne, e o Lars Eidinger faz um Hamlet que eu acho bárbaro. Sou fã do trabalho desse cara. É um ator com uma presença cênica… desbundante! Admiro bastante essa atuação dele. Eu não vi pessoalmente, mas de alguma forma foram coisas que me marcaram quando assisti.

O Hamlet de Lars Eidinger: referência para Patrícia (Foto: Divulgação)

Os últimos espetáculos da Armazém foram autorais. Como chegaram a decisão de montar Shakespeare justamente no 30º aniversário?
Nesse momento, acho que a peça meio que chamou a gente, sabe? Ela chamou a gente para montá-la. O Armazém realmente investe e gosta de desenvolver uma dramaturgia própria. Mas exercitar um texto pronto, um Shakespeare, pros atores, é ótimo e fundamental também. Justamente por vir de várias montagens em que o texto era uma elaboração nossa, acho que a gente queria experimentar algo diferente – pegar o texto pronto, o texto dessa envergadura do “Hamlet”. Ela ia muito de encontro a determinadas angústias da gente nesse momento. Tenho comentado sobre isso algumas vezes quando falo sobre “Hamlet”: um estudo que me marcou bastante na época do processo, um estudo de um teórico chamado Jan Kott. Um polonês, você já viu? Ele tem um livro chamado “Shakespeare, Nosso Contemporâneo”. Quando trata do “Hamlet”, ele diz que ela é como se fosse uma peça-esponja, ou seja, ela absorve muito do tempo em que é encenada. Hoje, estando com essa peça em cartaz, vejo o quanto ela é atual, o quanto é importante colocar em cena as questões que a peça levanta. Acho que a escolha do texto aconteceu porque algumas angústias estavam nos perpassando nesse momento e elas cabiam de uma forma tão acertada no “Hamlet” que foi bom. E talvez para querer, justamente, não fazer um texto próprio e começar a pesquisa de um outro jeito, sabendo o que a gente vai montar.

O Armazém é conhecido por processos longos. Quanto tempo durou a pesquisa e preparação para esse espetáculo?
Foi um processo longo. A gente teve uns sete meses de processo entre ler um monte de coisa, decidir que era o “Hamlet”, ler muitas traduções, o máximo de traduções para o português que a gente pôde, aí levantar exercícios em cima das cenas que julgávamos serem as mais essenciais do texto, depois chamar o Maurício [Arruda Mendonça] para fazer a tradução com o Paulo, selecionado já para ele as cenas que achava mais essenciais e pedindo que baseasse sua tradução em cima dessas cenas. Depois, quando chega a tradução do Maurício, refazer ene exercícios mais. Foi louco, cara. Uns sete meses, mesmo, e acho que precisou desse tempo todo para encontrar… A gente procurou encarar o Shakespeare como um igual, um cara com muita coisa para dizer para a gente hoje. Essa questão da palavra – algumas frases têm uma elaboração tão bonita, porque parecem simples, mas abrem tantas possibilidades de compreensão! Todo esse trabalho com a palavra dele foi tão preenchedor de espaço interno nosso como pessoa, como artista!

Processo criativo envolveu aulas de esgrima (Foto: Reprodução / Facebook)

