(Foto: Divulgação)

De cara com o criminoso: essa é a sensação buscada para o espectador em “Iter Kriminis”. A expressão, que dá título à peça/instalação em cartaz na Cidade das Artes, significa “caminho do crime” em latim. Qual o impulso que leva alguém a cometer um assassinato? O que se passa na cabeça de uma pessoa até ela executar um crime? O espetáculo parte de perguntas como essa, com intuito de aproximar o público da humanidade de cada um dos casos abordados. São nove cenas, que acontecem ao mesmo tempo, em looping, por nove vezes, em uma galeria de arte. Os atores ficam dispostos como “obras estanques” e o espectador sabe que a obra está lá, acontecendo, independente de seu olhar. A diretora Julia Carrera, do Grupo Novo de Teatro, explica que o intuito é proporcionar uma experiência de intimidade dividida e desconstruir a lógico do espetáculo, de ver e ser visto.

– Tentei criar um ambiente em que estes personagens pudessem ser observados mas com a proximidade de um contato físico, tentando recriar a sensação do close do cinema com o espaço da cena. Em um teatro convencional, isso não seria possível sem projeção, por exemplo. E o looping surgiu como uma ferramenta para aproximar o trabalho dos atores ao mecanicismo da obra de arte, para dar uma ideia de “reprodutibilidade técnica”, para citar Walter Benjamin. – ela conta ao Teatro em Cena.

(Foto: Divulgação)

O elenco – formado por Fábio Moraes, Fernanda Becker (de “Fantasia – A Magia dos Contos de Fadas”), Francisco de Assis (de “Vestido de Noiva”), Geovana Metzger (de “Meu Adorável Capitão”), Géssyca Mendes, Gillian Villa (de “O Ator e a Alma – Showcase”), Julielson Lima, Leda Ribas (de “Arsênico e Alfazema”), Manoel Borges (de “Geração Trianon”), Marcia Dutra e Thiago Sol – embarca em partituras circulares, com o fim ligado ao início. “Tecnicamente isso foi um facilitador na dinâmica de itinerância do espectador, mas subjetivamente esse dispositivo virou uma metáfora para as ideias obsessivas daqueles personagens, um pouco atormentados pelo ato que estão prestes a fazer”, diz a diretora. As cenas são inspiradas em personagens como Lady Macbeth e Ricardo III e criminosos reais. Mescladas as histórias, é possível refletir sobre a brutalidade dos criminosos reais, que muitas vezes superam os da ficção. Há a mulher que mata a machadadas para ver o marido feliz, o homem que assassina mulheres e mantém os corpos em casa (para ver TV, pentear seus cabelos…), e o que transforma os corpos esquartejados em linguiça, por exemplo. Poder observá-los de perto, em sua privacidade, aproxima o espectador do conceito de reality show, com outra disposição para a relação ator-espectador.

– De qualquer forma, tentamos oferecer ao espectador a sensação de estar bem próximo a um assassino, para despertar a sensorialidade e, quem sabe, provocar reflexões. – comenta Julia Carrera – Nas últimas décadas venho sentindo um certo desencanto com o teatro e me pergunto onde nós, fazedoras da cena, podemos estar perdendo a mão. Quebrar a forma convencional não é um mecanismo novo, muito pelo contrário, mas nos obriga a sair da zona de conforto (artistas e espectadores), na esperança de uma reconexão, de um reencanto pelo encontro através da cena.

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SERVIÇO: sáb, 19h; dom, 18h. R$ 50. 60 min. Classificação: 16 anos. Até 25 de março. Cidade das Artes – Sala VIP – Avenida das Américas, 5300 – Barra da Tijuca. Tel: 3328-5300.