Os 30 anos da Armazém são também seus 30 anos de carreira. Como está sendo para você comemorar com essa montagem? De que maneira Hamlet te desafia?
Ele me desafia o tempo todo! Penso em algumas coisas. É um tipo de personagem que produz um mergulho muito grande para dentro da gente mesmo. Um desafio foi a questão da violência, que o personagem tem. É um personagem que, em certos momentos, é bastante brutal. Foi difícil achar isso de uma forma que fosse crível para mim e para o espetáculo. Foi doído encontrar isso, porque minha levada é mais tranquila. Nessa peça, você tem o tempo todo alguma coisa para avançar ou verticalizar mais, aprofundar melhor. A cada dia, existe uma busca, pelo menos, de uma renovação ou de novas descobertas. Ela propicia muito isso. Ontem, por exemplo, um ator lá de São Paulo, o André do Grupo TAPA, estava conversando comigo no final e falou “caramba, cara, eu nunca tinha prestado atenção em uma frase, que é muito pertinente hoje – o momento que o Hamlet conta para o Horácio como foi a volta dele para a Inglaterra e diz ‘tem horas que a imprudência ajuda’”. Essa frase ficou martelando na cabeça dele. Esse tipo de peça tem muitas frases que você pensa “olha só o que o cara escreveu!”. Ele me chamou a atenção para essa, que é mesmo uma frase muito apropriada para hoje. A gente está tão confuso com o mundo, e as pessoas com tanto medo de agir, que “tem horas que a imprudência ajuda…”. Como fazer para que o medo não seja colocado em primeiro plano e, sei lá, para que algo novo surja!

A cia. é um projeto profissional e de vida, né? Quando vocês começaram, você acreditava nessa longevidade?
Acho que essas coisas não são pensadas de antemão, né? É quase como o fazer teatral – o conceito vem depois da gente ter feito, experimentado. É muito pela experiência que o conceito surge. Da mesma forma, a criação do grupo aconteceu. Foram bons encontros. Eu cruzei com o Paulo, “ah, vamos fazer uma peça?”. A primeira vontade era fazer um espetáculo. Ele teve uma repercussão na gente e nas pessoas que assistiram, o que nos animou a montar mais um. “Bem, somos um grupo!”. Depois, a vontade de profissionalizar, a necessidade de mudar de Londrina para o Rio em busca de melhores condições de trabalho. Lá atrás, eu não imaginei, não. Eu só queria muito fazer uma cena, materializar uma sensação que me foi tão mobilizadora quando li o texto. Eu acho que, de alguma forma, esse princípio continua até hoje.

(Foto: João Gabriel Monteiro)

O teatro está vivendo momentos difíceis no Rio de Janeiro. O Armazém, que é um caso raro de companhia patrocinada, foi afetado de alguma maneira por essa crise?
Acho que o Armazém passa por essa crise de todas as maneiras. É claro que tenho a consciência de que, diante do que está acontecendo, nós estamos muito bem. Nós estamos em cartaz, porque conseguimos o edital do Banco do Brasil e porque ainda continuamos com o patrocínio da Petrobras. Se eu for abrir para você para dizer o quanto… tudo está muito “burrocrático” no Brasil nesses editais ou nessas formas de patrocínio. Elas, às vezes, dificultam muito o trabalho do artista. Para você receber o dinheiro para trabalhar, você muitas vezes trabalha muito antes do dinheiro entrar. Isso acontece com a classe artística em geral, e acontece também com o Armazém. Mas, realmente, diante da situação que está, nós talvez sejamos os que estão em melhores condições.

E a peça está lotando, né?
Tá! Tá ótima! Acho que é a junção de duas coisas: uma é o público do Armazém, que foi conquistado ao longo do tempo e é a fim de saber como o Armazém conta essa história, e outra é o público do CCBB, que é um espaço com uma circulação de gente muito grande. A junção dessas duas coisas potencializa muito a quantidade de público. A fila de espera tem acontecido todos os dias e, agora que se aproxima mais do final da temporada, com um tanto de gente não conseguindo entrar. Cara, já pensou? Hoje, no Brasil, no Rio de Janeiro, diante de todas essas dificuldades de continuar exercendo um trabalho com teatro… lotar! Poxa vida! Podia se manter e se espalhar por tudo, por tantos outros espaços, né? A gente, como um grupo que tem uma sede na Fundição Progresso, tem a plena consciência do quanto é difícil levar o público para o teatro. Quando a gente vê uma reverberação dessa, uma procura dessa, é ótimo. Como o Shakespeare é popular! Nesses dias, em cena, me veio muito essa noção, na prática. Uma coisa é a gente ler que as apresentações duravam horas e que as pessoas saíam, bebiam, voltavam, tinha essa levada popular. Outra coisa é você vivenciar isso. Cara, que legal o cara que propõe discussões tão profundas sobre o ser humano ter essa adesão forte do público. O público entra na história. Eu acho sensacional. No final da peça, quando a rainha levanta a taça envenenada e oferece para o filho, todos os dias, ouço um “aaaaaah” ou um respiro da plateia. Nesses dias, uma moça não se conteve e falou “não bebe!”. A plateia inteira riu desse ato tão impulsivo nela. Já pensou que maravilha isso? A peça ser tão pulsante, tão mobilizadora desse jeito, e falar para vários públicos. Acho o máximo pessoas muito jovens verem a montagem e saírem mobilizadas – sei lá, pela questão política que a peça levanta.

Patrícia em cena com o filho, Jopa (Foto: João Gabriel Monteiro)

Mas nem sempre o Armazém teve esse sucesso de público, certo?
É bom lembrar dos perrengues quando eles passam, né? Eles adquirem uma coisa de se tornarem engraçados, pelas situações quase surreais que acontecem, e outra coisa de força também, de você saber que é possível passar por coisas duras, dolorosas, toscas que te fortalecem. Se aqui está lotado, na primeira vez que o Armazém trouxe um espetáculo para o Rio, chamado “A Ratoeira é o Gato”, uma montagem muito falada na época, a gente apresentou várias vezes para cinco pessoas, três pessoas. Tinha menos gente na plateia do que em cena, porque em cena eram seis atores. Naquela gana de “não podemos desistir”. Se tem três, a gente tem que apresentar, porque pode ser que elas tragam mais pessoas… Lembro, por exemplo, quando o Lionel Fischer assistiu à peça, lá em 94, e deviam ter seis pessoas na plateia. A gente pensava “cara, não tem como, a gente tem que apresentar, porque tem um crítico assistindo e a gente precisa que alguém comece a falar do nosso trabalho”.

Teve algum momento em que pensou em desistir?
Ah, vários! (risos) Né? Vários! Não são momentos duradouros, né? Aconteceram, para mim, de forma muito variada. Às vezes pensei em desistir, porque é difícil trabalhar em grupo, juntar um bando de personalidades diferentes e encontrar alguma coisa que una a gente para seguir. Às vezes, acontecem atritos por falta de ideias comuns para que a coisa avance e os ânimos ficam exaltados, então em mim aparece essa vontade de desistir. “Para com isso, não adianta nada, o diálogo é impossível, as pessoas são muito difíceis!” As pessoas, né – não eu. (risos) A gente faz essas burradas, né? “Você viu o que essa pessoa fez? O que ela está falando?”. Esse é um exercício também importante para a gente fazer: a gente fala muito do outro o que a gente faz muito. Isso já me fez pensar em desistir. Trabalhar em grupo é uma escolha, e uma escolha difícil em vários momentos. Falta de grana já me fez pensar em desistir também. A medida que o tempo passa, o que há de mais particular e peculiar do teatro que é a efemeridade, a instabilidade, te faz passar pela cabeça: “e se eu viver muito tempo, será que vou conseguir fazer o que faço?”. Mas, hoje em dia, não penso mais nisso. Depois dos 40 anos, isso aquietou. Não tem jeito. Vai estar sempre ali. Eu dou aula, faço outras coisas ligadas à arte, mas esse lugar da atriz é imprescindível, porque me ajuda a me manter sã.

Você tem um conselho para os atores que estão começando a carreira?
Ai, eu tenho tanto medo dessa pergunta. É sério. Até pela peça que estou fazendo: palavras, palavras, palavras podem se tornar muito esvaziadas de sentido. Acho que eu diria “não siga nenhum conselho”. Siga sua intuição. Quem sou eu para dar um conselho? Sinceramente.

_____
SERVIÇO: qua a dom, 19h. R$ 20. 130 min. Classificação: 16 anos. Até 6 de agosto. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Teatro I – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.